Xi Jinping e Narendra Modi avançam na relação entre China e Índia durante cúpula do BRICS
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – O presidente da China, Xi Jinping, e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, realizaram neste sábado (12), em Nova Déli, uma reunião bilateral à margem da 18ª Cúpula do BRICS, em mais um movimento de aproximação entre as duas potências asiáticas após anos de tensão. O encontro marcou a primeira visita do líder chinês ao território indiano em sete anos e colocou no centro das conversas a relação bilateral, a situação na fronteira e a ampliação da cooperação econômica.
Os dois líderes defenderam uma visão de longo prazo para os laços entre China e Índia. Modi ressaltou a importância da estabilidade na fronteira, enquanto Xi enfatizou a necessidade de tratar a relação bilateral sob uma perspectiva estratégica e duradoura.
A reunião ocorreu em meio a um processo gradual de normalização das relações. Pequim e Nova Délhi atravessaram anos de atritos depois dos confrontos militares registrados em 2020 na Linha de Controle Real, que separa áreas disputadas no Himalaia.
O presidente da China, Xi Jinping, pediu que o BRICS atue como uma força de pacificação no conflito do Oriente Médio, em discurso durante a cúpula do bloco realizada neste sábado, em Nova Délhi.
Segundo a emissora estatal chinesa CCTV, Xi afirmou que a China trabalhará com os demais países do BRICS nessa direção, já que a guerra “não atende aos interesses comuns da comunidade internacional”.
Os dois governos retomaram mecanismos de diálogo diplomático e militar e avançaram em medidas destinadas a reduzir a tensão em pontos da fronteira.
No encontro deste sábado, Modi voltou a colocar a estabilidade na região fronteiriça como condição para o avanço das relações. Os dois lados também concordaram que divergências não devem se transformar em disputas e indicaram disposição para buscar uma solução considerada aceitável por ambos para as questões territoriais pendentes.
Importância do BRICS
O BRICS reúne 11 grandes mercados emergentes e países em desenvolvimento do mundo: Brasil, China, Egito, Etiópia, Índia, Indonésia, Irã, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul e Emirados Árabes Unidos. O grupo representa cerca de 49,5% da população global, 40% do Produto Interno Bruto, também em nível internacional, e 26% do comércio mundial.
Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã ingressaram no BRICS como países parceiros em 2025. O grupo foi formalizado em 2006.
Presidência indiana
A presidência indiana do BRICS é orientada pelo tema “Construindo resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”, que reflete uma abordagem centrada nas pessoas e na humanidade, apresentada pelo primeiro-ministro da Índia na Cúpula do Rio de 2025.
Sob essa formulação, a Índia procura projetar uma presidência voltada à cooperação entre os países do Sul Global, à inovação, ao fortalecimento da resiliência econômica e institucional e à construção de mecanismos de desenvolvimento capazes de responder aos desafios de um mundo em transformação.
Primeira visita de Xi à Índia desde 2019
A presença de Xi Jinping em Nova Délhi carrega peso diplomático adicional porque representa sua primeira viagem à Índia desde 2019.
Os dois dirigentes já haviam mantido encontros nos últimos anos em outros fóruns internacionais, incluindo Kazan, na Rússia, mas a visita ao território indiano simboliza uma nova etapa no esforço de reconstrução dos canais políticos entre Pequim e Nova Délhi.
A reunião deste sábado durou mais de 50 minutos, segundo a imprensa indiana. Modi afirmou que o encontro oferecia uma oportunidade para discutir novas áreas de cooperação, enquanto Xi reiterou a necessidade de manter uma perspectiva de longo prazo para a relação entre os dois países.
BRICS oferece espaço para coordenação entre as duas potências
A conversa bilateral ocorreu dentro de uma cúpula na qual o Brics voltou a defender reformas na governança internacional e maior representação das economias emergentes.
A Declaração de Nova Déli reafirmou o compromisso do grupo com uma ordem internacional mais representativa, com maior participação dos países em desenvolvimento, além do fortalecimento da cooperação política, financeira e econômica entre os membros.
China e Índia compartilham interesse na ampliação do peso do Sul Global nas instituições internacionais, mas mantêm diferenças em várias áreas de política externa, comércio e segurança.
A Índia preserva relações estreitas com Estados Unidos, Rússia e outros parceiros, enquanto busca autonomia estratégica. A China, por sua vez, apresenta a multipolaridade e a reforma das instituições internacionais como componentes centrais de sua política externa.
A própria cúpula mostra essas diferenças. O BRICS reúne países com agendas distintas, mas tenta consolidar posições comuns em temas como comércio, sistemas financeiros, governança global e sanções unilaterais.
Reaproximação ainda depende da questão fronteiriça
Apesar dos avanços diplomáticos, a fronteira permanece como um dos pontos mais sensíveis da relação entre China e Índia.
Nos últimos dois anos, negociações militares e diplomáticas permitiram reduzir a presença de tropas em áreas específicas e reconstruir parte dos mecanismos de diálogo. O encontro entre Xi e Modi reforça esse processo, mas não elimina as divergências territoriais que continuam na agenda bilateral.
Ao receber Xi durante a cúpula do Brics, Modi sinalizou que Nova Déli pretende combinar a defesa de seus interesses de segurança com uma retomada mais ampla da relação econômica. Pequim, por sua vez, busca estabilizar os vínculos com a Índia e evitar que as disputas bilaterais impeçam a cooperação entre duas das maiores economias da Ásia.
O resultado da reunião reforça uma tendência iniciada nos encontros anteriores entre Xi Jinping e Narendra Modi: administrar as divergências sem interromper os canais de diálogo e ampliar gradualmente os espaços de cooperação em comércio, conectividade e fóruns multilaterais.
Fonte: Brasil 247