Quando o crime mandava fechar: o dia em que o medo esvaziou um bairro de Goiânia
Por João Paulo Alexandre — Jornal Opção

Em 23 de novembro de 2015, Goiás era governado por Marconi Perillo (PSDB), que exercia seu quarto mandato à frente do Estado. Naquele período, cabia à administração estadual comandada pelo tucano a condução da política de segurança pública e das forças policiais estaduais. Foi sob essa gestão que moradores do Residencial Real Conquista, em Goiânia, viveram um dos episódios que marcaram a sensação de insegurança daquela época.
A partir das 8h da manhã não é para ter ninguém na rua, senão o negócio vai pegar.
A ordem não partiu do Estado. Veio de criminosos. E foi suficiente para mudar completamente a rotina de uma região onde viviam cerca de 12 mil pessoas.
Comerciantes baixaram as portas, moradores permaneceram dentro de casa, a escola ficou esvaziada, o posto de saúde fechou e as ruas praticamente perderam o movimento. O que os moradores entenderam como um “toque de recolher” transformou um bairro da capital em um cenário de medo.
Naquela época, César Moraes mantinha um salão de beleza masculino no Real Conquista. Trabalhava normalmente de segunda a sábado, das 9h às 20h. Naquela manhã, porém, decidiu começar o expediente mais cedo. Por volta das 7h30, enquanto limpava o estabelecimento, recebeu uma visita inesperada.
Oh, tio! Tão mandando fechar o comércio porque, se não fechar, o negócio não vai ficar bom, não.
O adolescente que transmitiu o recado saiu logo depois. César não quis descobrir o que poderia acontecer caso contrariasse a determinação. “Não tinha como a gente ficar porque não sabia o que ia acontecer. Fechei e vim embora.”
Não foi apenas ele. Outros comerciantes também fecharam as portas. O medo provocado pela ameaça de criminosos conseguiu interferir diretamente na rotina de uma parcela da população da capital justamente em um período no qual a responsabilidade pela política estadual de segurança pública estava sob a gestão de Marconi Perillo.
Mesmo dentro de casa, César afirma que não conseguiu se sentir protegido.“Sinceramente, eu desci, mas eu fiquei com muito receio do que poderia acontecer. Mesmo em casa, a gente ficou com medo porque não se sabe o que passa na cabeça de bandido. Não sabia se poderia fazer algum mal pra mim ou pra minha família.”
“A gente não tinha um dia de paz”
O episódio não surgiu isoladamente. Segundo os moradores, a violência já fazia parte da rotina do Real Conquista antes daquele 23 de novembro.
César lembra que nunca havia presenciado algo semelhante ao que aconteceu naquele dia. Para ele, situações daquele tipo pareciam pertencer a uma realidade distante de Goiás.
“Nunca tinha visto isso acontecer. Ouvíamos falar no Rio de Janeiro, o que era algo bem distante da nossa realidade. Me senti como se estivesse em um daqueles morros, onde o tráfico dominava.”
A ameaça para manter moradores dentro de casa teria ocorrido depois da morte de um jovem de 23 anos. Segundo os relatos da época, ele teria sido morto por integrantes de um grupo criminoso rival e, em resposta, pessoas ligadas ao grupo do qual fazia parte teriam determinado o fechamento dos estabelecimentos em “respeito” à morte.
Mas a insegurança, segundo César, já havia chegado à porta de sua própria casa meses antes. Sua filha foi assaltada enquanto saía para a escola.
“Era assalto à luz do dia. Minha filha estava com o celular na mão e uma moto chegou com duas pessoas e tomaram dela. A gente não tinha um dia de paz.”
A percepção dos moradores encontra paralelo nos indicadores daquele período.
Dados referentes a 2015, publicados posteriormente no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, apontaram 2.651 homicídios dolosos em Goiás, o equivalente a uma taxa de 40,1 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Também foram registrados 137 latrocínios e 25 casos de lesão corporal seguida de morte. Naquele levantamento, Goiás aparecia como o quinto Estado mais violento do país.
Somente em Goiânia, foram contabilizados 553 assassinatos, 30 latrocínios e três casos de lesão corporal seguida de morte. Roubos e furtos de veículos chegaram a 11.613 ocorrências.
“Fiquei com medo de quebrarem a minha loja”
O medo daquela manhã também permanece na memória de Áurea Oliveira.
Moradora do Real Conquista havia 17 anos, ela mantinha uma loja de utilidades no bairro e costumava abrir cedo para atender principalmente trabalhadores que passavam pelo estabelecimento antes do expediente.
No dia da ameaça, chegou a levantar as portas normalmente. Pouco depois, recebeu o aviso.
“Eu sempre abria minha loja cedo para pegar aquelas pessoas que muitas vezes estavam indo para o trabalho. Ao abrir, já fui abordada por um menino que me disse que era pra fechar e, se não obedecesse, a minha loja seria toda quebrada. Fiquei com muito medo e obedeci.”
Áurea voltou para casa. “Eu fiquei quietinha em casa, mas com muito medo porque minha filha tinha ido para o trabalho e meu filho estava saindo para o dele quando foi mandado voltar.”
Ela chegou a observar um helicóptero sobrevoando a região. Nem mesmo a presença das forças de segurança foi suficiente para afastar imediatamente o receio.
“O medo fica ainda maior porque a gente imagina coisa grande acontecendo. Precisar de um helicóptero? Eu fiquei ainda mais temerosa e com receio de uma troca de tiros.”
Segundo Áurea, a ameaça daquele dia foi o ápice de uma realidade de violência que os moradores já conheciam. “Confesso que já vi muito sangue escorrer à beira do meio-fio aqui no Real Conquista. Teve uma vez que eu estava retornando para casa, isso já à noite, e um cara tava correndo atrás do outro com uma arma. Eu corri. Vi um dos caras pulando o muro para tentar se salvar e o outro com o revólver na mão. Foi horrível.”
“Ter um carro de polícia aqui era a coisa mais difícil”
Outro relato ajuda a dimensionar como os moradores percebiam a presença do Estado no bairro durante aquele período.
Maria da Conceição trabalhava como doméstica e saía de casa ainda durante a madrugada. Por isso, quando os criminosos transmitiram a ordem para fechar o comércio, ela já estava longe do Real Conquista.
Foi pela televisão que soube o que estava acontecendo. “Eu estava trabalhando e vi passando na televisão que o meu setor estava todo fechado. Eu tinha conseguido sair, mas a minha preocupação era saber como eu iria voltar para casa. Eu fiquei muito apreensiva.”
Na volta, percebeu uma presença policial que, segundo ela, não fazia parte da rotina do setor.
Ao chegar ao Terminal Garavelo para pegar a linha 326, encontrou outros moradores igualmente apreensivos. Na entrada do bairro, passageiros precisaram descer do ônibus diante da operação policial.
“Todo mundo estava muito tenso. Ninguém sabia como seria. Eu lembro que, ao chegar na baixada, tinha muitos policiais. Nós tivemos que descer do veículo, quase para uma revista, depois entrar no veículo de novo e seguir para dentro do setor.”
Maria afirma que nunca tinha visto tamanho aparato policial no Real Conquista. Ao mesmo tempo, sua lembrança sobre os dias anteriores ajuda a compreender a percepção dos moradores sobre a segurança pública durante aquele período.
“Eu nunca tinha visto tanto carro de polícia. Para falar a verdade, ter um carro de polícia aqui no bairro era a coisa mais difícil de acontecer. Acho que por isso aconteceu esse toque de recolher.”
A avaliação parte da própria moradora. O que é possível afirmar objetivamente é que, naquele 23 de novembro, o governo responsável pela segurança pública estadual era comandado por Marconi Perillo.
O cenário da segurança durante o governo Marconi
O episódio ocorreu no quarto governo de Marconi Perillo e ajuda a compor o histórico da segurança pública durante suas administrações.
É justamente esse passado que volta ao debate em 2026, quando o tucano disputa novamente o Governo de Goiás e apresenta propostas para a segurança pública.
A análise daquele período não pode ignorar investimentos realizados pelas administrações de Marconi. Entre eles estiveram a criação do Comando de Operações de Divisas (COD), aquisição de equipamentos e viaturas e investimentos no sistema prisional.
Mas também não pode desconsiderar situações enfrentadas pela população enquanto a política estadual de segurança estava sob sua administração.
O caso do Real Conquista é uma delas. Naquele período, além dos indicadores de violência, o governo Marconi enfrentava insatisfação dentro das próprias forças responsáveis pelo combate à criminalidade.
Em 2013, policiais civis fizeram uma paralisação que se prolongou por quase três meses. A categoria cobrava melhorias salariais, reestruturação da carreira e mudanças relacionadas ao bônus por produtividade. Durante o movimento, o governo adotou medidas que incluíam o corte de ponto dos grevistas.
Nos anos seguintes, o pagamento de reajustes escalonados para carreiras da Segurança Pública também se tornou motivo de divergência. Parcelas inicialmente previstas para determinados períodos acabaram postergadas.
Houve ainda o Serviço de Interesse Militar Voluntário Estadual (Simve), criado em 2012, durante o terceiro mandato de Marconi. O programa colocou milhares de temporários para reforçar o policiamento, mas estabelecia remuneração e direitos diferentes daqueles concedidos aos militares efetivos.
Em 2015, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional a legislação que sustentava o modelo.
Esses episódios ocorreram durante governos comandados por Marconi Perillo e ajudam a contextualizar como a segurança pública era administrada no Estado quando moradores como César, Áurea e Maria conviviam com uma realidade marcada pela violência.
Onze anos depois, outra realidade
O contraste aparece quando os mesmos moradores são questionados sobre a situação atual do Real Conquista.
Os três entrevistados afirmam perceber melhora significativa na segurança.
César, que no passado teve a própria filha assaltada na porta de casa, diz perceber uma resposta policial mais rápida e uma redução dos crimes que faziam parte da rotina.
“Nossa, hoje a gente vê que melhorou muito. Hoje, trabalho em um posto de combustível e a gente nem vê menção de assalto, essas coisas que eram muito recorrentes antes. É perceptível que a segurança melhorou bastante.”
Áurea voltou a fazer algo que o medo havia tornado difícil: circular pelo bairro à noite.
“Não tenho receio de andar pelo setor. Em qualquer horário. Seja de manhã ou pela noite. A sensação de segurança tá muito maior. A gente vê até mais polícia na rua.”
Maria também estabelece espontaneamente uma comparação entre os dois períodos.
“Eu vejo que a segurança tá melhor em qualquer lugar da cidade. A gente vê mais polícia, não tem mais roubo dentro de ônibus, arrastão, que era coisa que foi moda aqui em Goiânia naquela época. Graças a Deus, muita coisa mudou.”
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Fonte: Jornal Opção