Promessa de acesso gratuito às canetas emagrecedoras ganha força nas campanhas eleitorais

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Por Wendal CarmoCarta Capital

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Lula anunciou distribuição pelo SUS; candidatos ao Congresso também adotam a bandeira

As “canetas emagrecedoras“, até pouco tempo associadas sobretudo a tratamentos de alto custo, entraram no repertório eleitoral de 2026. Candidatos a deputado, ao Senado e até à Presidência no pleito deste ano têm explorado a promessa de ampliar o acesso a esses medicamentos contra a obesidade, seja pela distribuição no Sistema Único de Saúde ou através da redução de preços com a quebra de patentes e estímulos à produção nacional.

Essa pauta ganhou dimensão nacional nesta quinta-feira 17, quando o presidente Lula (PT) afirmou que o governo pretende oferecer gratuitamente pelo SUS medicamentos para pessoas com obesidade, mediante indicação médica. “Essa canetinha vai ser utilizada para cuidar, de graça, para as pessoas que tenham obesidade. Quando o médico detectar que um homem ou uma mulher tem problema de se curar”, declarou. O anúncio ocorreu durante visita ao complexo industrial da Eurofarma, em Montes Claros (MG).

O petista não deu mais detalhes sobre como a medida seria implementada ou quais medicamentos estariam inclusos. Questionado por jornalistas na mesma agenda, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a incorporação será feita a partir de estudos e de um protocolo clínico.

Desde junho, a pasta acompanha 250 pacientes do SUS em um estudo que avalia a eficácia da semaglutida, princípio ativo de “canetas emagrecedoras” como Ozempic e Wegovy, no tratamento da obesidade grave e de casos associados a outras doenças. A pesquisa ocorre no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre (RS).

Antes do anúncio de Lula, porém, candidatos já exploravam a pauta em suas campanhas. O candidato a deputado federal por Sergipe Márcio Macêdo (PT), ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, por exemplo, vinha defendendo a ampliação do acesso gratuito às canetas desde julho, quando passou a incluir a medida entre as bandeiras que pretende levar à Câmara.

“Essas substâncias são uma revolução no tratamento da obesidade, e a democratização do acesso precisa ser uma prioridade de saúde pública. Não podemos permitir que o avanço da medicina fique restrito a quem tem condições de pagar”, diz Macêdo, que já relatou ter perdido 18 quilos após um curto período de uso do Ozempic, associado a mudanças na alimentação e à prática de exercícios físicos.

A proposta também aparece nas campanhas de Marília Arraes (PDT) e Marina JHC (PSDB), candidatas ao Senado por Pernambuco e Alagoas, respectivamente. O acesso gratuito às canetas emagrecedoras está ainda no plano de governo de Renan Santos, postulante do Missão na corrida presidencial, que também propõe reduzir a tributação sobre produtos considerados saudáveis e academias.

Uma caneta, muitos palanques, uma promessa em comum: Lula (PT) e Renan Santos, candidatos à Presidência, Marília Arraes (PDT-PE) e Marina JHC (PSDB-AL), que buscam um espaço no Senado – Ricardo Stuckert/PR/Redes sociais/Divulgação CNM/Câmara dos Deputados

A ampliação do acesso aos medicamentos, porém, esbarra na discussão sobre patentes. No mês passado, a Anvisa aprovou dois novos medicamentos injetáveis à base de semaglutida obtida por via sintética. A semaglutida ficou conhecida por ser o princípio ativo das “canetas emagrecedoras” Ozempic e Wegovy, usadas no tratamento para a diabetes tipo 2.

Mas o Mounjaro e o Zepbound, ambos à base de tirzepatida , são fabricados pela farmacêutica americana Eli Lilly e têm preços que podem chegar a cerca de 3 mil reais por quatro doses, a depender da apresentação.

A quebra da patente neste caso permitiria que outros laboratórios produzissem medicamentos equivalentes, ampliando a concorrência e, potencialmente, reduzindo os preços.

É justamente isso que está em discussão no Congresso. Em fevereiro, a Câmara aprovou o regime de urgência para um projeto do deputado federal Mário Heringer (PDT-MG) que reconhece o “interesse público” desses medicamentos, abrindo caminho para o licenciamento compulsório das patentes.

Na prática, a medida permitiria que outros laboratórios produzissem os medicamentos sob as condições previstas na legislação, reduzindo a dependência de um único fabricante.

O líder do PDT disse a CartaCapital que espera aprovar o mérito do texto no plenário depois das eleições. “Mesmo que seja [uma bandeira] eleitoral, é um grande bem para a sociedade brasileira, para a saúde pública brasileira. Além da questão do emagrecimento, temos de lembrar que esse medicamento é surpreendentemente diferente porque melhora várias coisas. Ele é bom para o diabetes, por exemplo, que leva à cegueira e à amputação de membros”, completa.

Em setembro do ano passado, a Conitec, órgão que ajuda a decidir quais medicamentos, exames e tratamentos entram ou saem do SUS, recomendou não incorporar a semaglutida para pacientes com obesidade grau II e III, sem diabetes, com idade a partir de 45 anos e doença cardiovascular estabelecida.

O colegiado levou em consideração o impacto orçamentário, a incerteza sobre o tempo de utilização do medicamento e a necessidade de combinar o tratamento farmacológico com outras estratégias de cuidado.

De acordo com o Ministério da Saúde, o País já possui 14 medicamentos registrados para o combate à obesidade . Padilha diz que produtos que chegaram a custar entre 1,7 e 2 mil reais passaram a ser encontrados por cerca de 300 a 400 reais em razão da concorrência. A queda está relacionada, entre outros fatores, ao vencimento da patente da semaglutida e à entrada de novos produtos.


Wendal Carmo

Repórter do site de CartaCapital no Nordeste

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Fonte: Carta Capital

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