Organopônicos e cooperativas: Cuba aposta na agroecologia para produzir alimentos em meio ao bloqueio

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Por Rodrigo ChagasBrasil de Fato

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Em meio à área urbana de Havana, canteiros de alface, acelga, pimentão, quiabo, vagem e plantas medicinais ajudam a contar uma história que Cuba desenvolve há décadas. São os organopônicos, áreas de cultivo intensivo em canteiros abastecidos com substratos ricos em matéria orgânica, uma das principais expressões da agricultura urbana cubana.

No organopônico da cooperativa 1º de Julio, visitado pelo  Bem Viver, programa do Brasil de Fato, a produção é diversificada e baseada no uso de matéria orgânica e no manejo ecológico de pragas. “Todos os anos tentamos aumentar um pouco a produção. Por quê? Pela aplicação da ciência e da técnica, mas com matéria orgânica”, explica Orlando Caballero, presidente da cooperativa.

A experiência faz parte do Programa Nacional de Agricultura Urbana, Suburbana e Familiar. No balanço de 2025, a iniciativa registrou 1,38 milhão de toneladas produzidas. Cuba contabiliza 1.305.344 quintais e parcelas familiares destinados à produção de alimentos. Entre as prioridades estabelecidas para 2026 estão ampliar a produção local de sementes, usar adubos orgânicos, biofertilizantes e avançar na certificação agroecológica.

Os números mostram a dimensão de uma política que ganhou força durante a profunda crise econômica dos anos 1990, mas cuja história começou antes.

A transformação da agricultura esteve entre as primeiras medidas tomadas depois da Revolução Cubana de 1959. Em 17 de maio daquele ano, Fidel Castro assinou a primeira Lei de Reforma Agrária. A norma limitou o tamanho das propriedades rurais, criou o Instituto Nacional de Reforma Agrária (Inra) e beneficiou mais de 100 mil famílias camponesas, segundo registros oficiais cubanos.

Uma segunda reforma, em 1963, reduziu novamente o limite para grandes propriedades privadas. A Associação Nacional de Agricultores Pequenos (Anap), que teria papel central nas décadas seguintes, foi criada em 1961.

A diversificação da agricultura e a ampliação da capacidade produtiva tornaram-se prioridade para Fidel, que defendia aproveitar o clima e o solo cubanos para produzir internamente todos os alimentos para os quais a ilha tinha condições favoráveis, mantendo o comércio para produtos menos adequados às condições locais.

A origem institucional do atual programa de agricultura urbana, no entanto, veio mais tarde e é atribuída a Raúl Castro. Em 27 de dezembro de 1987, quando era ministro das Forças Armadas, ele orientou a generalização dos organopônicos. O sistema foi organizado como programa nacional a partir de 1997.

A crise conhecida como Período Especial, após o desmonte da União Soviética e do bloco socialista europeu no início dos anos 1990, mudou a escala dessa experiência. Cuba perdeu parte importante de seus mercados e de seu acesso a combustíveis, fertilizantes, máquinas e outros insumos. Produzir mais perto dos centros urbanos, com menos recursos importados, passou a ser uma necessidade.

O Plano de Soberania Alimentar cubano registra que, também nos anos 1990, universidades e centros de pesquisa começaram a desenvolver de forma mais sistemática projetos agroecológicos junto aos produtores. O documento cita ainda a agricultura urbana e suburbana como parte da estratégia de autoabastecimento local defendida por Fidel.

“Se não tivéssemos esses grandes programas, esse mesmo programa de agricultura urbana, essas hortas escolares […] hoje não teríamos todas essas instalações, todas essas tecnologias, que já constituem uma ciência disseminada por todo o país”, afirma Elizabeth Peña, diretora do Programa Nacional de Agricultura Urbana, Suburbana e Familiar.

Em 2020, Cuba aprovou o Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional, conhecido como Plano SAN. O documento define soberania alimentar como a capacidade de produzir alimentos sustentavelmente e garantir à população uma alimentação suficiente, diversa e saudável, ao mesmo tempo em que se reduz a dependência de meios e insumos externos.

Na prática, isso envolve ampliar a agroecologia, diversificar a produção, melhorar a eficiência energética, desenvolver tecnologia própria e fortalecer cadeias locais. O plano também prevê uso de energias renováveis, produção local de insumos e uma relação mais direta entre ciência, inovação e prática agrícola.

Dois anos depois, essas diretrizes ganharam um marco legal com a Lei 148 de Soberania Alimentar e Segurança Alimentar e Nutricional, aprovada em 2022. A legislação estabelece o direito à alimentação saudável e organiza juridicamente a estratégia de sistemas alimentares locais.

Um dos objetivos é o autoabastecimento municipal. A referência estabelecida é ofertar localmente cerca de 14 quilos de produtos agrícolas por pessoa ao mês, considerando alimentos como raízes e tubérculos, hortaliças, grãos e frutas.

A transformação agroecológica cubana não se resume às hortas urbanas. Ela se desenvolveu por pelo menos três caminhos que se cruzam: a agricultura urbana, suburbana e familiar; o Movimento Agroecológico Camponês a Camponês, da Anap; e a integração entre produtores, universidades, centros de pesquisa e organizações sociais.

No Camponês a Camponês, agricultores que dominam uma prática compartilham experiências diretamente com outros produtores por meio de visitas às propriedades, demonstrações, experimentação e intercâmbio de conhecimentos. O Plano SAN registrava, em 2020, a participação de mais de 100 mil famílias no movimento. Pesquisadores que estudaram a experiência cubana apontam essa circulação horizontal do conhecimento como uma das razões para a rápida difusão de técnicas agroecológicas entre pequenos agricultores.

A ciência institucional também entra nessa rede. Projetos recentes estimulam a seleção e a certificação local de sementes de milho, sorgo e feijão, adaptadas às condições de cada território. Outros investem na produção cubana de biopesticidas e agentes de controle biológico, buscando diminuir o uso e a importação de agroquímicos.

Essa integração entre pesquisa e produção não elimina o conhecimento acumulado pelos camponeses. A lógica prevista pelo Plan SAN é justamente combinar centros científicos, universidades, extensão rural e experiência produtiva.

Um novo passo foi dado em setembro de 2025, com a publicação do Decreto 128 da Agroecologia, que estabelece critérios para classificar propriedades segundo o grau de transição agroecológica.

Pelo decreto, unidades que atendem entre 40% e 60% dos requisitos estão no início da transição; entre 61% e 80%, na transição agroecológica; acima de 80%, podem ser reconhecidas como agroecológicas, inclusive com possibilidade de certificação para exportação. As regras valem para cooperativas, propriedades rurais, organopônicos, hortas intensivas, parcelas e quintais.

Em janeiro de 2026, das 226.568 propriedades vinculadas à Anap, 147.329 haviam iniciado a transição agroecológica, mas apenas 3.692 possuíam certificado e selo correspondentes.

As cooperativas são outra peça fundamental do sistema agrícola cubano. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Cuba possui mais de 5 mil cooperativas agropecuárias responsáveis por cerca de 80% da produção de alimentos.

No município de Boyeros, na província de Havana, o Bem Viver acompanhou o trabalho de integrantes da Anap e de cooperativas que produzem e distribuem alimentos. Parte da produção é comercializada, mas também há destinação para instituições públicas e grupos sociais que recebem atendimento diferenciado.

Amarílis Iriarte Baez, da Anap, explica que as cooperativas organizam doações de acordo com as necessidades locais. “Todas as cooperativas de Cuba estão estabelecidas ações relacionadas às doações e ao atendimento diferenciado às mulheres grávidas, às crianças com problemas de saúde e, enfim, de acordo com a necessidade que exista naquele momento”, pontua.

Júlio César Aguilar, presidente da cooperativa Héroes de la Sierra Maestra, resume a lógica de outra forma: “Compartilhamos o que temos, não damos o que nos sobra”. Segundo ele, agricultores levam plátanos, mangas, hortaliças e verduras para que a cooperativa possa destinar parte dos alimentos às instituições.

O avanço dessas experiências ocorre, entretanto, num cenário extremo de dificuldades para a produção agrícola.

Há mais de seis décadas, Cuba está submetida a um conjunto de sanções econômicas, comerciais e financeiras impostas pelos Estados Unidos. O bloqueio dificulta transações bancárias, crédito, aquisição de tecnologia e importação de produtos e insumos.

Em julho de 2026, o governo cubano informou à Assembleia Geral das Nações Unidas que os prejuízos acumulados desde o início das sanções chegavam a US$ 178,7 bilhões, a preços correntes. Entre março de 2025 e fevereiro de 2026, as perdas foram estimadas em mais de US$ 8 bilhões, um recorde histórico.

Desde 2018, quando Donald Trump chega ao poder e recrudesce o bloqueio contra Cuba, a situação piora paulatinamente. Entre 2018 e 2023, segundo séries oficiais cubanas entregues à ONU, a produção de carne suína caiu 95%, a de arroz 87%, a de feijão 70% e a de leite 58%.

No campo, os produtores relatam as dificuldades crescentes para a produção. “Não temos nada e estamos produzindo. Aqui falta semente, aqui falta combustível, aqui falta que nos deixem respirar para que vejam do que os cubanos são capazes”, afirma Caballero.

Para agricultores ouvidos pela reportagem, a tarefa de produção de comida saudável também carrega um sentido político. Lázaro Calixto, camponês de 84 anos e combatente de Playa Girón, diz que “uma forma de defender a Revolução neste momento é produzir”.

O Bem Viver traz também a permacultura no Maranhão. Como uma comunidade de mulheres transforma saberes ancestrais em renda, autonomia e preservação ambiental.

A chef Gema Sotto ensina uma receita sustentável, criativa e deliciosa de Macarrão com Melão, aproveitando ao máximo os alimentos!

E o programa segue com a série especial sobre a revitalização rural na China. Conheça Leitun, vilarejo de 648 anos no condado de Jinping, em Guizhou, em que obras de irrigação e pavimentação de estradas aumentaram a produção de arroz em 20% e melhoraram o escoamento da colheita.

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Fonte: Brasil de Fato

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