São João da Barra: o PIB atravessa o porto, a riqueza não cruza a cerca
Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski
Uma reportagem publicada nesta terça-feira (29) pelo Tempo Real RJ expõe uma contradição que deveria constranger os defensores da ideia de que um grande empreendimento, por si só, produz desenvolvimento: São João da Barra aparece com o terceiro maior PIB do estado do Rio de Janeiro, enquanto mais de 70% de sua população está inscrita no Cadastro Único. O número exige uma leitura cuidadosa: estar no CadÚnico não significa que todas essas pessoas vivam na pobreza ou recebam Bolsa Família. Ainda assim, o contraste entre a dimensão da economia municipal e a quantidade de moradores que recorrem ao cadastro social é eloquente.
O PIB per capita de São João da Barra chegou a R$ 382.417,42 em 2023, segundo o IBGE. Mas essa cifra resulta da divisão de tudo o que é produzido no município pelo número de habitantes; não representa a renda recebida por cada morador. No caso de uma economia marcada por grandes operações portuárias, energéticas e petrolíferas, confundir as duas coisas é especialmente conveniente para quem prefere celebrar indicadores a examinar a distribuição da riqueza.
O Porto do Açu ajuda a explicar essa distância entre produção e condições de vida. A Prumo, responsável pelo desenvolvimento do complexo, é controlada pela EIG Global Energy Partners, gestora internacional de investimentos em energia e infraestrutura. A própria empresa identifica a EIG como sua controladora. Assim, decisões centrais sobre o uso de uma extensa área do território sanjoanense estão ligadas a uma estratégia de valorização de ativos que ultrapassa, em muito, as necessidades do município.
Chamar o Porto do Açu de enclave de recursos é uma interpretação política e territorial dessa estrutura. Terra, acesso marítimo, infraestrutura, energia e água são organizados para atender cadeias de negócios de grande escala. O complexo movimenta atividades que entram na contabilidade local, mas sua presença não garante, automaticamente, renda bem distribuída, serviços públicos proporcionais ou poder de decisão para as comunidades vizinhas. O dado trazido pelo Tempo Real RJ é um motivo concreto para cobrar essa prestação de contas.
O peso das estatais no negócio privado
Há ainda uma ironia pouco discutida: a consolidação desse empreendimento sob controle privado internacional conta com a participação de empresas estatais. A SPIC Brasil, ligada à estatal chinesa State Power Investment Corporation, adquiriu 33% dos projetos termelétricos GNA I e GNA II. No mesmo anúncio, a Prumo informou que a GNA II havia firmado financiamento de US$ 737 milhões com o BNDES. São formas distintas de participação, mas ambas mostram que a expansão do complexo depende também de capital e capacidade institucional associados ao Estado. A SPIC é sócia dos projetos de geração de energia; isso não significa que controle o Porto do Açu.
O resultado é uma combinação que merece escrutínio público: uma gestora internacional controla a empresa que desenvolve o porto; uma estatal chinesa participa de negócios estratégicos dentro dele; e financiamento público brasileiro integra a construção de parte dessa infraestrutura. Enquanto isso, os moradores de São João da Barra precisam demonstrar sua condição socioeconômica para acessar políticas sociais. A pergunta não é se o porto produz riqueza. Os números indicam que produz. A pergunta é quem a controla, quem se apropria dos seus resultados e quanto dela chega à população que vive no território.
A reportagem do Tempo Real RJ oferece um ponto de partida para essa discussão. Se o PIB bilionário continuar sendo apresentado como prova suficiente de sucesso, o desenvolvimento de São João da Barra permanecerá preso à fotografia tirada do lado de dentro da cerca. Do lado de fora, vivem as pessoas que também deveriam aparecer no balanço.
Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).
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Fonte: Blog do Pedlowski
