Cartas marcadas
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Rodrigo cobra, responsável pela plataforma tem meu voto, recebeu dinheiro de candidatos indicados
“Eu queria falar sobre uma plataforma que é gratuita e apartidária, que dá um match entre eleitor e candidato, que chama TemMeuVoto.org.br. O eleitor responde a um questionário (…) e o sistema calcula o porcentual de alinhamento com cada candidatura. São quase 20 mil candidaturas na base. É apartidário, não indica candidato, não indica voto.” Foi com essas palavras que Luciano Huck, no dia 27 de setembro – faltando uma semana para o primeiro turno –, divulgou o Tem Meu Voto em seu programa dominical na Globo. Imediatamente, vários eleitores começaram a usar a plataforma e relatar nas redes sociais que o site apresentava candidatos sempre com um mesmo perfil. Usuários postaram que, mesmo respondendo às perguntas da forma mais à esquerda possível, as indicações iam para nomes de partidos de direita, como Novo, PL e Republicanos. As denúncias levaram o site a apresentar uma nova versão dois dias depois, mas os problemas não cessaram. Mais um dia se passou e a Coalizão pelo Voto Consciente, formada por 14 organizações da sociedade civil, informou sua suspensão.
A nota, que segue no ar, alega que partidos e candidaturas de todos os espectros foram convidados a registrar suas posições na plataforma, mas que a adesão “ficou abaixo do necessário para assegurar uma ampla representatividade das opções apresentadas ao eleitor”. A reportagem pediu os comprovantes dos convites feitos aos partidos, mas o Tem Meu Voto não respondeu. Uma fonte ligada ao mercado financeiro que apoia o Tem Meu Voto entrou em contato com a reportagem para “explicar o que aconteceu”, mas preferiu não ter seu nome divulgado. “Todos os partidos foram avisados. Depois de alguns dias, o que a gente viu foi que o engajamento estava baixíssimo. Dos 19 mil candidatos, 500 tinham preenchido o cadastro”, informou. Mesmo com a baixa adesão, a decisão de colocar a página no ar no dia 16 de setembro foi mantida.
A maior parte dos candidatos cadastrados é integrante do RenovaBR, “uma escola pluripartidária, sem fins lucrativos, que forma lideranças políticas e públicas para um Brasil mais justo”. O RenovaBR ficou conhecido como a escola que impulsionou no cenário político Tabata Amaral, do PSB paulista, e também por ser uma instituição apoiada por empresas internacionais, fundações de grandes investidores e por Huck. Nas eleições de 2026, 47 lideranças RenovaBR foram eleitas, representando um crescimento de 161% em relação a 2022. De acordo com a Coalizão pelo Voto Consciente, o RenovaBR tem a responsabilidade legal e metodológica pela plataforma.
Cobra induziu os usuários a acreditar que seus clientes apareciam de forma espontânea nas buscas do sistema – Imagem: Redes Sociais
Ocorre que o site foi baseado em uma programação que o forçava a indicar no topo da lista um rol de candidatos, mesmo que esses tivessem menor afinidade com o eleitor. A programação foi avaliada por três IAs diferentes – Gemini pago, Claude e Deepseek – e todas apontam que as distorções são resultado de decisões de projeto e do uso dos dados do site, dando vantagem às 147 candidaturas, cujas respostas foram entregues pelo RenovaBR entre os dias 25 e 28 de setembro.
A programação do site determinava que os candidatos fossem apresentados em quatro blocos, independentemente do porcentual de alinhamento com o eleitor, com as nomenclaturas “own”, “partner”, “inferred”, “none”. No primeiro, estariam as comparações feitas entre a escolha do eleitor e os candidatos que colocaram suas respostas individualmente no site, identificados como “own”. O Tem Meu Voto não informa quantos foram os candidatos que enviaram os formulários, mas encontramos uma lista com 358 nomes cadastrados, com um número significativo de “lideranças” do RenovaBR e de outras entidades da Coligação. O segundo bloco apresenta os formulários enviados por “parceiros”, onde encontramos o arquivo enviado pela RenovaBR com 147 candidatos. No terceiro bloco estariam os candidatos onde a afinidade era “inferida” de acordo com suas votações na Câmara e, por fim, o bloco “none” ou “nenhum” onde não havia elementos para identificar o alinhamento dos candidatos. O Tem Meu Voto se negou também a responder quantas candidaturas atenderam ao convite da plataforma. Mesmo que a falha na programação tenha sido um erro, era de conhecimento dos envolvidos que a baixa adesão criaria uma desproporção nas indicações, mesmo assim a divulgação no Domingão com Huck aconteceu.
O site era programado para priorizar os nomes apoiados pelo RenovaBR, independentemente das respostas fornecidas no questionário
As distorções no site chamaram atenção da deputada Fernanda Melchionna, do PSOL/RS, que enviou uma notificação ao procurador-geral eleitoral, Paulo Gonet. “A utilização de uma plataforma apresentada como apartidária para conferir maior visibilidade a determinadas candidaturas, mediante critérios que não correspondam à proximidade efetiva entre suas posições e as preferências manifestadas pelos usuários, constitui circunstância que demanda apuração pelo Ministério Público Eleitoral.” Apesar do pedido, o MPE avaliou não serem necessárias providências imediatas, uma vez que a plataforma foi desligada em poucos dias. O vereador de São Paulo pelo PT Nabil Bonduki também fez uma manifestação para a Procuradoria-Geral Eleitoral. Ele questiona a forma com que o RenovaBR atua. “É uma entidade que não é um partido, mas é como se fosse. São pessoas poderosas que financiam determinados candidatos, de vários partidos”, argumenta. Para Fernando Neisser, doutor pela USP e professor de Direito Eleitoral da FGV, houve uma falha metodológica, que era bastante grave, mas que foi rapidamente flagrada pela sociedade civil. “Entidades que querem de alguma forma colaborar com o debate público é claro que são bem-vindas, mas é preciso compreender que as ações têm consequências e elas precisam ser avaliadas com mais cuidado.”
Diretor-executivo do RenovaBR, o mineiro Rodrigo Matsumoto Cobra mantém outros empreendimentos no ramo da política. A Novos Governos Consultoria e Assessoria, criada em 2017, já recebeu quase 3 milhões de reais em gastos de campanhas. Todas as contratações individuais dos candidatos são justamente de integrantes do RenovaBR. A empresa não aceitou informar que tipo de consultoria oferece, nem se existem outros contratantes além dos que constam no TSE. Matsumoto não aceitou falar com a reportagem. Segundo a assessoria do RenovaBR, Matsumoto dedica-se de forma exclusiva à organização e é remunerado por seus serviços por meio de duas empresas das quais é o único sócio. Informa ainda que a Novos Governos presta serviços a campanhas eleitorais, sendo conduzidas exclusivamente pelos demais sócios. A reportagem procurou Huck e a TV Globo, que não responderam. •
Publicado na edição n° 1436 de CartaCapital, em 28 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Cartas marcadas’
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Fonte: Carta Capital