Hackers miram dados e dinheiro do agro; setor registra 39 mil tentativas de invasão e é o terceiro mais visado no Brasil

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Por Luan Monteiro — Jornal Opção

Hackers miram dados e dinheiro do agro; setor registra 39 mil tentativas de invasão e é o terceiro mais visado no Brasil

O avanço da tecnologia no campo trouxe ganhos de produtividade para o agronegócio, mas também ampliou a exposição do setor a ataques cibernéticos. Em 2025, empresas do segmento foram alvo de 39.034 tentativas de invasão, segundo levantamento da empresa de cibersegurança ISH Tecnologia. O número representa uma média de aproximadamente 3,2 mil ataques por mês.

O agronegócio aparece como o terceiro setor mais visado por cibercriminosos no Brasil, atrás da indústria e do governo. Entre os ataques de ransomware identificados no país, modalidade em que criminosos bloqueiam sistemas ou arquivos e cobram valores para devolver o acesso, 10% tiveram empresas do agro como alvo.

Luis Carlos Crema | Foto: Arquivo Pessoal

A digitalização acelerada das atividades rurais é apontada como um dos fatores que aumentaram a exposição. Sensores, drones, sistemas de irrigação conectados, plataformas de rastreabilidade e softwares de gestão passaram a integrar diferentes etapas da produção, criando também novos pontos de acesso a redes e bancos de dados.

Nesse cenário, as cooperativas agropecuárias concentram uma quantidade significativa de informações de produtores. Segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro, o segmento movimentou R$ 487,3 bilhões em 2025.

Para Luis Carlos Crema, presidente da Solterra Soluções Inteligentes, a expansão do agronegócio brasileiro e a aproximação entre cooperativas agropecuárias e de crédito ajudaram a aumentar a atratividade do setor para criminosos digitais. “Primeiro, é que o setor de agronegócio do Brasil como um todo perfaz em torno de 25% do PIB. Então, o agronegócio brasileiro chama a atenção desses criminosos para esse tipo de invasão cibernética”, afirmou ao Jornal Opção.

Segundo Crema, as cooperativas agropecuárias passaram a ganhar ainda mais atenção à medida que grandes cooperativas de crédito se desenvolveram e estreitaram relações com o setor. “As cooperativas, até então, não vinham sofrendo esse ataque massivo como outras indústrias do agronegócio. Como houve uma evolução e uma constituição de grandes cooperativas de crédito que estão vinculadas também às cooperativas do agronegócio, isso começou a chamar a atenção para esses ataques cibernéticos”, explica.

Dados vão de CPF ao histórico de produção

Além de dados cadastrais, os sistemas das cooperativas podem armazenar informações financeiras, fiscais, de produção e de crédito dos associados. O volume de informações faz com que um eventual vazamento tenha consequências que vão além da interrupção de sistemas.

“O cooperado acumula dados que vão do CPF até o histórico de produção, crédito e tributação. Quando esse volume circula por sistemas sem controle de acesso auditável, qualquer incidente pode se transformar em um problema regulatório antes mesmo de se transformar em prejuízo financeiro”, afirmou.

De acordo com o presidente da Solterra, os bancos de dados podem reunir desde informações básicas, como CPF, endereço, e-mail e contas bancárias, até dados relacionados à participação do produtor na própria cooperativa. “Nas bases de dados estão todas as movimentações que o cooperado tem. Por exemplo, se ele entregou uma tonelada, duas toneladas ou três toneladas de grãos por mês ou por ano, todas essas informações estão dentro dessas bases de dados”, explica.

Para Crema, o avanço da informatização no campo também aumenta a quantidade de informações que passam a circular pelos sistemas das cooperativas. “Os produtores rurais acabam sendo os mais vulneráveis nesse momento, porque agora está chegando ao campo a informatização, a digitalização dos processos e procedimentos”, afirma.

LGPD aumenta exigências

A preocupação com a segurança dos dados também ganhou espaço na atuação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Em junho de 2026, o órgão abriu 19 novos processos administrativos sancionadores, segundo as informações apresentadas pela empresa.

Entre os pontos que podem resultar em autuações estão problemas relacionados à base legal para tratamento de dados, vazamentos, falta de transparência com os titulares e falhas de segurança da informação. As penalidades previstas na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) podem chegar a 2% do faturamento da empresa, limitadas a R$ 50 milhões por infração.

A legislação estabelece uma série de obrigações para organizações que realizam tratamento de dados pessoais. Entre elas estão a manutenção de registros das operações de tratamento, a elaboração de Relatório de Impacto à Proteção de Dados Pessoais quando aplicável e a indicação de um encarregado pelo tratamento de dados.

As medidas devem fazer parte da estrutura de proteção das organizações mesmo quando não há registro de vazamento.

Para Crema, em caso de incidente, a cooperativa pode ser responsabilizada administrativamente se ficar demonstrado que não adotou as medidas de segurança exigidas pela legislação. “A própria lei estabelece esse mínimo de proteção, que vai desde procedimentos contratuais até medidas preventivas no aspecto da tecnologia da informação nos próprios servidores”, afirma.

Segundo ele, a adequação envolve tanto procedimentos jurídicos e administrativos quanto mecanismos tecnológicos. “É uma série de medidas que a lei exige que sejam adotadas, tanto no direito civil, que envolve informações, contratos, autorizações e declarações, como também na parte de informática, que exige uma série de proteções, de firewalls e de proteção aos servidores para garantir que esses dados fiquem inacessíveis”, explica.

Reforma tributária também traz desafios

Embora a segurança digital seja uma preocupação crescente, Crema aponta outro desafio que atualmente ocupa espaço na rotina das cooperativas e dos produtores: a adaptação às mudanças provocadas pela reforma tributária.

Segundo ele, a transição para o novo modelo de tributação exigirá alterações nos processos contábeis das cooperativas e dos produtores rurais, especialmente diante da implementação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). “A grande dificuldade está hoje em como esses produtores rurais, esses cooperados, vão fazer suas contabilidades para se adequarem ao novo modelo tributário, que inicia em 1º de janeiro de 2027”, disse.

Na avaliação do presidente da Solterra, a proteção dos dados deve começar pela própria estrutura interna das cooperativas. Entre as medidas necessárias estão a revisão dos sistemas utilizados na gestão e a realização de auditorias periódicas. “É essencial que essas cooperativas façam suas assembleias gerais e exponham essas situações aos produtores. Além, claro, de fazer uma auditoria nos sistemas internos, nos ERPs, que são os programas de gestão empresarial”, afirmou.

Crema cita como exemplo o sistema desenvolvido pela própria empresa, o ST7 COOP, voltado à gestão de cooperativas agropecuárias. Segundo ele, a plataforma passa por auditorias para identificar e reduzir possíveis vulnerabilidades.

A adoção de sistemas específicos, porém, é apenas uma das frentes de proteção. Com a crescente digitalização das operações agropecuárias, a segurança depende também de políticas de acesso, monitoramento, treinamento de funcionários, auditorias e procedimentos de resposta a incidentes. “O objetivo é minimizar cada vez mais essas possíveis falhas que possam permitir acesso aos hackers”, completou.

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Fonte: Jornal Opção

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