Rachas por falta de verba e alianças estaduais desafiam Flávio Bolsonaro no Nordeste

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Por Wendal CarmoCarta Capital

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A região é historicamente associada a Lula e ao petismo

A menos de um mês das eleições, diretórios do PL no Nordeste têm disputas internas sobre alegada falta de recursos e material de campanha, além do baixo empenho de candidaturas estaduais em torno do projeto presidencial encabeçado por Flávio Bolsonaro

Os impasses ocorrem no momento em que o filho de Jair Bolsonaro (PL) tenta ampliar a presença do bolsonarismo na região, historicamente favorável a Lula (PT). Em 2022, o atual chefe do Palácio do Planalto venceu no Nordeste por 12,5 milhões de votos de diferença, vantagem que contribuiu para sua vitória nacional sobre o ex-capitão do Exército, de 2,1 milhões de votos. 

Esse cenário é resultado dos diferentes arranjos construídos pelo PL para a eleição. A sigla lançou candidatos próprios ao governo em alguns estados, aderiu a chapas de adversários em outros, mesmo sem promessa de reciprocidade política e, em outra frente, concentrou esforços nas disputas para o Senado.

Um desses exemplos está em Alagoas, onde Flávio fez sua primeira agenda de campanha no Nordeste, no final de agosto. O estado tem peso simbólico para o bolsonarismo: foi o único da região vencido por Bolsonaro no segundo turno de 2022. Além disso, o deputado federal Alfredo Gaspar , vice do presidenciável do PL, é alagoano. 

Os atos de Flávio, contudo, tiveram a presença apenas de militantes de extrema-direita. Apoiados pelo PL no estado, o candidato ao governo João Henrique Caldas (PSDB) e ao Senado, Arthur Lira (PP), não deram as caras – situação que incomodou aliados de Flávio. Questionado por jornalistas durante agenda de campanha na última segunda-feira 7, JHC também desconversou sobre quem apoiará na corrida presidencial. 

Em Sergipe, o racha na sigla se tornou público e levou o presidenciável a “retirar” seu apoio a um dos postulantes dos postulantes ao Senado no estado. A disputa começou em torno da divisão dos recursos de campanha e escalou para acusações de traição ao bolsonarismo.

O deputado federal Rodrigo Valadares , que concorre ao cargo neste pleito, acusa o correligionário Coronel Rocha de “chantagear o partido por dinheiro” e “trabalhar contra” seu grupo político. O estopim para a crise foram críticas públicas de Rocha à falta de recursos e material de campanha.

Nesta terça-feira 8, o ex-vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (SC) chegou a gravar um vídeo no qual diz que Valadares seria o único postulante à Casa Alta no estado a contar com o endosso do seu pai. 

A chapa bolsonarista em Sergipe é encabeçada pelo vice-prefeito de Aracaju, Ricardo Marques, nome que não tem empolgado nas pesquisas de intenção de votos e cuja trajetória política não é vinculada ao bolsonarismo. Ele foi atraído para o PL após o rompimento do clã Valadares com o grupo político de Valmir de Francisquinho, o que desorganizou a composição anterior do partido no estado.

Reclamações sobre falta de verba para a campanha também aparecem na Bahia, com candidatos alegando dificuldades para obter recursos e material de divulgação de Flávio. Em outra frente, dirigentes se queixam nos bastidores da postura de João Roma , presidente estadual do PL, que consideram pouco empenhado na campanha do presidenciável.

Candidato ao Senado na chapa de ACM Neto (União), o ex-ministro da Cidadania não fez menção a Bolsonaro ou à família do ex-presidente em sua primeira inserção na TV, concentrando a apresentação em sua passagem pelo ministério. Integrantes do diretório baiano também apontam como sinal desse distanciamento a identidade visual adotada por Roma, alinhada à campanha de Neto, com predominância das cores azul, rosa e branco.

Roma, no entanto, afirma que a defesa de Bolsonaro faz parte de sua atuação política e diz pedir votos para Flávio em agendas ao lado de Neto. O ex-prefeito de Salvador, embora tenha o apoio do PL na disputa estadual, declarou voto em Ronaldo Caiado (PSD) para a Presidência.

O endosso a Caiado aparece, nesse cenário, como uma saída para a campanha de Neto. Como mostrou CartaCapital , o entorno dele avalia que o presidenciável do PSD oferece uma alternativa capaz de reduzir a exposição à polarização entre Lula e o filho de Jair Bolsonaro.  Embora ainda desconhecido do grande público, Caiado ocuparia um espaço de centro-direita que, na avaliação desses aliados, permite reunir políticos com diferentes preferências para a Presidência sem contaminar a disputa pelo Palácio de Ondina. 

É um arranjo semelhante ao do Ceará, onde o PL integra a chapa de Ciro Gomes (PSDB) para o governo com Alcides Fernandes como candidato ao Senado, mas o acordo foi delimitado à disputa estadual e não se estende à corrida presidencial.

Dirigentes do partido no estado afirmam que a aliança tem caráter pragmático, já que Ciro é considerado o único nome competitivo da oposição a Elmano de Freitas (PT), que concorre à reeleição.  A aliança, no entanto, ainda não foi totalmente digerida pela ala mais ideológica do PL e provocou a briga pública entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e Flávio. 

Uma pesquisa Datafolha divulgada na semana passada aponta que o presidente Lula mantém uma vantagem de 34 pontos percentuais no eleitorado nordestino em relação ao seu adversário. 

Aliados de Flávio admitem que a campanha do PL dificilmente conseguirá reverter o quadro favorável ao presidente devido aos arranjos locais. Mas mantém a expectativa de que, em eventual segundo turno, com as disputas estaduais já encerradas, a articulação é para que líderes do PL na região trabalhem ativamente contra o petista. 


Wendal Carmo

Repórter do site de CartaCapital no Nordeste

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Fonte: Carta Capital

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