Maílson da Nóbrega, as sereias da direita e o perigo das respostas fáceis
Por Tiago Vechi — Jornal Opção

A lenda do canto das sereias sempre me vem à mente quando observo determinados discursos da direita. A voz é convincente, a promessa é sedutora, a solução parece simples para problemas complexos. Elas cantam como quem conhece o caminho, enquanto quem escuta se deixa conduzir, pouco a pouco, para águas cada vez mais profundas.
É assim que candidatos, políticos e gestores podem se apresentar: como grandes vigilantes da moral, donos de respostas para todos os problemas, revestidos de certezas e, às vezes, até dizendo falar em nome de Deus. Mas é justamente aí que mora o perigo. O canto pode ser bonito, mas isso não significa que o destino seja seguro. Quem se deixa encantar pode acabar afogado.
Por isso, quando alguém promete soluções fáceis, se apresenta como salvador ou afirma ter recebido de Deus a autoridade para conduzir os outros, é preciso desconfiar. Você conhece as águas em que está nadando?
Essa reflexão me veio à mente durante uma palestra de Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. Não porque sua fala seja uma reprodução exata da lenda, mas porque a lógica do discurso me remeteu ao conto. A exposição começou sob o signo da tecnicidade, da análise econômica e da experiência de quem ocupou um dos principais cargos da República. Aos poucos, porém, surgiram posições que merecem ser examinadas com mais cuidado.
Entre elas, uma interpretação positiva das reformas realizadas durante o regime militar e críticas às políticas de redução da desigualdade social implementadas nos governos do Partido dos Trabalhadores.
As diretrizes econômicas do PT são, evidentemente, passíveis de críticas. Há erros, contradições e decisões que podem e devem ser questionados. Mas há uma diferença entre discutir os resultados de uma política econômica e relativizar um período autoritário da história brasileira.
Se, como foi dito na palestra, o golpe de 1964 é apresentado como uma “reforma virtuosa”, a afirmação precisa ser confrontada com aquilo que também aconteceu naquele período: suspensão de direitos, perseguições políticas, censura, tortura, mortes e desaparecimentos. Não se trata de impedir uma interpretação política sobre a história, mas de lembrar que nenhuma avaliação econômica pode apagar as consequências humanas e institucionais de uma ditadura.
Também chama atenção a defesa recorrente do setor privado como motor quase exclusivo da inovação e do desenvolvimento. A iniciativa privada tem, sem dúvida, papel fundamental em qualquer economia moderna. Mas a história do desenvolvimento brasileiro e internacional mostra uma relação muito mais complexa entre Estado, empresas, universidades e mercado.
Grande parte da pesquisa que sustenta inovações utilizadas pelo setor privado nasceu ou foi financiada por instituições públicas. No Brasil, universidades federais e estaduais, institutos de pesquisa e empresas públicas participaram de processos decisivos de desenvolvimento tecnológico. É difícil sustentar, portanto, que Estado e mercado sejam mundos completamente separados, em que um apenas atrapalha e o outro apenas produz.
Há também uma contradição quando se critica a existência de empresas estatais sem reconhecer que muitas delas foram criadas justamente para preencher lacunas deixadas pelo capital privado ou para atuar em setores considerados estratégicos. A discussão sobre eficiência, tamanho e finalidade dessas empresas é legítima. O que não parece razoável é transformar a privatização em uma espécie de solução universal.
Da mesma forma, dizer que empresas estatais surgiram no século XVIII e que, antes disso, “só havia empresas privadas” exige, no mínimo, uma discussão histórica mais cuidadosa. A formação das estruturas econômicas modernas não cabe em uma oposição simples entre Estado e iniciativa privada. Estados, corporações, companhias de comércio, monopólios concedidos pelos governos e diferentes formas de organização econômica coexistiram durante séculos.
Outro ponto que merece reflexão é a ideia de que o caminho para o Brasil enriquecer estaria na venda de seus recursos e na transferência de sua exploração para empresas estrangeiras. Capital estrangeiro pode ser importante para uma economia. Mas desenvolvimento não significa simplesmente vender ativos ou recursos naturais. Países que alcançaram níveis elevados de desenvolvimento combinaram, em diferentes momentos, investimento público, empresas nacionais, capital privado, proteção de setores estratégicos, pesquisa, educação e abertura comercial.
Não existe uma única cartilha capaz de explicar o desenvolvimento de Estados Unidos, China, Alemanha, Japão ou Coreia do Sul. Cada um construiu sua própria combinação entre Estado e mercado.
Por isso, também merece ser questionada a defesa automática de determinadas recomendações associadas ao Fundo Monetário Internacional. O problema não está em ouvir organismos internacionais ou em reconhecer a importância da responsabilidade fiscal. O problema começa quando qualquer receita econômica passa a ser apresentada como universal, independentemente das condições históricas, sociais e produtivas de cada país.
A mesma simplificação aparece quando se afirma que não haveria razão para mulheres se aposentarem mais cedo. A discussão previdenciária pode e deve considerar sustentabilidade fiscal e mudanças demográficas. Mas também precisa levar em conta a realidade social: mulheres ainda concentram parcela significativa do trabalho doméstico e de cuidado, enfrentam desigualdades salariais e têm trajetórias profissionais frequentemente marcadas por interrupções que não aparecem nas estatísticas de renda de maneira simples.
É possível discordar das políticas de aposentadoria diferenciada. O que não parece possível é discutir o tema como se homens e mulheres percorressem exatamente a mesma trajetória social e profissional.
No fundo, é disso que trata o canto das sereias: da sedução das respostas fáceis.
O problema não está em defender o mercado, criticar o Estado, questionar o PT, defender privatizações ou discutir a Previdência. Tudo isso faz parte do debate democrático. O perigo começa quando uma visão de mundo se apresenta como a única racional, a única moralmente aceitável ou, pior, como aquela que teria recebido uma espécie de autorização superior para conduzir os demais.
É preciso desconfiar de quem promete soluções simples para problemas complexos. É preciso perguntar quem ganha, quem perde e quem paga a conta. É preciso olhar para além da beleza do canto.
Porque talvez a verdadeira ameaça das sereias nunca tenha sido o som de suas vozes. Talvez tenha sido a nossa disposição de acreditar que, finalmente, encontramos alguém que conhece o caminho.
E talvez seja justamente aí que a democracia exija mais de nós: que nenhum discurso, por mais sedutor que seja, nos faça esquecer de perguntar para onde estamos sendo conduzidos.
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Fonte: Jornal Opção