PF revela como Banco Master produzia documentos falsos em esquema de R$ 7,15 bilhões

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Por Tathyane MeloJornal Opção

PF revela como Banco Master produzia documentos falsos em esquema de R$ 7,15 bilhões

Documentos tornados públicos na sexta-feira, 11, pela Polícia Federal (PF) detalham como funcionários do Banco Master participavam da produção de documentos apontados como falsos e usados para sustentar operações de cessão de créditos ao Banco de Brasília (BRB). Conforme o relatório técnico-pericial, a fraude funcionava como uma “linha de montagem” digital e envolveu R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado por meio da Tirreno Consultoria, empresa de fachada criada para dar aparência de legitimidade a ativos ilíquidos vendidos ao BRB.

A estrutura foi descrita em apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master. Intitulado “Investigações internas – Banco Master”, o arquivo tinha 30 slides e documentava atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025.

Modus Operandi 

Os dados de clientes de operações antigas eram extraídos dos sistemas internos e organizados em planilhas. Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, pediu a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, o levantamento de CPFs por meio do Microsoft Teams. Vinicius reuniu os CPFs em um arquivo e, no dia seguinte, executou consulta no banco de dados interno. O resultado foi exportado para uma planilha, enviada por e-mail a Fabrizio e à equipe.

As próprias conversas entre integrantes da área de tecnologia mostram problemas na base. Em 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem dos dados. Rafael observou que havia o CPF de uma pessoa com apenas uma proposta de 2019 e afirmou que a lista estava “meio furada”. 

Thiago Ramalho: “filtrando formalização só tem 328 credcesta-refin…. nao deveria ser a maioria”. 

Rafael Manfrin: “ai deu merda então / pq tem um cpf nesse meio aqui que so teve 1 proposta em 2019 / ta meio furado essa lista ai”.

Com os dados reunidos, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a mala direta do Microsoft Word para produzir 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025. Ele vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”.

Assinaturas reaproveitadas e rastros apagados

Além disso, a área de tecnologia desenvolveu aplicações para extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, justamente a página de assinatura dos documentos originais. A perícia também identificou um arquivo erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, continha 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento.

As Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) foram assinadas digitalmente em 20 de junho de 2025 por quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma. As assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader usando certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado. A perícia encontrou aí uma das maiores evidências: em determinados documentos, a data escrita no corpo da CCB indicava 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro criptográfico da assinatura digital mostrava que o arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.

Allan Machado também pediu a Moacir que removesse informações de data e hora dos Termos de Consentimento. Em conversa no Teams de 20 de junho:

Allan da Silva Machado: “e o termo de consentimento”.
Allan da Silva Machado: “e precisamos excluir a data”.

No Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal, o registro original 24/02/2023 13:05 foi apagado visualmente em 3 de julho de 2025, às 15h26. A alteração, porém, não eliminava todos os vestígios analisáveis pela perícia digital.

Dossiês, comprovantes e auditoria

Depois de produzidas e alteradas, as peças eram reunidas em um único PDF por operação com o uso do PDF24. Até os comprovantes de transferência foram alvo de alteração. Em 25 de junho de 2025, Allan discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX. O problema era que os documentos apresentavam informações como a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.

Allan da Silva Machado: “nao da para aparecer o evento”.
Allan da Silva Machado: “porra… este aparece o numero de contrato… nao quero o numero de contrato nem o histórico”.
Romy Klenquen: “entao nao tem oq fazer / um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2700 comprovantes no editor”.
Allan da Silva Machado: “tem q dar um jeito”.

A preocupação com a auditoria da Deloitte também aparece. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria cobrava informações. 

Alberto Felix de Oliveira Neto: “esse tem que falar que foi erro operacional na selecao”.

Dois dias antes, Fabrizio e Alberto já haviam discutido o envio à Deloitte de documentos referentes à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025. Na ocasião, Fabrizio afirmou que a base já havia sido enviada anteriormente, mas continha um erro que precisava ser corrigido. Em seguida, Alberto quis saber quais documentos a auditoria pediria. Fabrizio respondeu que seriam CCBs e termos.

A investigação também identificou o repasse de amostras da documentação falsificada à cúpula do banco. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”. Alberto respondeu que providenciaria e, minutos depois, informou que tinha acesso apenas à CCB, enquanto Allan enviaria os links das procurações e da assinatura.

A cadeia começava no banco e terminava em um dossiê. Mesmo após a retirada de datas e a alteração de documentos, a própria estrutura digital deixava vestígios, e foi justamente o choque entre as datas escritas nas CCBs e os registros das assinaturas digitais que permitiu à perícia identificar que documentos apresentados como anteriores haviam sido assinados apenas posteriormente.

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Fonte: Jornal Opção

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