Por que retratar Amyr Klink? Diretor Carlos Saldanha detalha como levou navegador brasileiro às telas do cinema
Por Henrique Nascimento — Seu Dinheiro
Após marcar a infância de muitos com animações como A Era do Gelo (2002), Rio (2011) e O Touro Ferdinando (2017), Carlos Saldanha sentia que era hora de mudar. “Depois de um certo número de filmes, eu queria contar histórias em outros formatos”, conta ao Seu Dinheiro. “Eu gosto muito de histórias para um público mais adulto, gosto de histórias reais que, às vezes, para animação, fica complicado. Então, eu comecei a explorar outros caminhos.”
Sua experiência em live-action já incluía um segmento de Rio, Eu Te Amo, coletânea de histórias sobre a Cidade Maravilhosa lançada em 2014, além de Cidade Invisível (Netflix) e How to be a Carioca (Disney+). Mas, no meio de todo o trabalho, 100 Dias, adaptação do registro autobiográfico de Amyr Klink, Cem Dias Entre o Céu e o Mar,era uma constante na vida do cineasta.
“Eu estou trabalhando nesse projeto há quase oito anos. Eu já estava com a ideia de fazer esse filme, porque eu adorava o livro. Adorava a história, era superfã do Amyr, achava a trajetória dele incrível. Então, quando veio essa proposta, eu falei: ‘Poxa, essa história vai dar um filmaço!’”, conta.
“A gente tem ouvido falar muito de histórias reais de cantores famosos ou sobre fatos na época da ditadura. E eu achava que a história do Amyr tirava desse eixo. É a história de um cara que fez uma viagem impossível na época!”, acrescenta, explicando o que o motivou a tocar o projeto. “É muito comum ver esse tipo de história em filmes americanos, em filmes europeus, mas o Brasil não tem tanto essa pegada. E eu falei: ‘Por que não contar a história de um herói brasileiro?’”

Muitas questões em 100 Dias
Saldanha é creditado apenas como diretor de 100 Dias, mas ainda que o seu nome não estivesse no roteiro, o cineasta trabalhou ativamente na adaptação de Cem Dias Entre Céu e Mar para o cinema junto às roteiristas Elena Soarez e Thais Tavares: “A gente passou mais de um ano trabalhando nesse roteiro, porque é uma história complexa. Nós tínhamos o livro como base, fizemos uma cronologia da viagem e fomos buscando formas de contar essa história”, explica.

“O filme não é exatamente como o livro. Nós fomos pegando os momentos mais marcantes da travessia dele. Mas uma coisa que, na minha cabeça, era muito importante era encontrar um paralelo emocional para o Amyr”, acrescenta. “O porquê da ida e de ele ter ido sozinho. Ele realmente estava sozinho, mentalmente? Quem o apoiou nessa viagem? Quais eram os conflitos? Todas essas perguntas vieram através das minhas conversas com ele. Nós conversamos muito antes. Então, há coisas no filme que não estão no livro, mas são relatos, conversas ou interpretações que eu tive da vida dele.”

Resolvida a questão de como seria contada a história, começou a busca por quem a contaria — e foi aí que entrou Filipe Bragança, a primeira escolha de Saldanha logo de cara: “Ele entrou numa imersão do personagem de forma única, sabe? Ele treinou muito, aprendeu a remar, perdeu peso para poder ficar dentro do corpo do Amyr. Nem precisava perder peso, mas ele queria ficar com o corpo do Amyr naquela viagem”, conta. “Ele ficou sozinho todos esses meses para tentar entrar na solitude da cabeça do Amyr. Dormiu no barco, lá na raia da USP. Ele realmente se entregou. Estava completamente envolvido com o personagem.”
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A travessia e a parceria
Como o filme retrata, principalmente, a viagem de Amyr Klink, Saldanha e Bragança estiveram muito próximos no set de filmagens, o que acabou aproximando os dois fora do trabalho:
“A gente é tão parecido… A gente encara o cinema, o mundo, com uma sensibilidade, uma capacidade de imaginação, e um carinho muito grande pelo nosso trabalho, pelo nosso ofício, que rapidamente a gente se identificou”, afirma o ator, 36 anos mais novo que o cineasta. “Eu já admirava o Carlos. Falei para ele: ‘Cara, eu tenho até hoje brinquedos de A Era do Gelo’. Eu já tinha essa admiração e ter esse respeito mútuo foi muito importante.”
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Para Carlos, Bragança não é apenas um “ator incrível dentro de um trabalho”, mas “uma pessoa honesta, uma pessoa que se entrega, uma pessoa amorosa”.
“Ele virou um amigo para a vida. Ele se tornou, realmente, uma pessoa muito especial na minha vida. E ele tratou esse filme de forma incrível, porque se não tivesse dado certo com ele, que é 80% do filme, seria um terror, não é?”, acrescenta Saldanha.
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Fonte: Seu Dinheiro