Quem destrói o país por dentro?
Por Daniel Levi — Combate Racismo Ambiental
Crise no STF desvia o foco. Grande mídia pouco ou nada revela sobre algo documentado: a soberania do Brasil sob risco. Soft power de Trump inclui submissão de institutos brasileiros a think thanks estrangeiros. Assim como as bets, seus objetivos precisam ser expostos
Por Luís Delcides, em Outras Palavras
Não é paranoia: é documento. Em 30 de julho de 2025, Donald Trump assinou a Ordem Executiva nº 14323 e declarou emergência nacional em relação ao Brasil, elevando tarifas em 40 pontos e sancionando o ministro Alexandre de Moraes. No ano seguinte, prorrogou a medida por mais doze meses.
Alguns meses depois, durante as negociações pós-tarifas, representantes do governo americano entregaram às autoridades brasileiras um documento com 21 demandas — entre elas, a exigência de que o Brasil permitisse a participação de “supostos dissidentes políticos” nas eleições de 2026. O documento circulou no Itamaraty e foi devolvido por ordem do ministro Mauro Vieira.
O que está em curso não é uma disputa eleitoral. É uma guerra híbrida.
Enquanto Washington pressiona por fora, uma rede transnacional opera por dentro. O Acton Institute e a Atlas Network não são clubes de debate. São máquinas de formação de lideranças, financiamento de think tanks e produção de consenso em torno de uma agenda que combina neoliberalismo e conservadorismo religioso. No Brasil, a Atlas Network possui parceiros como o Instituto Liberal, o Instituto Millenium, o Instituto Liberdade e o Students for Liberty. E o Acton financia essa engrenagem: a base de dados registra US$ 130 mil em doações da Atlas para o Acton entre 2010 e 2015.
O resultado é uma internacionalização silenciosa de quadros. O ministro do STF André Mendonça participou de ambientes ligados ao Acton Institute em 2020. Deltan Dallagnol esteve na Acton University em 2023, junto a uma comitiva de aproximadamente 60 brasileiros, incluindo nomes como Salim Mattar e Marcel van Hattem. Não é coincidência. É método. Think tanks, universidades, conferências e programas de formação de lideranças passaram a operar como vetores não estatais de influência, produzindo convergências ideológicas entre os EUA e grupos políticos brasileiros.
Enquanto isso, o endividamento das famílias brasileiras alcançou 49,8% do rendimento anual, patamar próximo do recorde histórico. As bets são parte central desse colapso. Mais de 17 milhões de brasileiros movimentaram 17 bilhões de reais em plataformas de jogos, gerando um impacto de 103 bilhões de reais de retração no consumo do varejo e aumento da inadimplência em famílias de baixa renda. O custo social anual das apostas é estimado em R$ 38,8 bilhões — quase seis vezes o que o setor arrecada em impostos.
Mas o problema não é só o vício. É a arquitetura financeira. Em julho de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação “Maya’s Veil“, desmantelando uma rede de 87 empresas de fachada que usavam criptomoedas para canalizar ilegalmente lucros de apostas para fora do Brasil. Cinco dias antes, a Operação “Tratativa” desarticulou um esquema de lavagem de aproximadamente 2 bilhões de dólares ligado ao PCC, movimentando fundos entre a Flórida e o Brasil via criptomoedas. O Tesouro dos EUA reconheceu que um dos principais suspeitos ajudou a lavar mais de 30 milhões de dólares em ganhos ilegais.
E há mais: o PT solicitou ao STF a abertura de investigação sobre suposto financiamento americano à campanha de Flávio Bolsonaro, incluindo uma campanha de publicações pagas na rede X para inflar a percepção de favoritismo do candidato, utilizando as cotas da casa de apostas Polymarket — sem revelar a identidade dos financiadores. As bets não são apenas um problema social. São um instrumento de guerra financeira.
A confiança no STF caiu de 48,5% para 27,8% em um ano. A desconfiança subiu de 51,3% para 61%. Os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques, ambos indicados por Bolsonaro, lideram a escalada de imagem negativa. Não é acaso. É resultado de uma operação coordenada que combina vazamentos seletivos, financiamento de think tanks e uma mídia que amplifica o caos.
A Rede Globo é parte central dessa engrenagem. Em setembro de 2026, a GloboNews exibiu um “PowerPoint” associando Lula, o PT e Gabriel Galípolo ao caso Banco Master — sem qualquer relação com o escândalo. A emissora omitiu personagens notoriamente envolvidos, como Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Roberto Campos Neto. O pesquisador Ricardo Ribeiro Ferreira classificou a prática como “desdemocratizadora” e contribuinte para a erosão da democracia, lembrando que historicamente a esquerda é o principal alvo dos ataques da mídia corporativa.
Não se trata de um erro. Trata-se de um método. A velha mídia não informa: ela direciona. E enquanto o povo sente o peso da dívida e da instabilidade, a narrativa dominante insiste em tratar a crise como disputa eleitoral, como se o problema fosse Lula contra Flávio Bolsonaro, e não o Brasil contra uma ofensiva transnacional.
O artigo original está certo: há momentos em que a dimensão jurídica já não dá conta sozinha. Processos podem apurar responsabilidades, mas não substituem o debate público. O que está em jogo ultrapassa a eleição. É a soberania.
O presidente Lula precisa falar diretamente ao povo. Não através de notas oficiais ou entrevistas coletivas. Precisa de uma comunicação de Estado que denuncie, com clareza, a existência de uma guerra híbrida: os think tanks financiados por dólares, as bets como lavanderia e instrumento de endividamento, os vazamentos seletivos, a mídia que distorce. O Brasil precisa saber o que está acontecendo.
A população está atenta. Endividada, sim. Insatisfeita, sim. Mas atenta. E talvez seja essa a maior ameaça para quem aposta na desinformação: um povo que, mesmo sufocado, começa a enxergar a engrenagem por trás do caos.
A pergunta não é mais se há ingerência externa. A pergunta é: o que o Estado brasileiro vai fazer com a verdade que já está documentada?
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Fonte: Combate Racismo Ambiental