Projeto quer liberar mensagens eleitorais automatizadas; especialista alerta para riscos
Por Raunner Vinícius Soares — Jornal Opção

O projeto que autoriza candidatos a utilizarem sistemas automatizados para o envio de mensagens de propaganda eleitoral está em análise no Senado Federal, após ter sido aprovado pela Câmara dos Deputados em maio.
A medida surge em um cenário de forte investimento nas eleições, com quase R$ 5 bilhões destinados às campanhas e mais de R$ 1 bilhão do Fundo Partidário reservado para despesas permanentes das legendas. Parte desses recursos poderá ser direcionada a estratégias digitais, incluindo o envio automatizado de mensagens por plataformas como WhatsApp, Telegram e SMS.
O especialista em comunicação digital Guilherme Rocha, fundador da HelenaCRM, avalia que a prática levanta questões relacionadas à privacidade e ao consentimento dos usuários.
“Em um ambiente onde bases de dados circulam com facilidade, muitas vezes sem transparência sobre sua coleta e compartilhamento, surge o questionamento sobre quantos desses contatos foram fornecidos voluntariamente pelos usuários e quantos apenas integram mailings adquiridos ou compartilhados ao longo do tempo”, afirma.

Privacidade e consentimento
Para Guilherme, o envio de mensagens em larga escala só tende a produzir resultados positivos quando alcança o público adequado e ocorre de forma consentida. Caso contrário, a estratégia pode provocar rejeição e desgaste da imagem do candidato.
A discussão também envolve os mecanismos de autorregulação adotados pelas próprias plataformas. O WhatsApp, por exemplo, mantém ferramentas de bloqueio, denúncia e restrição de contas para combater abusos.
“Quando uma legislação passa a limitar ou flexibilizar esses mecanismos, cria-se um descompasso entre as regras da plataforma e a experiência do usuário. Isso pode abrir espaço para o aumento do spam e comprometer a qualidade das interações dentro do canal”, explica.
O especialista compara o risco ao processo ocorrido com ligações telefônicas e e-mails, canais que passaram a enfrentar maior rejeição dos usuários diante do excesso de abordagens indesejadas.
Impacto nas campanhas
Do ponto de vista estratégico, a automação pode ampliar o alcance das campanhas e reduzir custos operacionais. Rocha, no entanto, alerta para possíveis efeitos de longo prazo, como desengajamento dos usuários, aumento de bloqueios e perda de credibilidade do próprio canal de comunicação.
“Um ativo valioso, a comunicação direta, pode ser rapidamente desgastado”, enfatiza.
Para o especialista, as eleições de 2026 podem marcar não apenas uma nova disputa nas urnas, mas também um novo capítulo na forma como os brasileiros recebem e se relacionam com a propaganda política no ambiente digital.
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Fonte: Jornal Opção