Debate morno, candidatos ensaiados e segurança pública improvisada
Por Jacqueline Muniz — Brasil 247
Como o primeiro debate para governador do Rio na Globo foi chato! Logo aqui, onde vivemos um dos piores momentos da nossa história. Foi preciso esforço e boa vontade para chegar até o final. Quanto mais os candidatos executavam as performances ensaiadas por suas assessorias, mais desinteressantes e parecidos com bonecos de posto ficavam.
Sem carisma e com repertório limitado, Douglas Ruas (PL) repetia chavões e parecia prestes a dar voz de prisão ao eleitor. Eduardo Paes (PSD) deixou a irreverência e a ginga cariocas em casa e ficou ali, engessado, com pouco movimento, equilibrando-se em cima do muro, com medo de desagradar a algum grupo de eleitores, à direita ou à esquerda. Garotinho (Republicanos), fora de forma, deu um show comunicacional como franco-atirador e parou no circo de acusações, sem ir além de alguns momentos de autoluta, ignorados pelos candidatos chamados ao ringue. André Marinho (Novo), com falas desconexas e empoladas, mais parecia um robô de lata com erro de programação. Dele, viu-se pouco além do encantamento com a própria imagem nas câmeras. E William Siri (PSOL) ocupou o lugar de ator estreante nas telonas da TV, em busca de se tornar mais conhecido e porta-voz oficial da agenda de sua coligação. Estava mais livre para encenar a si mesmo e manteve o combinado de não sair de sua bolha eleitoral.
Quanto ao tema da segurança pública, o conteúdo foi sofrível e se tornou mais relevante pelo silêncio dos candidatos, que não abordaram pontos centrais, como a parceria entre política, crime e polícia na governança do crime no Rio, responsável por patrocinar carreiras eleitorais e financiar a lucrativa indústria da insegurança.
Havia soluções para problemas que não existem. Tiveram propostas fantasiosas para retomar territórios sob domínio armado. Sobraram inverdades sobre o trabalho policial de resposta emergencial, patrulha, investigação e inteligência, além de jargões batidos sobre drogas e armas. E assistiu-se à invisibilização dos feminicídios, da letalidade e da vitimização policiais. E, não menos grave, constatou-se a alienação sobre como fazer uso das operações policiais, que devem voltar a ser o estado da arte da repressão qualificada, com superioridade de método e foco. Por fim, a articulação federativa para enfrentar a dinâmica translocal do crime e da violência ficou esquecida nas colas dos assessores, se é que foi pensada.
Todos os candidatos ficaram muito pouco à vontade com o tema da segurança pública. Chamaram atenção a pobreza argumentativa e a falta de um programa substantivo — liberal, conservador ou progressista — que pudéssemos confrontar.
De fato, o que mais me incomodou foi a ausência conveniente, diante da tragédia que vivemos na segurança pública, de um projeto de governo capaz de enfrentar, sem demagogia, sem pirotecnia, sem farra com o dinheiro público e sem acordos com o crime, a estrutura política e econômica da insegurança no Rio. Essa é a questão central que eu gostaria de ver no debate e que acabou sendo evitada pelos candidatos. Pois a nossa vida, já barateada, e nossos projetos de futuro, já escasseados pela insegurança e pelo medo, não podem mais esperar.
Sobrou voluntarismo, pirraças e pensamento mágico, com pouca imaginação até no nome dos programas, como o “BOPE 2.0”, de Garotinho. Este, ainda que delirante, buscou apresentar algo a partir de seu passado idealizado como governador.
O debate foi tão morno que tenho dúvidas de que sirva para produzir cortes para as redes sociais com os melhores momentos de cada candidato. Tenho a impressão de que os telespectadores ficaram mais cansados do que bem informados. Saíram com os candidatos que já tinham antes do debate.
Fonte: Brasil 247