Se Flávio copiar Bukele, vai prender seus amigos milicianos?

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Por Leandro Becker — Intercept Brasil

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Entramos nesse período eleitoral tendo a segurança pública como a maior preocupação dos brasileiros e, como esperado, foi um tema tratado pelos candidatos.

Flávio Bolsonaro, como muitos outros, usou El Salvador como modelo e chegou a reunir-se com o ministro da Justiça e Segurança Pública de lá, Gustavo Villatoro. Disse que “a experiência de El Salvador mostra que é possível enfrentar o crime organizado com firmeza” e utilizou Bukele, o presidente do país, como uma espécie de slogan.

Nada muito diferente de Romeu Zema, do Novo, e Renan Santos, do Missão, que também disputaram o primeiro turno. Acontece que Flávio promete bukelismo, mas basta olhar para seu histórico de vida para notar que ele tem outra coisa para entregar. Vamos chamar essa coisa de  milicianismo.

Como o milicianismo opera além do Rio

O milicianismo não é um grupo armado, não é uma organização criminosa. É um modelo de negócio, uma prática que já se espalha pelo país há alguns anos. A referência principal é o que acontece no Rio de Janeiro.

Há 18 anos, Flávio se opôs à CPI das Milícias e defendeu que não poderíamos “estigmatizar a milícia”. Diferentemente do que costuma dizer quando confrontado com suas falas do passado, não era uma questão de falta de entendimento. Flávio tem amigos, assessores, parceiros de negócio, companheiros da longa trajetória de seu pai e da sua também, que lucram com esse modelo de negócio. Não tinha mesmo como ir contra isso.

‘O milicianismo não é um grupo armado, não é uma organização criminosa. É um modelo de negócio, uma prática que já se espalha pelo país há alguns anos’.

Estou falando de nomes como Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega. Esses são os mais conhecidos, mas não são os únicos. Há outros tantos casos, como o dos irmãos gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, ambos policiais militares. Trabalharam na segurança de Flávio, e a irmã deles fazia parte do lendário gabinete dele na Alerj. Foram presos em 2018, acusados de extorsão e conexão com milícias da Zona Oeste.

É grande o rol de ex-agentes das forças de segurança que habita o entorno da família Bolsonaro. E não é por acaso que, com frequência, alguns deles aparecem enrolados em esquemas de todo tipo.

A expansão das milícias pelo Brasil: do Nordeste à Amazônia

O milicianismo, no entanto, não é uma prática exclusiva do Rio de Janeiro. Na última quarta-feira (7/10), uma operação do Ministério Público da Bahia prendeu o tenente-coronel da PM Luiz Augusto Normanha de Carvalho, acusado de receber R$ 286 mil para não agir contra uma milícia que atua há mais de dez anos em Correntina, no oeste do estado.

Segundo o MP, o grupo é chefiado pelo sargento da reserva Carlos Erlani Gonçalves Santos. A milícia ameaçava e expulsava comunidades tradicionais de suas terras a serviço de fazendeiros da região, e operava por meio de uma empresa de fachada registrada como de segurança privada, sem autorização da Polícia Federal.

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Como eu disse, estamos falando de um modelo de negócio. São pessoas e organizações que vendem “segurança” e a capacidade de operar como força letal. Na Amazônia, com frequência, estão a serviço da mineração ilegal e do extrativismo. No Nordeste, ameaçam pequenos produtores rurais e comunidades quilombolas. Nas grandes cidades, podem vender “segurança privada”.

Medo e lucro: o mercado da segurança privada

Vejamos o caso de São Paulo, estado governado por Tarcísio de Freitas, reeleito no primeiro turno pelo Republicanos. Os dados mostram queda em muitos crimes, como latrocínio, roubo de veículo e até roubo de rua. Mas, enquanto os números caem no geral, aumentam nos bairros nobres, como Jardins e Pinheiros.

Isso gera um efeito interessante: grupos de moradores desses bairros são intensamente abordados com propostas vindas de empresas de segurança privada. A violência gera medo para uns e é matéria-prima para outros.

Não há uma coordenação entre todas essas práticas que mencionei – tampouco uma única organização por trás. O milicianismo é um “modo de ver” a segurança: uma commodity que gera lucro e poder.

Bukelismo ou estelionato eleitoral nas eleições?

É essa a raiz das relações de Flávio Bolsonaro. Para os Queiroz e Adrianos que operam por todo o Brasil, a violência é negócio. Não há nenhum interesse em acabar com ela. Pelo contrário, quanto mais violência, mais segurança para se vender.

O brasileiro deseja mudança, isso está bastante claro. Chegamos ao segundo turno com uma forte promessa que aponta para o bukelismo. É bom nos prepararmos para o estelionato eleitoral, caso Flávio Bolsonaro seja eleito no dia 25.

O que Flávio tem para entregar é o desmonte de políticas públicas e a ausência de estado que tão bem impulsionam os negócios do milicianismo. Afinal de contas, não dá para deixar os parceiros de longa data no prejuízo.

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Fonte: Intercept Brasil

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