Rússia e Estados Unidos continuarão sendo adversários estratégicos, afirma Medvedev

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Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – As relações entre Rússia e Estados Unidos sofreram uma deterioração que poderá se prolongar por décadas, independentemente de eventuais avanços diplomáticos entre os dois países. A avaliação é de Dmitry Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, que afirmou nesta terça-feira (20) que Moscou e Washington continuarão sendo adversários estruturais no cenário internacional.

Segundo a agência russa TASS, Medvedev fez as declarações em uma publicação na plataforma Max, na qual analisou a política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à Rússia. Embora tenha reconhecido o pragmatismo do líder norte-americano ao adiar novas sanções contra Moscou, o dirigente russo sustentou que as divergências entre as duas potências ultrapassam decisões conjunturais de seus governos.

“Devemos reconhecer que as relações entre a Rússia e os Estados Unidos foram novamente prejudicadas por décadas. Fomos, somos e continuaremos sendo adversários sistêmicos”, escreveu Medvedev.

A manifestação ocorre em meio às discussões em Washington sobre a imposição de novas medidas restritivas contra a Rússia e às tentativas de negociação de uma solução para o conflito na Ucrânia.

Medvedev destaca caráter temporário da decisão de Trump sobre sanções

Um dos principais pontos abordados pelo ex-presidente russo foi a declaração de Trump de que a Casa Branca não pretende impor novas sanções à Rússia neste momento, para evitar comprometer as perspectivas de um acordo relacionado à guerra na Ucrânia.

Medvedev chamou atenção especificamente para a expressão “neste momento”, utilizada pelo presidente norte-americano. Na avaliação do dirigente russo, a ressalva demonstra que a possibilidade de novas punições econômicas permanece aberta, mesmo diante dos esforços diplomáticos.

A decisão de Trump provocou reações divergentes no Congresso dos Estados Unidos. Enquanto parlamentares criticam o adiamento das medidas, outros apoiam a opção de preservar espaço para negociações com Moscou.

O debate envolve o projeto de lei de sanções contra Rússia e Irã apresentado pelo senador republicano Lindsey Graham, conhecido como Lei Graham, que prevê ampliar os instrumentos de pressão econômica sobre os dois países.

Apesar de suas críticas à política norte-americana, Medvedev reconheceu que a posição adotada por Trump exige disposição para enfrentar resistências políticas internas, especialmente diante das eleições legislativas nos Estados Unidos.

“É claro que há uma certa dose de coragem nisso, especialmente às vésperas das eleições para o Congresso, que são extremamente difíceis para os republicanos, considerando o lobby russofóbico e pró-Bandera no Congresso dos Estados Unidos e a pressão dos degenerados europeus”, afirmou.

A referência a Bandera diz respeito a Stepan Bandera, figura histórica do nacionalismo ucraniano frequentemente mencionada pelas autoridades russas em críticas a setores políticos da Ucrânia e a seus apoiadores ocidentais.

Dirigente russo vê pragmatismo na atuação de Trump

Medvedev também descreveu Trump como um político pragmático, capaz de avaliar os possíveis benefícios econômicos e diplomáticos de uma aproximação pontual com a Rússia.

Segundo o vice-presidente do Conselho de Segurança, determinadas iniciativas bilaterais poderiam oferecer vantagens concretas ao presidente norte-americano, mesmo em um ambiente marcado pela rivalidade entre os dois países.

“Tanto o acordo sobre diesel com a Rússia quanto uma série de outras medidas poderiam lhe render dividendos bastante tangíveis”, declarou.

A avaliação sugere que Medvedev distingue os interesses imediatos da administração Trump das características mais duradouras da relação entre Moscou e Washington. Para ele, eventuais entendimentos comerciais ou decisões de flexibilização de sanções não seriam suficientes para alterar a natureza da disputa entre as duas potências.

Nesse sentido, o dirigente russo considera que a disposição de Trump para negociar pode produzir resultados específicos, mas não representa necessariamente uma transformação estrutural da política externa dos Estados Unidos em relação à Rússia.

Projeto de sanções pode prolongar tensões por décadas

A principal preocupação expressa por Medvedev está relacionada aos efeitos de longo prazo da legislação de sanções em discussão no Congresso norte-americano.

Na avaliação do ex-presidente russo, a Lei Graham não deve ser interpretada apenas como uma resposta às circunstâncias atuais do conflito na Ucrânia, mas como um mecanismo permanente de pressão sobre Moscou.

Medvedev classificou a proposta como um instrumento de hostilidade institucionalizada contra a Rússia, argumentando que sua eventual aprovação poderia condicionar as relações bilaterais durante várias administrações presidenciais.

Para o dirigente, mesmo que presidentes norte-americanos decidam suspender temporariamente determinadas restrições, a existência de uma estrutura legal de sanções permitiria retomar as medidas em momentos de divergência diplomática.

As decisões de suspender a aplicação de dispositivos específicos da legislação, segundo ele, “se transformarão em uma série de tentativas — ao longo de décadas — de chantagear e romper relações com a Rússia em diversas questões”.

O argumento central de Medvedev é que a possibilidade de flexibilização temporária não elimina o potencial de pressão de uma legislação sancionatória. Ao contrário, poderia transformar a suspensão das penalidades em instrumento recorrente de negociação política.

Medvedev relembra experiência com Obama e legislação da Guerra Fria

Para sustentar sua avaliação, Medvedev recorreu a um episódio das relações entre Moscou e Washington durante a presidência de Barack Obama.

O dirigente mencionou a emenda Jackson-Vanik, dispositivo aprovado pelos Estados Unidos em 1974 que vinculava determinadas condições comerciais à política de emigração de países de economia não mercantil, especialmente a União Soviética.

A legislação permaneceu como um elemento das relações comerciais entre os dois países mesmo depois do fim da Guerra Fria e da dissolução da União Soviética, até sua revogação em relação à Rússia, em 2012.

Medvedev afirmou que Obama costumava destacar, durante conversas entre os dois, o uso de mecanismos de dispensa de aplicação da emenda e os esforços para sua revogação.

“Lembro-me de como o ‘melhor amigo’ de Trump, Obama, atribuía a si próprio, em conversas comigo, o mérito de utilizar uma dispensa prevista na há muito obsoleta emenda Jackson-Vanik e de revogar a própria emenda. Isso aconteceu 35 anos depois de sua adoção. Essa história sobreviverá a mais de uma geração de políticos”, concluiu.

Fonte: Brasil 247

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