Quem pode chegar ao Planalto com Flávio Bolsonaro?
Por Benedito Tadeu César — Brasil 247
Na primeira matéria desta série, a RED reconstruiu uma rede de relações que acompanha Flávio Bolsonaro há mais de duas décadas. Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega, Frederick Wassef e, mais recentemente, Daniel Vorcaro e personagens de Dark Horse aparecem em diferentes momentos dessa trajetória.
Agora é preciso olhar para a frente.
Porque uma candidatura presidencial não é apenas um nome na urna. É também a formação antecipada de um governo: quem coordena, quem formula, quem financia, quem aconselha, quem abre portas, quem controla a comunicação e quem acompanha o candidato quando o poder se aproxima.
A campanha de Flávio permite enxergar parte desse desenho. Há um núcleo formal, composto por políticos e economistas experientes. Há a família Bolsonaro, cuja influência jamais foi apenas doméstica. E há personagens do passado que, em vez de serem afastados, continuam circulando no ambiente político do candidato.
A questão é simples: quem pode chegar ao Planalto com Flávio Bolsonaro?
Rogério Marinho comanda a operação
O senador Rogério Marinho é o coordenador da campanha e ocupa hoje uma das posições mais importantes no projeto presidencial de Flávio. Ex-ministro do Desenvolvimento Regional de Jair Bolsonaro, ex-secretário especial da Previdência e do Trabalho de Paulo Guedes e atual líder da oposição no Senado, ele fornece ao candidato aquilo que Flávio não construiu sozinho: articulação nacional, trânsito no Congresso e experiência administrativa.
Marinho também está na linha de frente do confronto com o Supremo. Nos últimos dias, passou a explorar politicamente a crise aberta pelo caso Banco Master e voltou a defender o encerramento do inquérito das fake news. A combinação é reveladora: o coordenador da campanha não administra apenas palanques e alianças. Participa diretamente da ofensiva institucional que pode marcar um eventual novo governo Bolsonaro.
Daniella Marques prepara a economia — e recruta o governo
Se Marinho organiza a política, Daniella Marques tornou-se o principal nome da área econômica. Ex-presidente da Caixa e antiga auxiliar de Paulo Guedes, ela coordena a elaboração das propostas, acompanha Flávio em encontros com empresários e banqueiros e já funciona como recrutadora de quadros para um eventual governo.
A tarefa vai além de escrever um programa. Daniella vem recebendo nomes do mercado interessados em participar de uma futura administração. Alexandre Bettamio, executivo do Bank of America, e Marcelo Kayath, ex-presidente do Credit Suisse no Brasil, apareceram entre os cotados para a Fazenda. Adolfo Sachsida, ex-ministro de Jair Bolsonaro, integra formalmente a equipe e prepara propostas de desregulamentação da economia. Adriano Pires e Alexandre Chequer trabalham nos temas de energia e infraestrutura.
Nesta segunda-feira, 15 de setembro, Daniella foi ainda mais clara sobre a direção pretendida: apresentou Javier Milei como “um ótimo exemplo” e defendeu enxugamento do Estado, revisão de normas tributárias e uma agenda de desregulamentação. Estudos do Conselho Superior de Economia da Fiesp, presidido por Roberto Campos Neto, também estão servindo de referência à formulação econômica da candidatura.
O desenho econômico, portanto, já aparece: menos Estado, forte ajuste fiscal, desregulamentação e retomada, em versão atualizada, da agenda econômica do governo Jair Bolsonaro.
O passado também está no palanque
Mas não são apenas ministros, senadores e economistas que cercam Flávio.
Frederick Wassef estava no lançamento nacional da candidatura, em 25 de julho. É o mesmo advogado ligado à família Bolsonaro cuja propriedade em Atibaia abrigava Fabrício Queiroz quando ele foi preso em 2020.
Queiroz também continua politicamente próximo. Flávio apoiou sua candidatura a vereador em 2024, e o ex-assessor voltou a declarar apoio ao antigo chefe na disputa presidencial.
Isso importa porque revela uma escolha. Flávio teve anos para romper politicamente com os personagens que simbolizaram o escândalo das rachadinhas. Não rompeu.
Wassef reaparece no palco. Queiroz permanece aliado.
O passado não está batendo à porta da campanha.
Já entrou.
A família continua sendo um centro de poder
E existe a família.
Jair Bolsonaro está preso após ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses por liderar a tentativa de golpe de Estado. Sua presença, porém, permanece no centro simbólico e político da candidatura do filho.
Eduardo Bolsonaro ocupa uma posição ainda mais delicada. Foi condenado pelo STF, em junho, a quatro anos e dois meses por coação no curso do processo, devido à atuação nos Estados Unidos para interferir no julgamento do pai. Ao mesmo tempo, aparece nos documentos de Dark Horse: a Polícia Federal identificou sua participação, juntamente com o advogado Paulo Calixto, na estruturação financeira utilizada para movimentar recursos do filme nos Estados Unidos. Eduardo também é investigado no inquérito que apura o financiamento da produção.
Carlos Bolsonaro, por sua vez, foi indiciado pela Polícia Federal no caso da chamada Abin paralela e continua sendo personagem importante do núcleo político familiar.
Não se trata, portanto, apenas da influência natural de parentes sobre um candidato. Jair, Eduardo e Carlos são atores políticos com projetos, redes próprias e histórico de atuação direta sobre o Estado.
Uma eventual Presidência de Flávio recolocaria esse núcleo familiar dentro do centro do poder federal.
E Flávio pode chegar investigado
Há, entretanto, uma diferença decisiva entre 2018 e 2026.
Desta vez, o próprio candidato pode chegar à Presidência carregando uma investigação criminal aberta no Supremo.
Desde 22 de julho, Flávio Bolsonaro é formalmente investigado no inquérito sobre o financiamento de Dark Horse. A investigação foi aberta por determinação de André Mendonça, a pedido da Polícia Federal e com aval da Procuradoria-Geral da República, para apurar possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e delitos correlatos.
A PF descreveu Flávio como “interlocutor direto” de Daniel Vorcaro nas tratativas para financiar o filme. Os investigadores encontraram mensagens, cobranças de pagamentos e indícios de reuniões presenciais. A negociação alcançou pelo menos US$ 24 milhões, dos quais cerca de US$ 12,3 milhões foram efetivamente transferidos.
O doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, teve sua delação homologada por Mendonça. Ele relatou remessas destinadas ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, utilizado no financiamento de Dark Horse, feitas por ordem de Vorcaro após pedidos de Flávio.
Paralelamente, outra frente investiga a possível utilização de dinheiro público no circuito financeiro relacionado à produção. Mário Frias foi alvo da Polícia Federal, e a investigação alcançou o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, que também controla a Go Up Entertainment, produtora do filme. O ICB recebeu R$ 2 milhões em emendas de Frias e mantém com a Prefeitura de São Paulo um contrato que, com aditivo, alcançou aproximadamente R$ 157 milhões.
São investigações abertas durante a campanha que podem continuar depois da eleição.
O que pode atravessar 1º de janeiro de 2027
O quadro revela uma situação incomum: algumas das investigações mais sensíveis do país poderão continuar em andamento justamente quando pessoas ligadas a elas estiverem próximas do chefe do Executivo — ou quando o próprio presidente estiver sob investigação.
O poder de um presidente sobre o Estado
Isso muda a dimensão do problema.
A Presidência da República comanda a administração federal. O presidente nomeia ministros, escolhe o ministro da Justiça, indica o diretor-geral da Polícia Federal, nomeia o advogado-geral da União e participa da escolha do procurador-geral da República. Também indica ministros do Supremo quando surgem vagas e controla milhares de cargos na máquina pública.
Não é necessário imaginar uma ordem ilegal para compreender o tamanho do conflito potencial. Basta olhar para a concentração de poder institucional nas mãos de alguém que pode assumir o cargo enquanto investigações alcançam a si próprio, familiares, aliados e pessoas de sua confiança.
A experiência do governo Jair Bolsonaro torna essa preocupação ainda mais concreta. Seu governo foi marcado por sucessivos confrontos com a Polícia Federal, o Supremo e o sistema eleitoral. Terminou com Jair condenado pelo STF por liderar a tentativa de golpe de Estado.
Agora o projeto retorna com outro Bolsonaro na cabeça da chapa.
Não é apenas Flávio que está disputando a eleição
A campanha tenta apresentar Flávio como uma versão mais moderada e institucional do bolsonarismo. O entorno mostra algo mais complexo.
Rogério Marinho articula a política e confronta o Supremo. Daniella Marques prepara uma agenda econômica de forte redução do Estado e já recruta quadros para um eventual governo. Sachsida e outros integrantes da administração Jair Bolsonaro reaparecem na formulação das políticas públicas. Wassef voltou ao palanque. Queiroz permanece aliado. Jair continua como referência política. Eduardo e Carlos mantêm peso próprio no núcleo familiar.
Ao mesmo tempo, Dark Horse, Banco Master, dinheiro público, Abin paralela e INSS mantêm abertas investigações que alcançam diferentes pontos desse ambiente.
A eleição presidencial de 2026, portanto, não decide apenas se Flávio Bolsonaro ocupará o Palácio do Planalto.
Decide quem entrará com ele.
E, se ele vencer, uma segunda pergunta surgirá imediatamente: o que acontecerá com as investigações quando os investigados, seus familiares, aliados e advogados estiverem novamente a poucos metros do centro do poder federal?
Nota de transparência editorial: Esta reportagem integra uma série produzida a partir de um dossiê de apuração elaborado pela Rede Estação Democracia sobre as relações políticas, pessoais, profissionais, empresariais e financeiras de Flávio Bolsonaro e de seu entorno. O dossiê foi construído pelo cruzamento e pela conferência de documentos públicos, decisões judiciais, investigações e relatórios de órgãos de controle, registros oficiais e reportagens de diferentes veículos de imprensa. As informações foram organizadas por personagens, vínculos, fluxos financeiros e situação jurídica, com distinção entre fatos comprovados, acusações formais e investigações em andamento. Ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas para auxiliar na pesquisa, no cruzamento e organização de grande volume de informações e na revisão dos textos. A seleção dos fatos, sua interpretação e a responsabilidade editorial são do autor e da Rede Estação Democracia.
Fonte: Brasil 247