População preta e parda enfrenta desigualdades na educação
Por Girrana R. Teixeira — TVT News
Nota técnica produzida pelo Instituto Guetto mostra as desigualdades raciais na educação brasileira com base na PNAD Contínua – Módulo Educação 2025, do IBGE. O estudo fala sobre alfabetização, frequência escolar, níveis de instrução e relação entre estudo e trabalho, buscando oferecer uma leitura integrada das desigualdades raciais observadas no país. Saiba mais em TVT News.
Alfabetização da população negra

Embora as taxas de analfabetismo tenham diminuído entre pessoas brancas, pretas e pardas ao longo dos últimos anos, os dados da PNAD Contínua 2025 mostram que a desigualdade racial permanece presente em todas as faixas etárias e em todas as regiões do país.
De acordo com a nota técnica do Instituto Guetto, em 2025 a taxa de analfabetismo entre pessoas pretas e pardas permaneceu aproximadamente 2,3 vezes superior à observada entre pessoas brancas, evidenciando que a redução do indicador não foi suficiente para eliminar essa desigualdade.
O gerente de Políticas Educacionais e Advocacy do Instituto Guetto, Jackson Almeida, explica que isso mostra um retrato da questão da alfabetização no país. “Mesmo com a evolução da questão da alfabetização, as políticas educacionais que estão tentando realizar a alfabetização na idade certa, as políticas pedagógicas, a valorização dos professores, as políticas de incentivo, as recomposições das aprendizagens, ainda assim, quando a gente pega o saldo do retrato de uma parcela da população, a gente enxerga que essa desigualdade existe”, pontuou.
A desigualdade é ainda maior quando se observa as pessoas mais velhas. No caso das pessoas com 60 anos ou mais, o retrato é de 7,3% de pessoas brancas analfabetas e de 20% de pessoas pretas e pardas analfabetas.
“Isso mostra que não é só uma falha no processo de alfabetização na idade certa. É uma falha durante todo o percurso educacional. Essa pessoa ela vai avançando no percurso educacional sem saber ler. Então, ou ela termina sem saber ler ou ela interrompe e abandona a escola por conta das oportunidades que perde ou por não ter essa habilidade desenvolvida”, afirmou Jackson Almeida.

Os resultados mostram que Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de analfabetismo para ambos os grupos raciais. Ainda assim, a desigualdade racial está presente em todas as grandes regiões brasileiras. A nota chama atenção para o fato de que níveis mais baixos de analfabetismo não significam, necessariamente, menores desigualdades raciais. No Sul e no Sudeste, por exemplo, a taxa observada entre pessoas pretas e pardas é cerca de 2,1 vezes a registrada entre pessoas brancas, enquanto, no Nordeste a diferença absoluta é maior, mas a desigualdade proporcional é menor.
Ensino Superior
Apesar das diferenças raciais observadas na escolarização permanecerem relativamente reduzidas durante a etapa da educação básica obrigatória, nas etapas não obrigatórias da formação, essas diferenças tornam-se mais evidentes.
Os dados mostram que pessoas pretas e pardas representam a maior parcela da população em todos os níveis de instrução até o ensino médio completo. Entretanto, essa participação diminui quando chega na continuidade dos estudos pós educação básica, onde a presença de pessoas brancas cresce entre aqueles que alcançam o ensino superior completo.
De acordo com a PNAD, são 61,3% estudantes brancos com o superior completo, enquanto, apenas, 37,1% dos pretos e pardos conseguem concluir essa etapa de ensino.
“A população brasileira é majoritariamente preta e parda. Isso quer dizer que nossa população não está representada no processo de ensino superior completo. […] enquanto no ensino superior incompleto, o dado diz que 47% das pessoas são pretas e pardas, quando a gente vai para o ensino completo são 37%, ou seja, são quase 10% de pessoas pretas e pardas que não conseguem concluir o ensino superior”, observou Jackson.
Permanência

A necessidade de trabalhar é o principal motivo de interrupção escolar entre jovens pretos e pardos, mostra a nota técnica. São mais de 11 milhões de jovens pretos e pardos que se afastam da escola para estes fins. Além disso, mais de sete em cada dez jovens que interromperam os estudos por esse motivo são pretos ou pardos, evidenciando a forte associação entre desigualdades educacionais e inserção econômica das juventudes brasileiras.
A publicação analisou a situação de jovens de 15 a 29 anos segundo duas variáveis observadas simultaneamente: condição de estudo e situação de ocupação. Em vez de considerar apenas quem estuda ou quem trabalha, o indicador identifica diferentes combinações entre essas condições, permitindo compreender como elas se distribuem entre pessoas brancas e pessoas pretas e pardas. Os resultados mostram que a população preta e parda concentra o maior contingente entre os jovens ocupados e fora da escola.
Outro ponto destacado é que três em cada quatro jovens que interromperam os estudos por desinteresse são pretos ou pardos, reforçando a necessidade de compreender os fatores associados ao afastamento escolar.
Para Jackson, a escola precisa olhar para os marcos legais e normativos de equidade, que falam da obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira e indígena dentro do processo do da educação, dentro da construção do currículo e da composição das políticas.
“Essa escola precisa ser interessante para esses estudantes também. Há um racismo que diz a ele até onde ele vai chegar, até onde ele pode fazer [..] isso faz com que esse estudante tenha dúvidas sobre o porquê que a escola vai fazer sentido para ele, o porquê acordar todo dia. Tem um fator familiar que é muito importante: o de de ser engajado. Por isso que a educação precisa estar junto das famílias desses estudantes”, mas também a educação básica, as atividades diárias de uma escola precisa estar de outra nesse grupo”, observou.
O estudo ainda complementa que outro fator responsável pelo afastamento dos estudos é a gravidez. Entre jovens de 14 a 29 anos que nunca frequentaram a escola ou não concluíram o ensino médio, 789 mil declararam a gravidez como motivo para interromper os estudos. Desse total, 78,2% são pretos ou pardos, enquanto 20,8% são brancos.
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Fonte: TVT News