Criador do monstro Master, Campos Neto não pode passar impune
Por Marco Damiani — Brasil 247
Nomeado em fevereiro de 2019 por Jair Bolsonaro para o comando do Banco Central, sob os auspícios do então ministro Paulo Guedes e em razão de seu sobrenome ligado ao regime militar, do qual seu avô Roberto Campos foi um dos principais formuladores econômicos, Roberto Campos Neto está desmoralizado.
Até os janelões enegrecidos da sede do BC em Brasília sabem que Campos Neto está na origem, no desenvolvimento e no acobertamento do maior escândalo financeiro da história do País. Seus pares banqueiros querem vê-lo pelas costas, e o melhor seria atrás das grades, onde estão Daniel Vorcaro, o papai Henrique e outros quatro integrantes da quadrilha financeira montada dentro do banco.
As operações que a quadrilha do Master comandou debaixo da fiscalização que o BC de Campos Neto deveria ter feito deixaram um rombo de R$ 57,4 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, lastreado pelas grandes instituições financeiras. Estima-se um prejuízo total de mais de R$ 63 bilhões, quando se contam todas as operações a descoberto. Para esse resultado desastroso, diretores do BC de Campos Neto colaboraram como protetores de Vorcaro e suas estratégias de roubo aos cofres de fundos públicos de previdência e maquilagem contábil.
Nada menos que 38 alertas, a partir de novembro de 2024, foram emitidos pelo FGC para o BC de Campos sobre os riscos embutidos nas operações do Master. Um a um foram ignorados. O então presidente da autoridade monetária, escolado no autoritarismo de origem familiar, não apenas fez vistas grossas como ainda desdenhou dos avisos. Agora, escondido atrás de um cargo poderoso no Nubank, faz que o assunto não é com ele. A mídia tradicional acoberta, sem apontar com o destaque devido, o seu papel central em todo o escândalo.
Roberto Campos Neto poderia ter evitado que o Master se tornasse a máquina de mal feitos em que se transformou. Bastava cumprir o papel de funcionário público decente, disposto a ter atenção aos fortes sinais de desequilíbrio das operações do banco que sempre operou com margens de remuneração que todo o mercado sabia serem impraticáveis. Vorcaro não construiu sozinho a fortuna capturada pelos dutos corruptos do Master. O pilar central de sua construção foi sustentado, com toda a firmeza, por Campos Neto em pessoa e seu time de diretores.
Em fevereiro de 2019, no final da gestão de gestão Ilan Goldfajn, a Diretoria Colegiada do Banco Central havia rejeitado por unanimidade o pedido de Vorcaro para assumir o controle do Banco Máxima. A recusa baseou-se na fragilidade do plano de negócios e em questionamentos sobre o perfil e os antecedentes de Daniel Vorcaro. Porém, oito meses depois, em outubro de 2019, já sob a presidência do neto de Roberto Campos, o BC reapreciou o pedido e aprovou a operação por unanimidade. O placar foi de 8 a 0. Essa decisão permitiu a Vorcaro assumir a instituição, alterando seu nome posteriormente para Banco Master. O escândalo teve origem naquele instante.
Campos Neto não pode passar impune nas investigações do maior escândalo financeiro da história do País. A chance dele conseguir se livrar está em uma eventual vitória do candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro, que irá jogar tudo para debaixo dos tapetes do Palácio do Planalto. No curso normal da Justiça, o ex-presidente do BC terá de, mais cedo ou tarde, pagar pelo que fez a favor do surgimento e crescimento do monstro Master.
Fonte: Brasil 247