Perdão de dívidas pode beneficiar 3,6 milhões de MEIs, mas empreendedores devem ficar atentos a golpes

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Por Luan Monteiro — Jornal Opção

Perdão de dívidas pode beneficiar 3,6 milhões de MEIs, mas empreendedores devem ficar atentos a golpes

O pacote Prospera MEI, anunciado pelo governo federal na terça-feira (13), pode representar uma oportunidade de recuperação financeira para milhões de microempreendedores individuais (MEIs), especialmente pela possibilidade de perdão de dívidas tributárias e pela ampliação do limite de faturamento anual. Apesar da expectativa positiva, as medidas ainda dependem de aprovação legislativa e da definição de regras específicas para que os empreendedores saibam como acessar os benefícios.

Em entrevista ao Jornal Opção, Sucena Hummel, diretora do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis de Goiás (Sescon-Goiás), avalia que a proposta de perdão de débitos tributários inscritos na Dívida Ativa da União tem potencial para dar fôlego a pequenos negócios que enfrentam dificuldades financeiras. Segundo as estimativas divulgadas pelo governo, a iniciativa poderá alcançar aproximadamente 3,6 milhões de microempreendedores, com um montante estimado em R$ 12,6 bilhões.

“Se passar na aprovação do Congresso, a maior medida, na minha opinião, é a questão do perdão das dívidas tributárias. Você acaba dando um fôlego para quem tem essa dívida, para recomeçar novamente”, afirma Sucena.

A proposta pretende facilitar a regularização fiscal de empreendedores que acumulam débitos com a União. Para a diretora do Sescon-Goiás, a possibilidade de aliviar parte dessas obrigações pode contribuir para a reorganização financeira dos pequenos negócios e permitir que os recursos antes comprometidos com dívidas sejam direcionados à manutenção das atividades e a novos investimentos.

O benefício, entretanto, não deve ser interpretado como um perdão automático de todas as pendências. A medida está condicionada à aprovação legislativa e à definição das regras de aplicação, incluindo os critérios para identificar quais débitos poderão ser contemplados.

Regulamentação definirá acesso aos benefícios

Além do perdão tributário, o Prospera MEI reúne propostas para renegociação de dívidas bancárias, concessão de recursos para investimentos produtivos e ampliação do limite de faturamento anual da categoria. Como as iniciativas estão em diferentes etapas de implementação, os empreendedores precisam acompanhar os comunicados oficiais antes de tomar decisões financeiras.

Sucena explica que, no caso do perdão tributário, a proposta está relacionada a débitos inscritos na Dívida Ativa da União. Outras dívidas poderão ser incluídas em condições especiais de renegociação, mas ainda dependem de regras específicas para definir como os acordos serão realizados.

“Vamos ter que esperar toda a regulamentação sair. Para você ter o perdão da dívida, ela vai ter que estar 100% inscrita na Dívida Ativa da União. Outras dívidas, o governo disse que vai aprovar condições especiais para facilitar a renegociação, mas, para algumas situações, ainda não há regras específicas”, afirma.

O pacote também prevê o chamado Pix MEI, uma iniciativa de apoio financeiro de até R$ 5 mil para aplicação na atividade produtiva, sem necessidade de devolução. A proposta busca oferecer recursos para que os empreendedores invistam no próprio negócio, mas os critérios definitivos para a concessão do dinheiro ainda precisam ser esclarecidos.

Segundo Sucena, o anúncio não significa que os recursos serão depositados automaticamente na conta dos interessados. A liberação deverá obedecer a condições específicas, que podem considerar fatores como faturamento, prioridades de atendimento e apresentação de um plano de aplicação do dinheiro.

“Não necessariamente o Pix vai apertar lá o botão e o dinheiro vai cair na conta corrente. Vai ter alguns critérios, como a prioridade para mulheres empreendedoras e o limite de menor faturamento. Você vai ter que apresentar um plano de trabalho para a captação desse recurso. De imediato, fica a expectativa”, explica.

Sucena Hummel é diretora do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis de Goiás | Foto: Arquivo Pessoal

A orientação é que os MEIs não assumam compromissos financeiros contando com a liberação imediata do benefício. Antes de contratar empréstimos, realizar investimentos ou renegociar débitos, é importante verificar quais medidas já estão disponíveis e quais ainda dependem de aprovação ou regulamentação.

A divulgação de programas de regularização fiscal e concessão de crédito também exige atenção para tentativas de fraude. Segundo a diretora, os empreendedores devem desconfiar de mensagens que prometem liberação imediata de benefícios, perdão automático de débitos ou acesso facilitado a recursos por meio de links enviados por aplicativos de mensagens e e-mails.

“O principal cuidado agora é acompanhar para saber se realmente vai ser aprovado ou liberado. Não cair em nenhum golpe, não clicar em link, não clicar em WhatsApp, nenhum tipo de e-mail. Toda comunicação do governo federal com o contribuinte é feita pelos canais oficiais”, alerta.

A diretora do Sescon-Goiás afirma que já recebeu mensagens suspeitas relacionadas a iniciativas de renegociação de dívidas e destaca que a divulgação simultânea de diferentes programas pode aumentar a confusão entre os pequenos empresários. Além do Prospera MEI, outras iniciativas de negociação de débitos também estão no radar dos contribuintes, o que exige atenção para evitar que informações de programas distintos sejam confundidas.

“Na dúvida, procure um profissional da contabilidade para te orientar, para que você não tenha prejuízo. Todas as vezes que anunciam certas medidas, aparecem muitos golpes. Eu mesma já recebi um hoje”, relata.

A recomendação é consultar os canais oficiais do governo e evitar fornecer dados pessoais, senhas ou informações bancárias a partir de contatos não solicitados. Também é importante desconfiar de cobranças antecipadas para supostamente liberar recursos ou garantir o perdão de dívidas.

A orientação contábil pode ajudar o empreendedor a verificar a situação fiscal do negócio, identificar quais débitos estão registrados e compreender as alternativas de regularização disponíveis. A análise individual também permite avaliar se uma renegociação é compatível com a capacidade financeira da empresa.

Aumento do teto pode aliviar custos dos pequenos negócios

Outro ponto de destaque do Prospera MEI é a proposta de elevação do limite de faturamento anual da categoria, atualmente fixado em R$ 81 mil. O pacote prevê aumentar o teto para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. A proposta também inclui a possibilidade de permitir a contratação de um segundo funcionário. As mudanças dependem de aprovação legislativa.

Para Sucena, a atualização do limite pode aliviar a pressão sobre empreendedores que ampliaram suas atividades e se aproximam do teto permitido. Atualmente, quem ultrapassa as condições estabelecidas para permanecer como MEI pode precisar migrar para outra categoria empresarial, o que tende a elevar os custos tributários e administrativos.

“A questão das atividades que estão na informalidade depende de a legislação permitir ou não. O que vem a facilitar é a pessoa ter mais controle das suas emissões de notas e de tudo nesse sentido. E dá um fôlego, porque, quando você é desenquadrado e vai para uma microempresa, o custo onera muito”, afirma.

A diretora pondera, entretanto, que o aumento do limite não significa que todos os negócios devam permanecer como MEI. A decisão depende tanto do faturamento quanto da atividade exercida, já que nem todas as ocupações são permitidas nessa modalidade.

Quando o empreendimento ultrapassa os limites ou deixa de atender às condições da categoria, o empresário precisa avaliar a migração para outro enquadramento. Nesse processo, calcular os impostos e os custos operacionais é fundamental para evitar que o crescimento do negócio provoque desequilíbrio financeiro.

“Primeiro, tem a questão do limite de faturamento; segundo, a atividade. É preciso verificar se a ocupação permite ser MEI e fazer as contas, porque você sai de um imposto fixo para uma tributação que pode variar conforme a atividade e o regime escolhido. Mais do que nunca, qualquer empreendedor tem que fazer cálculo”, explica.

A análise deve considerar a receita projetada, a natureza da atividade, as despesas e o regime tributário aplicável. Com esses dados, o empreendedor pode comparar os custos de permanecer no enquadramento atual com aqueles envolvidos na migração para uma microempresa.

Reforma tributária exige planejamento

Além das mudanças previstas no Prospera MEI, os pequenos negócios precisam acompanhar a transição da reforma tributária. Sucena diz que as alterações no sistema de impostos podem exigir ajustes no planejamento financeiro e na organização das empresas, tornando ainda mais importante o acompanhamento contábil.

Para ela, a avaliação sobre a vantagem de uma renegociação ou de uma mudança de enquadramento deve considerar a realidade de cada empreendimento, e não apenas os benefícios anunciados de forma geral. A existência de descontos ou de novas linhas de crédito pode ser positiva, mas a decisão precisa levar em conta as condições efetivas de acesso, os custos envolvidos e a capacidade de pagamento.

A diretora do Sescon-Goiás também ressalta que os empreendedores precisam se preparar para as mudanças tributárias que serão implementadas nos próximos anos. Nesse cenário, manter a documentação organizada, acompanhar as obrigações fiscais e realizar projeções financeiras pode ajudar a reduzir riscos e evitar decisões precipitadas.

Na avaliação dela, o impacto do Prospera MEI sobre a inadimplência e a recuperação dos pequenos negócios só poderá ser medido depois que as propostas forem efetivamente implementadas. Será necessário observar quantos empreendedores conseguirão regularizar seus débitos, acessar recursos para investimentos e manter suas atividades de forma sustentável.

O volume de dívidas que poderá ser alcançado pelo programa representa, segundo ela, uma oportunidade para empresários que enfrentam dificuldades financeiras. Ainda assim, os resultados dependerão das condições econômicas, dos critérios de acesso e da efetividade das medidas anunciadas.

“É a economia que vai dizer. A gente vai ter que esperar, mas o volume de dívidas que o governo anunciou que pode ser perdoado representa uma grande oportunidade”, completou.

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Fonte: Jornal Opção

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