Quer fazer a sua empresa crescer nas redes sociais e vender mais? Talvez seja hora de mostrar quem está por trás dela
Por Marystela Barbosa — Seu Dinheiro

Quando Letícia Vaz começou a empreender em 2015, aos 17 anos, sua preocupação era fazer o negócio funcionar e conseguir pagar a faculdade. A ideia de transformar sua imagem pessoal em uma ferramenta de construção de marca ainda não existia. A mudança veio conforme ela começou a usar as redes sociais para compartilhar a rotina, os bastidores, os desafios e as decisões relacionadas ao negócio.
Aos poucos, percebeu que havia interesse não apenas pelos produtos da marca de roupas femininas LV Store, mas também pela pessoa que estava por trás da empresa.
“Existia uma curiosidade muito maior pela jornada do que simplesmente pelo produto. As pessoas queriam acompanhar o ‘como’”, conta.
Hoje, ela coleciona números de uma comunidade forte no Instagram. Sua conta pessoal, como influenciadora, já tem quase 700 mil seguidores, enquanto a marca de moda soma mais de 540 mil. A página do clube, que é especial para as “clientes mais fieis”, tem cerca de 8 mil.
A experiência de Letícia acontece em um mercado no qual as redes sociais já fazem parte da estratégia comercial de boa parte dos pequenos negócios brasileiros. Uma pesquisa do Sebrae mostra que 73% dos deles utilizam algum tipo de perfil ou página em redes sociais. O Instagram aparece como a principal plataforma, presente em 64% deles.
O ambiente também ganhou escala entre os consumidores. Segundo o relatório Digital 2026, do DataReportal, o Brasil tinha 147 milhões de usuários de Instagram no fim de 2025, o equivalente a 69% da população. No TikTok, eram 131 milhões de usuários adultos no país.
Isso ajuda a explicar por que a presença digital deixou de ser apenas uma extensão da comunicação das empresas. Para as PMEs, as redes passaram a cumprir também funções de descoberta, relacionamento e venda.
Nesse contexto, a trajetória de Letícia deixa algumas lições para empreendedores que estão começando a transformar a própria presença digital em parte da estratégia da empresa.
Comece nas redes sociais pelo que você já sabe
O primeiro passo não é aprender a fazer vídeos perfeitos, comprar equipamentos ou tentar reproduzir o comportamento de grandes influenciadores. É identificar o conhecimento que o empreendedor já possui e que pode ser útil para outras pessoas.
No caso de Letícia, esse conteúdo surgiu da própria experiência à frente da empresa. Dúvidas de clientes, decisões de gestão, erros, processos, aprendizados e situações da rotina passaram a fazer parte da comunicação.
“Se você conhece profundamente o seu produto, o seu cliente e o problema que resolve, você já tem muito conteúdo para compartilhar”, afirma.
Para uma PME, isso significa olhar para a própria operação antes de procurar assuntos para publicar.
Quais perguntas os clientes fazem com frequência? Que problemas a empresa resolve? Que situações fazem parte da rotina do negócio? Quais decisões exigiram mais aprendizado?
Um escritório de contabilidade pode explicar erros comuns cometidos por pequenas empresas. Uma clínica pode responder dúvidas frequentes dos clientes. Um escritório de advocacia pode explicar conceitos que costumam gerar confusão.
O conteúdo não precisa começar falando sobre a empresa. Pode começar resolvendo um problema que o público enfrenta.
Mostre o processo, não apenas o resultado
Uma das mudanças na estratégia de Letícia aconteceu quando ela percebeu que havia interesse em acompanhar a construção do negócio.
Decisões, erros, processos, resultados e bastidores passaram a fazer parte do conteúdo. Segundo ela, esse tipo de abordagem cria uma conexão maior porque permite que o público entenda o que acontece por trás da empresa.
É uma mudança simples de perspectiva. Em vez de publicar apenas o que a empresa vende, o empreendedor pode mostrar como trabalha, por que tomou determinada decisão e quais problemas precisou resolver para chegar ao resultado.
Para uma PME, os bastidores podem ser uma fonte constante de conteúdo.
O empreendedor pode mostrar como um produto é desenvolvido, como funciona um atendimento, como uma equipe resolve determinado problema ou até mesmo o que não deu certo em uma tentativa anterior.
Erros também podem fazer parte dessa estratégia. Em vez de esconder todo problema ou dificuldade, o empreendedor pode transformar um aprendizado real em conteúdo, desde que exista algo relevante a compartilhar.
Isso também é importante para que o empreendedor não seja visto com um catálogo, só aparecendo quando tem o objetivo de vender alguma coisa.
“A minha imagem não está ali só para vender produto. Ela está ali para gerar contexto, confiança e conexão. E, quando isso acontece, a venda vira uma consequência”, explica Leticia.
O indicado é alternar conteúdos comerciais com informações que ajudem o público, mostrem os bastidores, contem histórias ou apresentem a visão do empreendedor sobre determinado assunto.
Assim, a comunicação deixa de ser apenas “compre isso” e passa a ser “entenda por que isso pode ser importante para você”.
Para uma PME, a dica é observar se o perfil está funcionando apenas como uma vitrine. Se a maior parte das publicações termina em uma oferta, pode ser necessário ampliar os formatos de conteúdo.
Marca pessoal e profissional podem ser diferentes
Outro aprendizado veio da própria relação entre o crescimento da marca pessoal de Letícia e a LV Store.
No início, ela imaginava que as pessoas que acompanhavam a loja migrariam naturalmente para seu perfil pessoal, mas não foi tão simples. Segundo a empreendedora, a audiência pessoal começou a crescer também por outro motivo: o interesse em empreendedorismo, negócios, marketing e na experiência de Letícia como empresária. Com isso, ela percebeu que havia duas comunidades diferentes.
A LV Store reúne uma audiência relacionada à moda e ao lifestyle da marca. Já o perfil pessoal passou a atrair pessoas interessadas em empreendedorismo, gestão e negócios.
A conclusão é relevante para qualquer PME: os perfis da empresa e do fundador não precisam ser tratados como se fossem a mesma coisa.
Eles podem conversar entre si, mas cada um pode ter uma proposta, um público e uma razão diferente para existir.
Para o empreendedor, isso significa definir o que as pessoas devem encontrar em cada espaço.
O perfil da empresa pode concentrar produtos, serviços, clientes, novidades, bastidores da operação e conteúdos relacionados ao mercado em que atua. Já o perfil pessoal pode abordar a experiência do fundador, aprendizados, opiniões, decisões e conhecimentos construídos ao longo da trajetória.
A separação ajuda a evitar que a marca fique dependente de uma única narrativa.
“Hoje eu penso muito mais em atenção, confiança e conversão”, diz Letícia. “Não adianta milhões de pessoas te vendo se ninguém entende o que você representa, no que você acredita ou por que deveria comprar de você.”
Coloque o produto em contexto
Mostrar o produto não precisa significar fazer uma publicação promocional.
A própria trajetória da LV Store mostra como o produto pode estar inserido em um conteúdo maior. Quando a empreendedora começou a realizar vendas, ela montava looks completos e vendia em grupos de universitários no Facebook para serem usados em festas que já estavam marcadas.
Em vez de apresentar apenas uma peça, o empreendedor pode mostrar como ela é utilizada, qual problema resolve, como foi escolhida ou em que situação faz sentido para o cliente.
Essa lógica vale para diferentes segmentos.
Uma empresa de tecnologia pode mostrar como seu produto resolve uma situação específica.
Uma consultoria pode apresentar um problema enfrentado por seus clientes e explicar como trabalha para solucioná-lo. Um restaurante pode mostrar o prato que será comido em uma data especial, como o Dia dos Namorados ou Dia das Mães.
Não espere perder a vergonha para começar
Para empreendedores que têm dificuldade de aparecer, Letícia não recomenda começar tentando se transformar em uma grande personalidade da internet.
“Você não precisa virar um influenciador para aparecer nas redes. Você precisa dar uma voz para o seu negócio”, afirma.
Isso reduz a pressão sobre a própria imagem e coloca o foco no conhecimento que pode ser compartilhado.
Também não é necessário começar com cenário elaborado, equipamentos profissionais ou roteiros complexos.
“Você começa desconfortável, aprende, melhora e, em algum momento, percebe que aparecer deixou de ser sobre você e passou a ser sobre a oportunidade de levar o seu negócio para mais pessoas.”
Coloque limites para não transformar a vida em conteúdo
Ser a cara da empresa não significa tornar toda a vida pessoal pública. Para Letícia, autenticidade não é sinônimo de exposição total. É possível compartilhar experiências reais sem abrir mão da privacidade.
Uma pergunta pode ajudar a estabelecer esse limite: isso contribui para a história que estou construindo ou estou apenas expondo minha vida?
Se não houver uma razão clara para compartilhar determinado episódio, ele pode continuar fora das redes.
Monitore os resultados para que a audiência vire venda
Construir audiência é apenas uma etapa. O próximo desafio é criar caminhos para que essa atenção possa chegar ao negócio. Para isso, é preciso olhar além do número de seguidores crescendo.
O empreendedor pode observar quais conteúdos geram mais mensagens, quais perguntas aparecem com frequência e quais publicações levam as pessoas a buscar informações sobre produtos ou serviços.
Tambpem é importante acompanhar os comentários compartilhamentos, acessos ao site, cadastros, leads e vendas para entender se o conteúdo está aproximando as pessoas do negócio.
“Não adianta milhões de pessoas te vendo se ninguém entende o que você representa, no que você acredita ou por que deveria comprar de você”, afirma Letícia.
A lógica é não tratar audiência como objetivo final. Ela precisa estar conectada a uma estratégia comercial.
Construa uma empresa que funcione sem você
Quanto mais a imagem do fundador gera resultado, maior pode ser o risco de criar uma dependência excessiva dela.
Letícia passou por esse processo e percebeu que, se todas as decisões, toda a comunicação e todo o crescimento dependessem de sua presença, acabaria construindo uma empresa que precisaria dela o tempo inteiro.
A solução foi trabalhar também na construção da marca, da equipe, da cultura e dos processos.
O empreendedor continua sendo um ativo importante para a comunicação, mas deixa de ser o único responsável pela existência da empresa.
“Existe uma diferença enorme entre ser o rosto da empresa e ser a empresa”, afirma.
Para uma PME, essa talvez seja uma das principais preocupações ao transformar o fundador em uma figura pública.
A imagem pessoal deve fortalecer o negócio, e não substituir a marca.
Isso significa documentar processos, dividir responsabilidades, formar uma equipe capaz de tomar decisões e construir uma identidade que não dependa exclusivamente da pessoa que aparece nos vídeos.
Também significa pensar desde cedo sobre o que acontece quando o empreendedor não está disponível.
Se apenas o fundador sabe como determinada tarefa deve ser feita, se apenas ele consegue responder aos clientes ou se apenas ele consegue produzir conteúdo, a empresa pode estar criando uma dependência difícil de sustentar conforme cresce.
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Fonte: Seu Dinheiro