Procurador-geral da Bolívia que investigava ‘guru’ da extrema direita é preso dias após ter visto cancelado pelos EUA

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Por Tatiana Carlotti — Brasil de Fato

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A Procuradoria-Geral da Bolívia denunciou o “sequestro” do procurador-geral do Estado, Roger Mariaca, na noite desta quarta-feira (30/09). Ele foi preso no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz, ao lado do procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos. Ambos tiveram os vistos revogados pelos Estados Unidos sob acusação de corrupção e narcotráfico.

A Procuradoria-Geral classificou a prisão de Mariaca como “sequestro”. Funcionários da instituição fizeram uma transmissão ao vivo para denunciar a operação e afirmaram que desconheciam os fundamentos da detenção: “queremos denunciar o sequestro do nosso Procurador-Geral do Estado e a violação dos direitos humanos”, disseram.

À frente do Ministério Público boliviano, Mariaca comandava investigações que atingem figuras políticas e empresariais e que, segundo ele, provocavam incômodo dentro e fora do país. Entre elas está o caso envolvendo o consultor político argentino Fernando Cerimedo, ligado ao presidente argentino, Javier Milei.

A ação policial contra o procurador não se limitou ao aeroporto. Policiais realizaram operações em instalações do Ministério Público em Sucre e Santa Cruz e fizeram buscas em sua residência, na zona norte de Santa Cruz. A operação também atingiu outras autoridades, como o ex-ministro do Governo Eduardo del Castillo, interceptado por policiais em Sopocachi, em La Paz. Também foram noticiadas prisões de integrantes do Ministério Público e de agentes policiais.

Na segunda-feira (28/09), Mariaca reagiu publicamente à decisão do governo Trump de suspender sua entrada no país. Ele não só negou as acusações de corrupção e narcotráfico, como denunciou interferência estrangeira nas investigações conduzidas pelo Ministério Público boliviano.

Ao mencionar especificamente o caso Cerimedo, o procurador-geral disse que as investigações haviam provocado preocupação em diferentes setores, mas garantiu que não recuaria “nem um centímetro”. Ele exigiu respeito à soberania da Bolívia e ao princípio da não interferência.

Cerimedo é investigado pela Justiça boliviana em um processo que inclui acusações de tentativa de feminicídio e lavagem de dinheiro. O argentino ganhou projeção como estrategista da direita latino-americana e participou da articulação internacional em torno de Jair Bolsonaro. As investigações conduzidas na Bolívia ampliaram o alcance do caso para possíveis conexões políticas e financeiras.

A revogação do visto de Mariaca fez parte de uma medida mais ampla de Washington contra 13 funcionários e ex-funcionários do país. O presidente do Senado, Diego Ávila, e o presidente da Câmara dos Deputados, Roberto Castro, pediram que o Ministério das Relações Exteriores solicitasse formalmente ao Departamento de Estado norte-americano informações sobre as acusações. “Uma acusação não é uma sentença e nenhum cidadão pode ser condenado sem provas”, afirmou.

A operação ocorre também em meio à divulgação de acusações feitas pelo narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, capturado em março na Bolívia. Horas antes das prisões, circularam gravações nas quais Marset acusa autoridades bolivianas, entre elas Mariaca e o ex-ministro Eduardo del Castillo, de terem mantido relações com sua organização.

Em uma das gravações, Marset afirma que Mariaca era seu “amigo” e que o procurador lhe avisava “o que tinha que avisar”. Em outra declaração, sustenta ter pago US$ 500 mil para obter proteção e permanecer no país. As declarações são acusações do narcotraficante e, até o momento, não constituem por si mesmas comprovação dos fatos atribuídos às autoridades.

No próprio dia de sua prisão, o Ministério Público havia rejeitado outra acusação segundo a qual Mariaca teria se reunido com Marset antes da extradição do uruguaio para os Estados Unidos. A Procuradoria afirmou que a informação “não corresponde à verdade” e exigiu que fossem apresentadas provas. Marset foi capturado pela polícia boliviana em março, depois de permanecer foragido desde 2023. Durante a gestão de Mariaca, o Ministério Público mantinha processos contra o narcotraficante e investigava crimes como tráfico de armas, organização criminosa e associação criminosa.

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Fonte: Brasil de Fato

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