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Por Flavia CoimbraSUMAÚMA

Uma pausa para desesquecer que esquece do milagre

Qual o remédio para quem tem febre de exploração?
Qual o médico que trata a dor de desmatamento?
Quem pega urbanização sente o quê?

Depois de ‘mandar à merda esta vida de merda’, o autor de ‘Macunaíma’ navegou os rios Amazonas e Madeira ‘até dizer chega’. No diário de viagem transformado em livro, o sentimento transborda e a Natureza arrebata

O cacique Raoni em abril de 2026, na posse de Lucia Alberta Baré como presidenta da Funai, no Acampamento Terra Livre. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA

Lucia Alberta Baré, atual presidenta da Funai, reflete sobre a liderança do cacique, que esteve em sua posse em abril de 2026

O mês de abril, dos povos indígenas, teve para mim um significado ainda mais especial neste ano. Durante o Acampamento Terra Livre, na capital federal, a maior mobilização indígena do país, tive a honra de assumir a presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) cercada por lideranças, parentes e aliados históricos da luta indígena. Entre todas as presenças marcantes daquele momento, uma carregava um simbolismo profundo: a do cacique Raoni Mẽtyktire.

Raoni, do povo indígena Mẽbêngôkre Mẽtyktire, é uma das maiores lideranças indígenas do Brasil e do mundo. Sua trajetória de décadas na defesa dos direitos dos povos indígenas, da Floresta Amazônica e da proteção dos territórios tradicionais ajudou a construir importantes conquistas para as gerações presentes e futuras. Sua voz ecoou em espaços nacionais e internacionais, articulando importantes parcerias e protagonizando debates que resultaram no fortalecimento das políticas de demarcação das Terras Indígenas e na conquista dos direitos indígenas constitucionais no Brasil. Além disso, o cacique Raoni, a partir de uma perspectiva crítica e de sua postura de guerreiro-diplomata, defendeu em diversos momentos que a demarcação e a proteção dos territórios contra as grandes ameaças externas são condições essenciais para a proteção da vida, da diversidade cultural e dos conhecimentos ancestrais dos povos indígenas.

Conheço de perto sua liderança. Estive com o cacique Raoni em sua aldeia, na Terra Indígena Capoto/Jarina, no norte do estado de Mato Grosso, na divisa com o Pará, Bacia do Rio Xingu, ouvindo seus ensinamentos e testemunhando seu compromisso inabalável com seu povo e com a defesa dos Territórios Indígenas. Também compartilho a luta pelo reconhecimento da Terra Indígena Kapôt Nhĩnore, território onde Raoni passou a infância e que tem profundo significado histórico, cultural e espiritual para seu povo. A atuação da Funai nesse processo reafirma nosso compromisso com a reparação histórica e com a garantia dos direitos territoriais dos povos indígenas.

Sua presença em minha posse representou muito mais do que um gesto de apoio. Representou a confiança de uma liderança histórica na reconstrução e no fortalecimento da Funai e a valorização da gestão indígena do órgão. Para mim, sua trajetória é uma fonte permanente de inspiração. Sua coragem, serenidade, firmeza de princípios e dedicação à defesa dos povos indígenas reforçam diariamente meu compromisso com esta missão. Assumir a presidência da Funai é dar continuidade à luta de lideranças como Raoni, que dedicam suas vidas à proteção dos territórios e dos direitos indígenas. Receber suas palavras, proferidas na língua Mẽbêngôkre, seu abraço e sua bênção naquele momento foi uma grande honra e uma responsabilidade que levarei comigo em cada decisão, trabalhando para que a Funai esteja cada vez mais à altura dos desafios e dos sonhos dos povos indígenas do Brasil. Vida longa ao seu legado!

                            Raoni em 1988, durante vigília indígena no Congresso, nas negociações da Constituinte. Foto: Beto Ricardo/ISA

Lucia Alberta Baré tem graduação em ciências sociais e mestrado em educação pela Universidade Federal do Amazonas (2005). Atuou como coordenadora do Programa de Formação Superior Indígena do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental. Foi assessora da presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Já coordenou a política nacional de educação escolar indígena no Ministério da Educação (MEC). Atuou ainda na assessoria legislativa da deputada federal Joenia Wapichana, na Câmara dos Deputados. Foi diretora de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável na Funai e, na sequência, diretora de Gestão Ambiental e Territorial da Funai. Atualmente é a presidenta da Funai.

Texto: Lucia Alberta Baré
Edição: Talita Bedinelli
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Soraia Joffely
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Julieta Sueldo Boedo
Tradução para o inglês:  Diane Whitty
Edição em inglês: Jonathan Watts
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum

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Fonte: SUMAÚMA

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