Prêmio leva 5 universitários brasileiros à China; o que eles fizeram para ganhar a viagem?
Por Camille Lima — Seu Dinheiro

A China está no horizonte de cinco universitários brasileiros que transformaram problemas reais em projetos de tecnologia, pesquisa e impacto social. Eles são os vencedores regionais do Prêmio Na Prática: Protagonismo Universitário 2026 e ganharão uma viagem com todas as despesas pagas ao país asiático, onde conhecerão empresas de educação, robótica e satélites.
A iniciativa busca ampliar o repertório dos estudantes e mostrar como ideias podem sair do papel e se tornar soluções concretas.
Para Anamaíra Spaggiari, CEO do Na Prática, organização de desenvolvimento de carreira e liderança ligada ao ecossistema do BTG Pactual, o contato com um dos principais polos globais de inovação pode ajudar os jovens a enxergar possibilidades que ainda não consideravam para suas trajetórias.
“Quando o jovem brasileiro tem acesso a isso, começa a perceber que precisa tirar barreiras e dificuldades que às vezes coloca”, afirmou a executiva, em entrevista ao Seu Dinheiro.
O prêmio selecionou 15 finalistas entre milhares de inscritos. Além da viagem internacional dos cinco vencedores regionais, todos os finalistas participam de uma imersão em São Paulo, com atividades de liderança, visitas a empresas parceiras e a etapa final da competição.
A proposta vai além de premiar boas ideias. O Na Prática também quer aproximar jovens talentos do mercado de trabalho e inspirar outros universitários a desenvolver projetos com impacto econômico, social ou ambiental.
Quem são os vencedores do Prêmio Na Prática 2026
Os cinco estudantes premiados atuam em áreas distintas, da tecnologia assistiva à inteligência artificial aplicada à saúde e ao agronegócio.
Em comum, eles têm projetos que tentam responder a problemas concretos — desde obstáculos enfrentados por pessoas com deficiência visual até desafios da pecuária e da pesquisa médica.
Veja os vencedores:
- Região Sudeste — João Luís Freitas, 28 anos, São Paulo (Vencedor nacional)
- Medicina — Universidade de São Paulo (USP)
- Vencedor nacional do prêmio, João combina formação em diferentes áreas do conhecimento. Antes de estudar Medicina na USP, passou pela Engenharia do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e cursou mestrado em Ciência de Dados e Matemática Aplicada na École Polytechnique, na França.
- Ele fundou a Health Data, empresa que desenvolveu uma infraestrutura capaz de processar mais de 10 terabytes de dados anonimizados do DataSUS, base que reúne registros de saúde de milhões de brasileiros. A plataforma apoia pesquisas de hospitais sobre diferentes tipos de câncer e fatores sociais associados aos resultados de saúde.
- Entre as investigações estão diferenças no diagnóstico e no investimento em tratamentos oncológicos entre grupos raciais. A meta é produzir estudos com potencial de publicação internacional e que possam contribuir para a formulação de políticas públicas.
- Região Sul — Rafael Meneses, 23 anos, Paraná
- Engenharia da Computação — Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)
- Rafael saiu de Pernambuco para estudar no Paraná e hoje empreende em duas frentes de tecnologia. Na Neosenti, desenvolve uma bengala branca inteligente que ajuda pessoas com deficiência visual a identificar obstáculos na altura do rosto. A startup recebeu R$ 680 mil em um desafio da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial e tem previsão de fornecer 100 unidades ao governo paranaense.
- Ele também fundou a ProteJÁ, que desenvolve um dispositivo vestível para prevenir quedas de idosos, com autonomia de bateria de até três meses. As duas iniciativas buscam usar a tecnologia para ampliar a autonomia e a segurança de pessoas que precisam de soluções acessíveis.
- Região Norte — Marcelly Câmara, 30 anos, Amazonas
- Agroecologia — Universidade do Estado do Amazonas
- Marcelly atua há seis anos em projetos comunitários e culturais no interior do Amazonas. É cofundadora do coletivo Casa Verde, que mantém iniciativas como o Vidros da Amazônia, responsável pela reciclagem de mais de 27 mil garrafas, e um cinema itinerante para comunidades rurais e ribeirinhas.
- Na universidade, ela também integrou a equipe que desenvolveu um desidratador automático de frutas de baixo custo, movido a energia solar e controlado por Arduino. A tecnologia busca reduzir o desperdício em feiras e criar novas possibilidades de renda para famílias locais.
- Região Centro-Oeste — Giovanna Barbosa, 23 anos, Goiás
- Medicina Veterinária — Universidade Estadual de Goiás
- Giovanna fundou a WiMilk, startup que utiliza inteligência artificial e visão computacional para identificar a mastite bovina, inflamação que pode provocar prejuízos à pecuária leiteira. O sistema monitora os animais continuamente e busca detectar a doença antes do aparecimento dos sintomas, permitindo antecipar o tratamento.
- Região Nordeste — Rômulo Duarte, 21 anos, Paraíba
- Ciência da Computação — Universidade Federal da Paraíba
- Rômulo pesquisa aplicações de inteligência artificial para problemas concretos. Em parceria com a Universidade da Pensilvânia, trabalhou no aprimoramento de sistemas de IA usados para detectar câncer de mama em exames de mulheres com implantes mamários. Segundo a apresentação do finalista, o projeto registrou melhorias superiores a 15%.
- Na Paraíba, ele também liderou a modernização de um sistema de análise fiscal da Secretaria da Fazenda estadual, reduzindo em 88% o tempo necessário para preparar cada atualização.
O que os jovens podem aprender com a China?
A escolha da China como destino não foi por acaso. Segundo Spaggiari, a escala do ecossistema de inovação do país permite apresentar aos estudantes experiências que dificilmente estariam ao alcance deles individualmente.
O roteiro inclui visitas a três empresas ligadas a educação, robótica e satélites.
Para a executiva, um dos aspectos que merecem atenção é a conexão entre educação e desenvolvimento tecnológico. Desde cedo, estudantes chineses são incentivados a participar de olimpíadas de conhecimento e robótica e a desenvolver o raciocínio científico e a capacidade de resolver problemas.
A comparação, porém, exige considerar as diferenças entre os países. Spaggiari observa que a China conta com planejamento estatal de longo prazo, enquanto as alternâncias de governo no Brasil podem dificultar a continuidade de estratégias de desenvolvimento econômico e social.
Ainda assim, ela vê avanços nas universidades brasileiras, que têm ampliado o espaço para inovação, empreendedorismo e tecnologia. É nesse movimento que o Na Prática busca atuar, como parceiro das instituições de ensino, com atividades voltadas a competências socioemocionais e liderança.
A organização também procura estimular uma postura prática diante de problemas complexos: reconhecer os desafios, identificar onde é possível agir e desenvolver soluções, em vez de esperar que outras pessoas tomem a iniciativa.
“Precisamos estimular o jovem a entender onde consegue influenciar, escolher um pedaço desse problema para resolver e contribuir para o desenvolvimento do país e do mundo”, afirma Spaggiari.
A estratégia também vem se ampliando. Em vez de atuar apenas diretamente com os estudantes, a organização propõe parcerias com universidades para complementar o trabalho de centros de carreira, identificar talentos e aproximá-los de oportunidades profissionais.
Para Spaggiari, as empresas enxergam o Na Prática como uma ponte para universitários e recém-formados com potencial e capacidade de intraempreender — ou seja, de propor e executar iniciativas inovadoras dentro de uma organização.
“Conseguimos fazer uma boa curadoria: à medida que educamos e escalamos, selecionamos os que estão mais preparados e com mais potencial e os conectamos com os nossos parceiros, ampliando suas oportunidades de trabalho”, afirma.
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Fonte: Seu Dinheiro