Oscar 2027: ‘A Fabulosa Máquina do Tempo’, de Eliza Capai, disputa vaga pelo Brasil
A Gazeta

Joao Pina
Uma ‘capixaba do coração’ pode representar o Brasil no próximo Oscar. A Academia Brasileira de Cinema revelou na última quarta-feira (9) a pré-lista de filmes que podem representar o país na disputa de “Melhor Filme Internacional”. E entre os seis selecionados, está o “A Fabulosa Máquina do Tempo”, documentário dirigido por Eliza Capai.
Em meio ao sertão do Piauí, especificamente em Guaribas, Eliza acompanha principalmente meninas que vivem entre as memórias de uma geração marcada pela pobreza e os sonhos de construir um futuro diferente.
A escolha será revelada na próxima quinta-feira (16), e independentemente do resultado, a presença de Eliza Capai entre os pré-selecionados já coloca o cinema do país no radar de uma das principais premiações do mundo. Em entrevista com HZ, Eliza contou sobre como surgiu o documentário, suas expectativas com a escolha da Academia e da importância do audiovisual.
De onde veio a fabulosa máquina?
Em 2013, Eliza visitou a cidade de Guaribas, no Piauí, para um estudo político. Ao conversar com mulheres e meninas da região, percebeu que as duas gerações tinham expectativas muito diferentes sobre o futuro, uma descoberta que ficou marcada na cineasta.
As mulheres, por volta dos 30 anos que comandavam seus lares, viveram situações de miséria por falta de comida e roupas, e de um sonho de se casar com um “bom marido” (o homem seria quem revelaria a ela o próprio valor). Já suas filhas, que tiveram infâncias melhores que suas mães, contaram que seus objetivos não envolvem maridos ou crianças, e sim uma profissão (médicas, cantoras e advogadas).
Aquilo me marcou muito. Ver como uma geração sonhava, quando menina, em ter um bom marido que lhe desse valor e como, na geração seguinte, ao contrário dessas mães, as meninas têm o direito de sonhar com o próprio sucesso a partir da sua autonomia. Naquele momento, tive a certeza de que voltaria para Guaribas
Eliza Capai Diretora e cineasta
Oito anos depois, em 2021, ela retornou a Guaribas primeiro para uma oficina de vídeo, que sua equipe iria oferecer para as meninas que ela conheceu. Porém, já com os primeiros relatos, surgiu a ideia de transformar aquelas histórias em um filme.
O tom de como a história seria contada veio pelo gosto de Eliza por filmes protagonizados por crianças. Ela conta que foi daí que surgiu a ideia de máquina do tempo, por deixar o filme ser guiado pela visão das crianças. Por meio da imaginação e do lúdico, as filhas dessas mulheres são viajantes temporais, que conhecem o passado difícil e projetam um futuro melhor.
Como que o ES influenciou?
Nascida em São Paulo, mas criada desde pequena em Vitória, a diretora conta que crescer no Espírito Santo, em meio a uma realidade estadual marcada pela violência contra a mulher, também influenciou sua formação.
Em casa, seu pai cinéfilo teve influência em sua vida como amante da sétima arte. Ela brinca que eles viviam todos os tipos de filmes juntos, “inclusive os que hoje seriam considerados inapropriados” para sua idade na época, maso ato de ter contato com várias histórias fez ela se apaixonar pelo cinema.
Já sua mãe tinha o hábito de denunciar injustiças sociais e estimular nas filhas uma visão crítica sobre o mundo. Esse contexto que Eliza encontrou no cinema é uma forma de expressar suas próprias indignações. Mas ao mesmo tempo, ela revela que além de uma visão combativa, sua mãe também possuía um instinto de procurar beleza e esperança no dia a dia, sendo esse detalhe também presente até hoje em suas obras, como em “A Fabulosa Máquina do Tempo”.
“Esses fatos, como a realidade do ES e a forma como a minha mãe a tratava, marcaram o meu olhar como pessoa e, logo, o meu olhar como documentarista de não aceitar as injustiças do mundo”.
Sinto que os filmes que faço são denúncias de injustiças, mas também partem de um olhar de luz, de algo que está em transformação
Eliza Capai Diretora e cineasta
Do ES, para o mundo, para o Brasil de volta

Eliza Capai
Sobre “A Fabulosa Máquina do Tempo” ter sido um dos seis selecionados para talvez representar o Brasil no Oscar, ela conta que ficou extremamente feliz e surpresa com a notícia. Mesmo amando seu filme, diz que pela raridade de documentários serem selecionados para a categoria de “Filme Internacional”, não tinha expectativas de isso acontecer.
Ela espera que, por estar entre os pré-selecionados, o longa gere o debate sobre como a indústria cinematográfica nacional é descredibilizada em geral por brasileiros. ” Depois de uma sessão em um festival em Berlim, conversamos com crianças em uma escola. Quando perguntei quem queria viajar para o passado ou para o futuro, um dos meninos disse que queria ir para o futuro ‘porque queria ter logo 18 anos para poder viajar e conhecer o Brasil’. O filme produziu no imaginário daquele menino o desejo de conhecer o nosso país. É isso que o cinema faz”.
Após essa experiência no exterior, Eliza comentou que, em sua visão, o processo de colonização e a influência europeia e americana em nossa cultura fizeram com que as pessoas em geral criassem um preconceito contra a própria cultura — incluindo a nossa arte —, o que, em suas palavras, ‘minou nossa autoestima'”.
Ela conta que espera que, mesmo com o sucesso em festivais internacionais (como Berlim, Xangai e Guadalajara), o sucesso no exterior não seja o único fator para um brasileiro apreciar um filme nacional, mas sim a possibilidade dele conhecer algo novo.
“O cinema nos faz olhar para os lugares com muita curiosidade. E nós, brasileiros, temos uma enorme diversidade no cinema nacional, que nos permite ver tantos lugares, personagens e histórias. Essa arte nos faz ter mais carinho e respeito pela nossa própria cultura”, finaliza.
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Fonte: A Gazeta