PF investiga repasse de US$ 180 mil de Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro, a ex-diretor da Abin
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Uma apuração conduzida pela Polícia Federal busca esclarecer se Paulo Maurício Fortunato, ex-diretor de Operações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), foi beneficiado com o recebimento de US$ 180 mil (montante equivalente a aproximadamente R$ 900 mil em valores atuais) repassados pelo advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), informa a Folha de São Paulo.
Sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, um inquérito em trâmite no Supremo Tribunal Federal (STF) mira Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro por suposto envolvimento em esquemas de lavagem de dinheiro. Essa investigação, desdobrada a partir de apurações sobre transações atípicas e o segmento de apostas esportivas, foi remetida à Corte Suprema em razão da citação do parlamentar. A apuração abrange ainda outras figuras públicas do meio político, incluindo o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e o ex-diretor da Abin e ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ).
A suspeita sobre o repasse em moeda estrangeira ganhou força após a perícia no dispositivo telefônico de Willer, apreendido em outra operação da PF que investiga fraudes na concessão de aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Na memória virtual do aparelho, a perícia encontrou um registro datado de “agosto/21” associando o nome de Fortunato à quantia de US$ 180 mil, acompanhado dos termos “corregedoria”, “diretor de operações” e “oficial de inteligência”.
Para a Polícia Federal, há uma chamativa similaridade entre a quantia registrada nas anotações do advogado e o montante de US$ 171,8 mil em espécie apreendido com o próprio Fortunato durante o cumprimento de mandados de busca em outubro de 2023. No requerimento enviado à Justiça, os investigadores anotaram que “o montante chama a atenção por sua proximidade com o valor de US$ 180 mil registrado nas anotações de Willer”.
Embora os agentes reconheçam que a coincidência de valores não comprova de imediato o ilícito, o vínculo do nome do servidor ao montante justifica o aprofundamento da apuração. Conforme destacou a corporação, “embora a proximidade entre os valores não permita, isoladamente, estabelecer relação entre os fatos, a anotação de US$ 180 mil vinculada a Paulo Maurício e a apreensão posterior de aproximadamente US$ 171,8 mil constituem elemento de interesse para aprofundamento, especialmente diante da menção expressa ao servidor no material armazenado por Willer”.
Fortunato foi indiciado em junho de 2025 por violação de sigilo funcional e organização criminosa no âmbito das investigações da chamada “Abin paralela”, estrutura clandestina mantida durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) para monitorar ilicitamente e perseguir adversários políticos. O servidor chefiou as operações da agência na gestão de Ramagem e, no início do governo Lula (PT), ocupava a Secretaria de Planejamento e Gestão, terceiro posto na hierarquia do órgão, até ser afastado por determinação de Alexandre de Moraes na operação de outubro de 2023. O inquérito da “Abin paralela” foi encaminhado à primeira instância judicial após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Procurada para prestar esclarecimentos, a equipe de Willer Tomaz negou a ocorrência de qualquer transação financeira e sustentou que o registro no celular tratava-se apenas de uma análise jurídica prévia realizada em fevereiro de 2024 para a eventual defesa do servidor, que acabou não sendo contratada. Em nota oficial, a defesa sustentou que “a anotação foi feita em fevereiro de 2024, meses depois da busca realizada em 2023, e registra apenas o resumo de um caso apresentado ao escritório para avaliação: o histórico funcional do interessado e o procedimento de corregedoria a que ele respondia. O advogado não aceitou a causa, não conhece Paulo Maurício Fortunato”.
A nota acrescenta ainda que “não se trata de pagamento, recebimento, promessa ou transação de qualquer natureza” e que “Willer Tomaz jamais pagou, recebeu ou intermediou qualquer valor a Paulo Maurício Fortunato ou a pessoas ou empresas ligadas a ele. Transformar o resumo de uma consulta não aceita em suspeita é desconhecer o exercício elementar da advocacia”.
A defesa de Paulo Maurício Fortunato também rejeitou qualquer ligação com o advogado ou com a família Bolsonaro. O advogado Oscar Luis de Morais assegurou que “Dr. Paulo Maurício Fortunato Pinto jamais teve qualquer relação pessoal ou profissional com o advogado Willer Tomaz; o dr. Paulo Maurício Fortunato Pinto não conhece o senador Flávio Bolsonaro e jamais teve qualquer relação pessoal ou profissional com o mesmo”.
Procurada por e-mail enviada pela Folha de São Paulo às 18h05 de terça-feira (20), a assessoria de campanha de Flávio Bolsonaro não encaminhou manifestação.
Fonte: Brasil 247