Riscos de Eventual Vitória Eleitoral do Neofascismo no Brasil: Baixe o Livro, por Fernando N. da Costa

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Por Fernando Nogueira da CostaGGN

Riscos de Eventual Vitória Eleitoral do Neofascismo no Brasil: Baixe o Livro

por Fernando Nogueira da Costa

Uma vitória eleitoral da extrema direita no Brasil levará à submissão aos interesses de Donald Trump no país como a exploração de suas terras raras e o exclusivismo comercial com os Estados Unidos. Provocará certo corte das relações comerciais com a China, contrariando inclusive os interesses econômicos do agronegócio exportador, apoiador da extrema direita contra invasão de suas terras, mas a favor de sua invasão e exploração da Amazônia.

Apesar de serem riscos plausíveis, contra-argumenta-se não ser uma consequência automática de uma vitória eleitoral da extrema direita. Isso porque entre as três proposições, uma é improvável:

1. uma aproximação político-estratégica com Trump é bastante provável;

2. concessões em minerais críticos e enfraquecimento dos BRICS são possíveis;

3. já romper comercialmente com a China seria economicamente tão custoso a ponto de, provavelmente, produzir forte resistência dentro da própria coalizão de direita, sobretudo do agronegócio.

O paradoxo apontado mostra a diferença entre ideologia política e interesse econômico.

1. Um governo de extrema direita provavelmente se aproximaria muito mais de Trump

Isso já não é apenas uma inferência a partir de 2019-2022. Na campanha brasileira atual, há propostas explícitas nesse sentido: Flávio Bolsonaro defende cooperação privilegiada com os EUA e saída dos BRICS, enquanto outros candidatos de direita também propõem aproximação maior com Washington; ao mesmo tempo, a disputa EUA–China por minerais críticos brasileiros tornou-se tema relevante da política externa.

Isso poderia produzir uma sequência: afinidade ideológica com Trump → aproximação diplomática → pressão para afastamento dos BRICS/China → acordos preferenciais com os EUA → acesso norte-americano a minerais críticos → alinhamento em tecnologia, defesa e segurança → menor autonomia estratégica brasileira. Mas cada seta representa uma decisão política negociável, não uma consequência necessária.

2. As terras raras tornaram-se especialmente estratégicas

A razão é a disputa tecnológica EUA–China. Terras raras e outros minerais críticos são necessários para ímãs, semicondutores, equipamentos militares, veículos elétricos, armazenamento de energia, turbinas e inúmeras tecnologias avançadas. Os EUA estão procurando ativamente diversificar suas fontes porque a China ainda domina grande parte do processamento mundial desses minerais.

O Brasil, por sua dotação mineral, torna-se então objeto de disputa entre: EUA ↔ China ↔ União Europeia.

A questão nacional decisiva não deveria ser simplesmente “para quem vender o minério?”. Deveria ser: qual parcela da cadeia de valor ficará no Brasil?

Há uma diferença enorme entre: mina → minério → exportação e mina → separação/refino → materiais avançados → componentes → equipamentos → tecnologia.

O próprio debate brasileiro atual sobre minerais críticos enfatiza justamente a necessidade de beneficiamento doméstico e agregação de valor.  Portanto, a política soberanista do atual governo Lula III pode perfeitamente permitir capital norte-americano, chinês, europeu ou de outras origens, mas condicionando-o a processamento nacional, transferência tecnológica, participação brasileira, proteção ambiental e integração a uma estratégia industrial.

O problema não é a nacionalidade do investimento por si só. É transformar riqueza mineral brasileira em enclave extrativo estrangeiro.

3. Mas cortar relações comerciais com a China atingiria diretamente a base econômica da própria direita

Aqui está a contradição mais forte da hipótese. Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões. A China comprou US$ 55,3 bilhões, ou 32,7%, enquanto os Estados Unidos compraram apenas US$ 11,4 bilhões, ou 6,7%. Logo, para o agro: China ≈ 5 × Estados Unidos, em valor exportado em 2025.

A dependência é especialmente forte em soja e carnes. No primeiro semestre de 2025, por exemplo, 68,7% da pauta agropecuária destinada à China era constituída pelo complexo soja e outros 14,3% por carnes.

Em 2026, a China continuou sendo de longe o maior mercado do agronegócio brasileiro: no primeiro trimestre recebeu 29,8% das exportações agropecuárias, contra 5,9% dos EUA.

Portanto, um eventual governo brasileiro entreguista dizendo: “Vamos abandonar a China para nos alinhar economicamente aos Estados Unidos” encontraria rapidamente outra voz dentro da própria coalizão de direita: “E quem vai comprar nossa soja, carne, celulose e outros produtos?”

4. Trump defende apenas o agricultor norte-americano, não o brasileiro

Esse aspecto torna a contradição ainda maior. O nacionalismo econômico de Trump é, por definição, nacionalismo norte-americano. O objetivo dele não é maximizar as exportações brasileiras. É só defender o America First: emprego americano + indústria americana + agricultura americana + segurança nacional americana. MAGA significa a sigla do slogan político norte-americano Make America Great Again.

O acordo recente de Trump com a China ilustra isso claramente: Pequim assumiu compromissos de comprar pelo menos US$ 17 bilhões anuais de produtos agrícolas norte-americanos em 2026-28, além dos compromissos específicos envolvendo soja, e ampliou acesso para carne bovina e aves dos EUA. Prejudicou o Brasil.

Portanto, o agricultor brasileiro bolsonarista e o agricultor americano trumpista podem ser aliados ideológicos, mas são também concorrentes econômicos.

Trump, caso consiga convencer a China a substituir soja brasileira por soja norte-americana, terá cumprido precisamente sua promessa America First. É uma contradição objetiva entre a internacional política da extrema direita e a competição econômica entre seus nacionalismos.

5. Isso provavelmente imporia um limite ao alinhamento brasileiro

Já ocorreu algo semelhante durante o primeiro governo Bolsonaro. A ala ideológica possuía posições fortemente anti-China, enquanto segmentos do agronegócio e integrantes mais pragmáticos do governo percebiam ser inviável transformar o principal cliente comercial brasileiro em inimigo.

Se for o caso infeliz, novamente dois subsistemas estarão disputando o governo de extrema-direita: o subsistema ideológico a favor de Trump + Israel + anticomunismo + anti-China + anti-BRICS versus o subsistema econômico em defesa de seus interesses pessoais em agronegócio + mineração + exportadores + empresas multinacionais + China como mercado.

O resultado provavelmente seria determinado pela intensidade dos custos econômicos. Por isso, é provável um afastamento diplomático e estratégico da China – e não um total rompimento comercial.

6. A questão amazônica acrescenta outra contradição

Na realidade, nem todo o agronegócio é “a favor da invasão e exploração da Amazônia”. O agronegócio brasileiro é heterogêneo. Grandes empresas exportadoras integradas às cadeias globais podem ter interesse exatamente contrário, porque desmatamento ilegal e conflitos fundiários ameaçam acesso a mercados, financiamento e reputação internacional.

Há, entretanto, uma coalizão distinta de fronteira econômica, envolvendo em diferentes combinações proprietários rurais, mineração, garimpo, madeireiros e interesses fundiários, para a qual menor fiscalização ambiental e maior abertura territorial podem ser economicamente vantajosas.

É necessário distinguir: agronegócio exportador moderno de Economia Política da fronteira agro-mineral. Eles se sobrepõem parcialmente, mas não são a mesma coisa.

7. Terras raras tornam essa tensão ainda mais séria

Imagine um governo ideologicamente alinhado a Washington recebendo a proposta: “Empresas americanas investem bilhões, exploram minerais críticos brasileiros e garantem fornecimento aos EUA.”

Isso pode parecer excelente inicialmente: IDE + emprego + exportações + arrecadação. Mas cabe perguntar: quem controla a jazida? Quem domina a tecnologia de separação? onde ocorre o refino? Quem fabrica os ímãs? Quem detém as patentes? Onde fica o centro de P&D? Quem captura as rendas minerais? Quem assume o passivo ambiental?

Se o Brasil permanecer apenas na primeira etapa: recurso natural brasileiro → extração → exportação → industrialização nos EUA, teríamos reproduzido uma velha especialização periférica com uma mercadoria tecnologicamente nova. O minério seria do século XXI; a relação centro-periferia continuaria bastante antiga.

8. Por isso, a “submissão” será definida operacionalmente

Eu não caracterizaria automaticamente qualquer parceria com os EUA como submissão, assim como parceria com a China não significa submissão à China.

A questão é a assimetria de negociação.

Atualmente, há um critério de cooperação internacional: Brasil obtém tecnologia + investimento + mercado + processamento doméstico + autonomia decisória. Uma coisa é dependência: o Brasil fornece matéria-prima e mercado, mas depende de tecnologia e capital estrangeiros. Outra coisa é subordinação:

Brasil sacrifica interesses econômicos próprios para atender objetivos geopolíticos da potência dominante sem compensação equivalente.

Por esse critério já dá para avaliar concretamente um eventual governo de extrema direita. Seria um desastre para a soberania nacional!

9. A contradição central apareceria dentro do próprio bloco político

Poderíamos representá-la assim: TRUMP / EUA querem minerais + mercado + redução da influência chinesa + exportações americanas. Farão pressão sobre o governo brasileiro de extrema direita, cuja ala ideológica é pró Estados Unidos e Israel, anti-China, anti-BRICS, mas a base econômica composta de agro, mineração e exportadores será contra aproximar-se de os EUA preservar a China. A melhor atitude eleitoral diante dessa contradição interna é votar na continuidade do atual governo com pragmatismo.

Essa contradição não é secundária: a China absorveu 32,7% das exportações do agronegócio brasileiro em 2025, contra apenas 6,7% dos EUA. Por isso, um governo entreguista terá dificuldade em conseguir sustentar por muito tempo um exclusivismo comercial com os EUA e uma ruptura com a China sem provocar reação do próprio empresariado, caso o apoie.

Em uma ironia da Economia Política, chegaríamos então a um paradoxo ainda mais paradoxal diante daquele da bandeira americana em manifestações de camisas amarelas, discutido anteriormente.

O ruralista poderia apoiar a extrema direita porque deseja: propriedade + conservadorismo + menor regulação + segurança + antipetismo. A extrema direita aproxima-se de Trump porque compartilha: conservadorismo + anticomunismo + guerra cultural + anti-China. Trump, porém, governa segundo o princípio da America First.

E America First significa promover: agricultor americano + mineradora americana + indústria americana + tecnologia americana. Portanto, o aliado político estrangeiro do produtor brasileiro pode tornar-se seu concorrente econômico.

Essa é justamente a limitação de uma “internacional nacionalista de extrema-direita”: todos conseguem compartilhar os mesmos inimigos ideológicos, mas não podem colocar simultaneamente suas próprias nações em primeiro lugar quando seus interesses materiais entram em conflito.

Para o Brasil, uma estratégia verdadeiramente soberanista seria menos “EUA ou China?” e mais “EUA e China — além de UE, Índia e outros — competindo pelo acesso ao mercado e aos recursos brasileiros sob condições estabelecidas por uma estratégia nacional de desenvolvimento”. A multipolaridade, nesse sentido, pode aumentar o poder de barganha brasileiro em vez de o eleitor obrigá-lo a escolher uma nova relação de dependência.

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Fernando Nogueira da Costa – Frente Ampla Democrática contra Neofascismo – set 2026

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Fonte: GGN

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