Paraná é segundo estado com mais registros de violência política no período pré-eleitoral, mostra pesquisa
Por Franciele Petry — Brasil de Fato
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Antes mesmo do início da campanha eleitoral, o Paraná registrou um aumento no número de casos de violência política, comparado à última eleição. É o que revelam dados prévios da 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, divulgados nesta quarta-feira (30).
O estudo produzido pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global analisou notícias e denúncias públicas desse tipo de violência contra pessoas candidatas ou eleitas nos três níveis de governo – municipal, estadual e federal – registradas no intervalo entre eleições, que tem como referência o período de 28 de outubro de 2024 a 15 de agosto de 2026.
Dos 354 casos de violência política identificados no período pré-eleitoral em todo o Brasil, o Paraná registra 31 ocorrências, em 9 municípios. O estado fica atrás apenas de São Paulo, que teve 67 registros, e ultrapassa estados que historicamente registram maiores volumes de casos, como Rio de Janeiro, que nesta edição teve 28 ocorrências.
O Paraná também registrou 1 dos 11 assassinatos identificados na pesquisa – o vereador eleito por Salto do Itararé, João Domiciano Neto (União Brasil), morto em novembro de 2024. Segundo investigações da Polícia Civil, o crime teve participação do envolvimento do suplente de vereador Odair José Carvalho da Silva (União), que assumiria o cargo com a morte de João.
O número registrado apenas no período pré-eleitoral no Paraná já ultrapassa os dados da 3ª edição da pesquisa, lançada em 2024, que identificou 30 casos no estado. Para Gisele Barbieri, coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos e uma das organizadoras do estudo, o aumento é preocupante, pois a última edição somou também casos do período eleitoral das eleições municipais. “Por envolverem candidaturas em todos os municípios, as eleições municipais costumam apresentar um volume maior de casos”, explica.
Segundo ela, o aumento de casos nesse período pré-eleitoral no Paraná pode ser justificado por uma série de fatores, entre eles a renovação dos governos e câmaras municipais. No entanto, ela chama a atenção para o grande número de casos de violência política contra as mulheres.
No Paraná, dos 31 casos identificados pela pesquisa, 25 deles – 80% – foram direcionados a parlamentares mulheres. Elas, inclusive, foram as únicas vítimas das ofensas registradas, que correspondem a 68% das violências identificadas no Paraná pelo estudo. A pesquisa também identificou situações de ameaças, agressões físicas, atentados e criminalização.
Segundo ela, esses dados são reflexo do crescimento no número de candidaturas femininas desde a eleição de 2024 – um fenômeno que ocorreu em todo o país. Em Curitiba – cidade onde ocorreram 61% das violências mapeadas –, o número de vereadoras saltou de 8 para 12 nas últimas eleições municipais. “Esse aumento da participação das mulheres foi impulsionado por ações afirmativas, novas regras de cotas de gênero e até mesmo a destinação obrigatória de recursos e aumento para essas candidaturas”, explica. “Mas, considerando a desproporcionalidade dos ataques, essas medidas precisam vir acompanhadas de respostas rápidas e eficientes aos inúmeros casos contra as mulheres parlamentares e candidatas”.
As vereadoras eleitas na última eleição, inclusive, foram vítimas de comentários misóginos no dia da posse, em 1º de janeiro de 2025. Um blog de notícias publicou comentários sobre as roupas das parlamentares e afirmou que as parlamentares “resolveram sexualizar com decotes provocantes”.
Para Gisele, o grande número de ataques dirigidos a vereadoras, prefeitas e deputadas acende um alerta. “A violência política, principalmente contra as mulheres, está dificultando o acesso de determinados corpos aos espaços de decisão e colocando em risco a nossa democracia”, aponta.
Ainda que tenham sido identificados casos de violência política contra representantes de 12 partidos dos diferentes espectros políticos, mais de 40% dos casos registrados no Paraná foram contra parlamentares do Partido dos Trabalhadores (PT). Dos 13 casos registrados contra o partido, 11 foram contra mulheres.
A advogada e Secretária de Mulheres do PT Paraná, Marilda Ribeiro da Silva, alerta que esse dado pode ser muito maior. Pelo fato de a pesquisa ter como metodologia o monitoramento de notícias, não captura casos que não tenham sido publicamente denunciados. “Nós temos 27 vereadoras no estado, e eu diria que a grande maioria delas já tem registros de um ou mais casos de violência política”, conta. Segundo ela, em muitas situações as mulheres têm medo de denunciar e se expor ainda mais. “Quando a gente denuncia, a gente retoma isso no espaço público e precisa reviver dores físicas e psicológicas”, avalia. E complementa: “Nós também temos casos em que o Judiciário não considera a violência política de gênero, mesmo com todas as evidências. Então, ao sentir também a dificuldade de provar que é vítima de violência política, às vezes as mulheres recuam”.
Mais da metade dos casos de violência política registrados no estado tiveram o machismo e a misoginia como marca. Um exemplo foi a desqualificação sofrida pela deputada estadual Ana Júlia Ribeiro (PT), que recebeu críticas por suas roupas e foi atacada pelo deputado Ricardo Arruda (PL) após pedir a substituição do parlamentar na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) pelo excesso de faltas.
O racismo também foi uma das características identificadas na prática da violência política. No Paraná, 1 a cada 4 casos foi dirigido a uma mulher negra. Em novembro de 2024, a deputada federal Carol Dartora (PT) denunciou uma série de ameaças de morte com cunho racista, com mensagens como “você é só mais uma macaca bandida, assim como todos os outros pretos fedidos”. Em março de 2023, a vereadora de Pinhais, Miss Preta, também denunciou receber uma série de mensagens racistas no Instagram.
Recentemente, a primeira vereadora nordestina de Curitiba, Vanda de Assis (PT), também sofreu um episódio de xenofobia praticado por uma colega na Câmara Municipal. Durante a fala, a vereadora Tathiana Guzella (PL) sugeriu que Vanda voltasse para o seu estado natal, no Ceará: “Por que a senhora veio para cá? A senhora nasceu lá, mas veio encher o saco aqui.”
Para Mariliz, a violência política de gênero não é um fenômeno novo, mas se intensifica com a entrada de mais mulheres na política, como reação de uma cultura machista, racista e patriarcal. “Nossa representação ainda está muito longe do que deveria ser em um sistema democrático, mas a representação que existe hoje incomoda”, avalia.
Sobre o estudo
Com dados mapeados desde 2016, a pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil já mapeou 1.937 episódios de violações contra agentes políticos e lideranças, considerando dados lançados nesta quarta-feira (30). Com 354 mapeados, o intervalo entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026 passou a ser o período pré-eleitoral com maior número de casos dos últimos 10 anos.
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Fonte: Brasil de Fato