Pesquisa detecta cocaína em rios do Rio de Janeiro
Por Ana Paula Cavalcanti — Combate Racismo Ambiental
Agência Fiocruz de Notícias (AFN)
Pesquisa liderada pela Fiocruz detectou a presença de cocaína em cinco rios da capital e Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Também foi encontrado o principal derivado da cocaína, chamado de benzoilecgonina, que é excretado na urina após metabolização da droga no organismo dos usuários.
As análises revelaram altos níveis de contaminação, superiores aos encontrados em estudos semelhantes em países como Bélgica, Espanha e Estados Unidos. Ensaios em laboratório apontaram que as substâncias – nas concentrações detectadas no ambiente – têm efeitos tóxicos para organismos aquáticos.
A investigação incluiu os rios Irajá e Carioca e os canais do Cunha e do Mangue, na capital, e o Rio Meriti, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Todos deságuam na Baía de Guanabara.
Coordenado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), o estudo foi realizado em parceria com Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). O estudo teve financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Os dados foram publicados na revista científica internacional Aquatic Toxicology. A pesquisa integrou a tese de doutorado de Gabriel de Farias Araujo, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Saúde Pública e Meio Ambiente, da Ensp/Fiocruz, sob orientação de Enrico Saggioro, pesquisador do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do IOC.
Detecção de contaminantes
Para investigar a contaminação, os cientistas realizaram coletas mensais de água nos cinco rios durante um ano, entre julho de 2022 e junho de 2023. Das 60 amostras coletadas, somente uma não apresentou cocaína. Todas foram positivas para a benzoilecgonina, principal derivado da droga.
A contaminação foi maior na estação chuvosa, de outubro a março, com pico no mês de janeiro, o que se alinha com estudos nacionais e internacionais, que apontam aumento da presença de drogas ilícitas no ambiente em períodos de férias e festas.
Em quase todas as amostras, a concentração de benzoilecgonina foi maior que a de cocaína, o que é compatível com a contaminação a partir de esgotos que carregam dejetos de usuários da droga. O padrão foi inverso em apenas uma amostra, na qual a concentração de cocaína foi quatro vezes maior que a do metabólito, indicando possível descarte da droga.
Efeitos tóxicos
O efeito das substâncias em organismos aquáticos foi avaliado por meio de ensaios em laboratório, realizados com embriões de zebrafish, um peixe amplamente utilizado em análises de ecotoxicologia. A exposição destes peixes às concentrações dos contaminantes detectadas nos rios do Rio de Janeiro causou aumento de mortalidade, deformações, alterações cardiovasculares e neurológicas, entre outros impactos.
O efeito do metabólito foi ainda mais nocivo que o da cocaína, com danos aos peixes observados em ensaios com 13% da concentração de benzoilecgonina encontrada no ambiente. Considerando os dados observados, os autores destacam, na conclusão do artigo, a importância de incluir a cocaína e o seu metabólito em programas de monitoramento e avaliações de risco ecológico para proteger melhor os ecossistemas aquáticos em regiões altamente urbanizadas.
Tendo em vista os resultados da pesquisa, os cientistas ampliaram a investigação para 13 rios do Rio de Janeiro, em uma segunda etapa do estudo. Novas coletas foram realizadas entre dezembro de 2023 e novembro de 2024. As análises estão em andamento, com previsão de conclusão no primeiro semestre de 2027.
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Fonte: Combate Racismo Ambiental