Perfis estrangeiros têm posts pagos para apontar favoritismo de Flávio Bolsonaro nas eleições
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – Publicações pagas feitas por perfis registrados fora do Brasil na rede social X, antigo Twitter, têm promovido a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República e difundido a ideia de que ele seria favorito na eleição brasileira, com base em dados da plataforma de apostas Polymarket.
As postagens foram reveladas pelo Metrópoles, que identificou conteúdos marcados pelo próprio X com o selo “parceria paga”, usado pela plataforma para indicar publicações patrocinadas ou incentivadas por uma marca ou funcionário. Segundo especialistas ouvidos pelo portal, o impulsionamento de conteúdo eleitoral na internet por terceiros, no Brasil ou no exterior, é vedado pela Lei nº 9.504/1997.
Nos conteúdos pagos, perfis estrangeiros afirmam que Flávio Bolsonaro vai “salvar o Brasil” e derrotar o “esquerdismo” na América Latina. As publicações utilizam previsões da Polymarket, mercado de apostas e previsões, para apresentar o senador como favorito na disputa presidencial.
Pela Lei das Eleições, partidos e candidatos não podem receber, direta ou indiretamente, doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro, inclusive por meio de publicidade, vindas de entidade ou governo estrangeiro. A legislação também determina que o impulsionamento de conteúdo eleitoral deve ser contratado exclusivamente por partidos, federações, coligações, candidatos ou representantes autorizados, sempre com identificação clara do contratante.
Ao Metrópoles, o especialista em direito eleitoral Jorge Washington Cançado afirmou que a regra exige “identificação inequívoca do contratante”, o que não aparece nas postagens patrocinadas no X.
“Sobre as doações estrangeiras, o TSE já assentou, em precedente sobre doação de estrangeiro, que a vedação recai sobre a origem dos recursos, não sobre a nacionalidade do doador em si, e que a comprovação da origem estrangeira normalmente depende de prova concreta, inclusive cruzamento de dados pela Receita Federal (art. 24-C da Lei nº 9.504/1997), não de presunção. Provadas as possíveis ilicitudes, teremos sanções que vão de multa a cassação de diploma, a depender da situação fática”, afirmou Cançado.
Embora o X informe que se trata de publicação patrocinada, a plataforma não revela quem financiou as parcerias pagas. Segundo o Metrópoles, a maior parte dos perfis estrangeiros que publicaram conteúdos favoráveis a Flávio Bolsonaro é identificada como dos Estados Unidos.
Algumas dessas contas acumulam centenas de milhares de seguidores e são acompanhadas por figuras conhecidas, como Elon Musk, dono do X, e Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio. Eduardo, que mora nos Estados Unidos há quase dois anos, republicou parte dos conteúdos impulsionados sobre a candidatura do senador.
Polymarket e a tentativa de transformar apostas em termômetro eleitoral
A estratégia envolvendo a Polymarket já havia sido apontada pelo site norte-americano Factchequeado, especializado em verificação de informações. Segundo levantamento citado pelo Metrópoles, a plataforma tem usado publicações pagas no X para apresentar oscilações de mercados de apostas como uma espécie de termômetro político.
A análise identificou 13 posts patrocinados entre março e maio deste ano. Desse total, 11 traziam narrativas favoráveis a políticos de direita ou críticas a lideranças de esquerda.
No caso brasileiro, uma das publicações dizia que Flávio Bolsonaro havia ultrapassado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Polymarket. O movimento do mercado de apostas foi apresentado como sinal de que o senador teria se tornado o favorito na corrida presidencial.
O mesmo tipo de conteúdo foi observado em publicações sobre disputas políticas na Colômbia e no Peru, sempre com o desempenho em plataformas de apostas usado como indicativo de força eleitoral.
Desde junho de 2025, a Polymarket é “Parceira Oficial de Previsões de Mercado do X”. Em abril de 2026, porém, o governo brasileiro bloqueou o acesso a dezenas de sites de mercados de previsão, entre eles a Polymarket. Segundo o governo federal, a empresa não tem regulamentação nem autorização dos órgãos competentes para ofertar contratos ou apostas no país envolvendo temas como política e eleições.
Ligação com Donald Trump Jr.
A reportagem também destaca a relação da Polymarket com Donald Trump Jr., filho do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele é investidor da empresa por meio da 1789 Capital e integra o conselho consultivo da plataforma desde 2025.
A entrada de Trump Jr. no conselho foi anunciada pela própria Polymarket após o aporte financeiro feito pelo fundo.
Repercussão entre bolsonaristas
As publicações pagas ganharam repercussão entre aliados e apoiadores de Flávio Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro republicou no X algumas das mensagens feitas por contas estrangeiras de grande alcance sobre o desempenho do senador na Polymarket.
Segundo o Metrópoles, algumas das contas que impulsionaram os conteúdos são seguidas por Flávio e Eduardo Bolsonaro na rede social.
O material também foi compartilhado por perfis bolsonaristas como os de Mário Frias (PL-SP), Lucas Pavanato (PL-SP) e Allan dos Santos. Em algumas publicações, os conteúdos foram acompanhados da frase “vai ser no primeiro turno”.
A expressão foi repetida por outras contas brasileiras que replicaram os mesmos materiais, reforçando a narrativa de que Flávio Bolsonaro lideraria a disputa e poderia vencer já no primeiro turno. A repetição da frase, no entanto, não permite concluir, por si só, que tenha havido uma ação coordenada entre os perfis.
Fonte: Brasil 247