Reginaldo Nasser: “A defesa da soberania nacional é um princípio para Lula”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – A defesa da soberania brasileira apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira (22) corresponde a um princípio que orienta sua política externa e não apenas a uma resposta circunstancial às tensões com os Estados Unidos. A avaliação é do professor de Relações Internacionais Reginaldo Nasser, que, antes do pronunciamento presidencial em Nova York, antecipou que a autonomia nacional e a rejeição às interferências estrangeiras estariam entre os principais eixos da manifestação de Lula.
Em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, Nasser afirmou que o presidente deveria levar à ONU uma mensagem baseada na soberania, no multilateralismo e na rejeição às intervenções externas, sem transformar as divergências com o governo de Donald Trump em uma política de confronto direto com Washington. Horas depois, Lula colocou esses temas no centro de seu pronunciamento na abertura do Debate Geral da 81ª Assembleia Geral.
A formulação que sintetizou essa posição veio quando o presidente declarou na tribuna das Nações Unidas que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Lula alertou para a retomada de disputas por zonas de influência, criticou interferências estrangeiras em processos eleitorais e sustentou que os países latino-americanos devem decidir seus próprios caminhos políticos.
A frase utilizada por Lula também remete ao título do livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, do economista Paulo Nogueira Batista Jr., publicado originalmente em 2019. A obra discute justamente a necessidade de uma inserção internacional autônoma do Brasil e a possibilidade de o país manter relações com diferentes centros de poder sem se subordinar automaticamente a nenhum deles.
A fala de Lula ocorreu em um cenário internacional marcado pelo aprofundamento das divisões geopolíticas. Na abertura da Assembleia, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que as divisões mundiais estão aumentando e defendeu que o poder seja submetido às regras internacionais. A 81ª Assembleia reúne representantes dos 193 Estados-membros entre 22 e 28 de setembro.
Foi exatamente nesse contexto que Nasser havia situado a posição brasileira.
“Creio que, de um lado, [Lula vai] reforçar o princípio de soberania, soberania nacional, reforçar o posicionamento que o Brasil tem no mundo em termos de multilateralismo, de críticas às ações bélicas, às ações militares”, afirmou o professor na entrevista.
A avaliação ganhou outro significado depois do pronunciamento presidencial. Lula defendeu na ONU que o Brasil não aceitará interferências externas contra a vontade manifestada nas urnas e relacionou a defesa da democracia ao direito dos países de preservar sua autonomia diante das grandes potências.
Para Nasser, essa posição deriva de uma concepção segundo a qual a soberania precisa funcionar nos dois sentidos. O Brasil não reivindica o direito de decidir os rumos políticos de outros países e, pelo mesmo princípio, não admite que governos estrangeiros determinem seus caminhos internos.
Ao analisar especificamente a relação com Donald Trump, o professor resumiu essa concepção: “Trump fica na dele. Ele foi eleito nos Estados Unidos. […] Tal como ele entende que não deve interferir nos Estados Unidos, o Trump não deve interferir aqui. É o princípio da soberania”.
Nasser acrescentou: “Ele não tem mandato, ele não tem atribuição nenhuma para interferir nos outros países. Isso fere princípio internacional, mas sem confronto”.
Essa última ressalva ocupa posição importante na análise do professor. Para ele, defender a autonomia brasileira não significa buscar uma escalada permanente com Washington. O Brasil precisa estabelecer seus limites e defender seus interesses, mas preservar os canais diplomáticos com os Estados Unidos.
“Não pode ir para o afrontamento com os Estados Unidos, por várias razões, seja pela assimetria de poder, seja para manter também a coerência que ele tem em termos de soberania”, disse.
A diferença estabelecida por Nasser é entre confronto e independência. Em sua leitura, o governo brasileiro pode divergir de Washington e rejeitar pressões externas sem transformar a relação bilateral em um enfrentamento sistemático.
O discurso de Lula na ONU seguiu essa lógica. Ao afirmar que o Brasil busca parceiros capazes de contribuir para seu desenvolvimento, o presidente apresentou a autonomia como capacidade de estabelecer relações internacionais a partir dos interesses brasileiros, em vez de organizar a política externa por alinhamentos automáticos.
A declaração “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” sintetizou essa concepção e estabeleceu uma conexão com a tese desenvolvida por Paulo Nogueira Batista Jr. em seu livro. O economista, que representou o Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI) e ocupou a vice-presidência do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, sustenta na obra que as dimensões econômica, territorial, populacional e diplomática do país permitem uma atuação independente no sistema internacional.
Mais do que a coincidência entre a frase presidencial e o título do livro, há uma convergência em torno da questão colocada no centro do debate: qual deve ser o lugar do Brasil em um mundo marcado pela competição entre grandes potências?
Na entrevista à TV 247, Nasser apontou que essa discussão acompanha Lula desde seus primeiros governos. Segundo ele, a atual defesa da soberania está ligada a uma tradição de política externa que combina autonomia nacional, multilateralismo, combate à pobreza e crítica à utilização da força militar como instrumento prioritário das relações internacionais.
Essa linha também aparece em pronunciamentos anteriores de Lula nas Nações Unidas. Em 2024, por exemplo, o presidente afirmou que seu governo não abdicava da soberania brasileira e relacionou o conceito ao direito do Estado de legislar, julgar conflitos e aplicar suas regras dentro do território nacional.
Nasser também chamou atenção para a dimensão eleitoral da discussão. A menos de duas semanas da eleição presidencial brasileira, as relações com os Estados Unidos passaram a integrar o debate sobre soberania, democracia e interferência estrangeira.
“Acho que ele vai bater na mesma tecla, que eu acho que é realmente um princípio do Lula, que ele tem convicção: a soberania do país, que nós não queremos ver intervenção no país, queremos alguém influenciando as eleições”, afirmou Nasser antes do discurso.
Na ONU, Lula efetivamente abordou o tema ao advertir contra interferências externas em processos eleitorais e sustentar que a democracia brasileira deve ser exercida sem ingerência estrangeira.
Para Nasser, no entanto, seria insuficiente interpretar essa posição apenas como estratégia eleitoral. A defesa da soberania estaria vinculada a uma concepção mais ampla sobre o lugar do Brasil no mundo.
O professor também relacionou essa estratégia à transformação da ordem internacional. A ascensão da China, a ampliação do peso político do Sul Global, o fortalecimento dos BRICS e os conflitos envolvendo grandes potências reduziram a capacidade de uma única força organizar o sistema internacional.
Ao mesmo tempo, Nasser demonstrou ceticismo em relação à capacidade atual do Conselho de Segurança das Nações Unidas de responder aos principais conflitos. Para ele, o mecanismo concebido no pós-Segunda Guerra depende do entendimento entre as potências que possuem poder de veto.
“O Conselho de Segurança foi pensado para, quando agir, agir em consenso de grandes potências. Por isso que tem o veto. […] Se tem consenso, ele tem força. Se não tem consenso, ele não tem”, explicou.
Essa discussão ocorre no momento em que a própria ONU reconhece a necessidade de reconstruir a confiança no sistema multilateral. O tema oficial do Debate Geral de 2026 é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
Nasser diferencia, contudo, a paralisia política do Conselho de Segurança da importância das demais estruturas das Nações Unidas. Para ele, as agências humanitárias e outros organismos internacionais continuam desempenhando funções necessárias, mesmo quando as grandes potências impedem consensos sobre guerras e crises internacionais.
É nesse cenário que a defesa da soberania apresentada por Lula assume uma dimensão mais ampla. Ao rejeitar a transformação da América Latina em área de influência de qualquer potência, o presidente procura posicionar o Brasil como um país disposto a dialogar com diferentes polos do sistema internacional.
Para Nasser, essa posição não significa neutralidade diante de todos os conflitos nem isolamento. Significa preservar a capacidade brasileira de tomar decisões próprias.
O professor identifica ainda diferenças entre os estilos de negociação de Lula e Trump. “O Trump cresce quando ele vê fraqueza no contexto, ele vê brecha, ele vai em cima. […] De outro lado, o Lula é um outro estilo de negociador”, afirmou.
A resposta brasileira, nessa interpretação, não estaria nem na submissão a Washington nem na ruptura com os Estados Unidos, mas na afirmação dos interesses nacionais dentro de uma política externa aberta à negociação.
“Todos pensam no interesse nacional. O Trump pensa no interesse nacional dos Estados Unidos, com certeza. […] E o Lula também”, disse Nasser.
Depois do discurso na Assembleia Geral, a análise feita pelo professor ganha um elemento concreto. A soberania que Nasser apontava como princípio apareceu na tribuna da ONU como uma das mensagens centrais apresentadas por Lula ao sistema internacional.
Ao declarar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, Lula condensou uma concepção segundo a qual as relações com Estados Unidos, China, Europa, BRICS e demais polos internacionais devem partir da autonomia brasileira.
Foi justamente esse o ponto antecipado por Nasser: para Lula, a defesa da soberania não exige abandonar a negociação com as grandes potências. Exige estabelecer que nenhuma delas pode decidir pelo Brasil.
Fonte: Brasil 247