PF cita contatos de Cezinha de Madureira com ministros em operação sobre influência em tribunais

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Por Lucas MendesJOTA

Relatório da Polícia Federal (PF) citou supostos encontros e contatos do deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) com os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Nunes Marques e André Mendonça como indícios de que o congressista atuaria numa “intermediação” entre interessados em processos dos magistrados e integrantes de tribunais superiores.

Segundo o ministro Flávio Dino, que autorizou ações de busca e apreensão contra o parlamentar, os indícios apontam que Cezinha, sem habilitação para atuar como advogado, aparentemente usava a “ascendência de sua função parlamentar para incutir em terceiros a percepção de influência sobre magistrados” dos tribunais superiores.

A suspeita dos investigadores é de uma suposta estrutura de “comercialização de influência” junto a ministros do STF, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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São apurados o possível cometimento dos crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

De acordo com a PF, o esquema se dava por meio de “remuneração vultosa” ajustada na forma de contratos de honorários e de cessão de crédito celebrados por advogadas ligadas ao deputado, incluindo a sua esposa, Valéria Rodrigues Linhares, e Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, ex-assessora do deputado Arthur Lira (PP-AL). 

A PF reforçou em seu pedido a Dino que a conduta dos ministros de tribunais superiores não é objeto da apuração e que não há nada irregular na atuação dos magistrados.

“Não há, nos elementos reunidos, notícia de solicitação, de aceitação ou de recebimento de vantagem indevida por integrante do Poder Judiciário, tampouco de prolação de ato jurisdicional em desconformidade com o direito”, disseram os investigadores. “Os magistrados nominalmente referidos nos diálogos comparecem nestes autos exclusivamente como destinatários cogitados da influência anunciada pelos investigados — vale dizer, como elemento descritivo do tipo penal —, e jamais como suspeitos”. 

Conforme a PF, o recebimento de parlamentares em despachos, a concessão de audiências a advogados regularmente constituídos em processos e a apreciação de memoriais são atos “lícitos, inerentes ao exercício da jurisdição e ao direito de petição”.

Os investigadores apresentaram dados obtidos do celular de Mariângela Fialek em conversas com Cezinha:

MARIÂNGELA : “Deixa ver se entendi / Estará com min kassio as 16? / Ou sobre Ceará?

CEZINHA : “Assunto 1” […] “Já falei ontem com Andre e Antonio Carlos sobre esse tema. Ok? Entendeu?” 

CEZINHA : “Eu havia pedido a ele para me atender hoje cedo, ele não consegui me atender, marcou para falar comigo por vídeo às 16:00 / Ministro Kassio / Entendeu? / Ai vou pedi a ele / Ontem a noite já avisei aquela pessoa que tinha um tema para tratar com ele, fiquei só de mandar o número. Vou mandar jaja antes de falar as 16:00 com ministro Kassio / Foi até bom que ele vai ver se de fato eu preciso pedir expressamente” 

MARIÂNGELA : “Esposa tinha dito que vc precisaria despachar. Por isso fizemos memorial” 

De acordo com a PF, as expressões “vou pedi a ele”, “eu preciso pedir expressamente” e a identificação nominal do interlocutor (“Ministro Kassio”) evidenciam, de forma preliminar, que o deputado “não se limitava a encaminhar peças: comprometia-se a formular pedido pessoal e direto ao julgador, em favor de partes representadas por advogadas a ele ligadas por vínculo conjugal e por interesse econômico”. 

Encontro com Vorcaro

A PF também citou notícias publicadas na imprensa de que Cezinha de Madureira teria intermediado um encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, ex-dono do banco Master, em 2025. A reunião foi relevada pelo site ICL, no começo de setembro, e depois foi confirmada pelo magistrado.

A representação não cita o nome de Mendonça, mas faz referência a “encontro reservado” entre “empresário do setor financeiro e Ministro desta Suprema Corte” no endereço do Instituto Iter, do qual o magistrado era sócio. 

“Tal notícia, se confirmada, revelaria que a intermediação de acesso a ministros de Tribunais Superiores não constitui episódio isolado, mas prática reiterada do representado”, disse a PF. 

Outro fato noticiado pela imprensa e citado pela PF foi a apreensão de R$ 510 mil em espécie transportados em bagagem de mão por Valéria Linhares, esposa de Cezinha, no aeroporto de Congonhas, enquanto tentava embarcar para Brasília. 

Segundo a PF, a defesa alegou que os valores decorreriam de honorários advocatícios recebidos de cliente, comprometendo-se a apresentar comprovação fiscal posterior. 

“O fato é diretamente relevante: os instrumentos apreendidos no celular de MARIÂNGELA FIALEK preveem, em favor da sociedade individual de advocacia de VALÉRIA, remuneração de êxito de R$ 1.000.000,00 e, no contrato conexo, de R$ 2.000.000,00 — precisamente a modalidade de recebimento cuja liquidação em espécie compromete a rastreabilidade”. 

De acordo com a investigação, os diálogos obtidos até o momento revelam uma “atuação articulada e continuada”:]

  • Mariângela Fialek, enquanto advogada, capta e formaliza as causas e elabora memoriais;
  • Valéria Linhares, advogada e esposa de Cezinha, redige, revisa e assina os instrumentos de honorários e de cessão de crédito e sinaliza a evolução do “assunto”;
  • Deputado Federal Cezinha atuaria no suposto contato pessoal e direto com ministros de tribunais superiores. 

“O padrão de conduta é constante e se repete em todos os episódios: (i) Fialek encaminha ao parlamentar a peça, o memorial ou o andamento processual; (ii) o parlamentar confirma que “falou”, “despachou”, “pediu” ou que será atendido pelo Ministro; (iii) a advogada cobra o resultado (“Manda notícias”, “Me de boas notícias!”, “Qual o próximo passo”); e (iv) paralelamente, formaliza-se o instrumento de honorários de êxito, em valores incompatíveis com a simples atuação técnica e vinculados exclusivamente ao resultado do julgamento”.

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Buscas

A PF cumpriu na manhã desta segunda-feira (14/9) quatro mandados de busca e apreensão na operação que apura suposto esquema de tráfico de influência em tribunais. Um dos alvos é o deputado Cezinha de Madureira.

As medidas fazem parte da terceira fase da Operação Transparência. O caso é um desdobramento de investigação sobre irregularidades na destinação de emendas parlamentares, iniciada em dezembro de 2025.

A reportagem entrou em contato com o gabinete e a assessoria do deputado e aguarda posicionamento.

Fonte: JOTA

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