Operação da PF contra deputado bolsonarista em Roraima descobre esquema para compra de votos
Por Laís Gouveia — Brasil 247
247 – A Polícia Federal prendeu em flagrante e indiciou 22 pessoas em Boa Vista, em Roraima, durante uma operação que apura um esquema de compra de votos na véspera das eleições. Segundo a investigação, eleitores recebiam R$ 400 em espécie em troca do apoio a Daniel Trindade (PL), candidato a deputado federal, e Márcio Agra Belota (PL), o Marcinho Belota, deputado estadual que disputa a reeleição.
As informações foram publicadas por O Globo neste sábado (3). De acordo com a reportagem, a ação começou após uma denúncia anônima enviada ao Disque-Denúncia Eleitoral indicar que imóveis na capital roraimense estariam sendo utilizados para cadastrar e pagar eleitores cooptados para o esquema.
A apuração da PF identificou dois endereços no bairro Calungá que teriam funções distintas na operação. Em uma das casas, na Rua David Cruz, os dados dos eleitores eram conferidos com base em listas impressas e planilhas digitais.
Depois da verificação, os eleitores eram encaminhados a outro imóvel, na Rua Maria de Lourdes, onde, segundo os investigadores, recebiam o dinheiro.
A Polícia Federal aponta que os responsáveis adotavam medidas para dificultar registros do pagamento. Os celulares dos eleitores eram recolhidos antes da entrada no imóvel onde ocorria a entrega dos valores, em uma tentativa de impedir fotografias, filmagens ou gravações.
Cada eleitor receberia R$ 400, distribuídos em quatro notas de R$ 100. Segundo os documentos da investigação citados pela reportagem, duas cédulas estariam vinculadas ao voto em Daniel Trindade para deputado federal e outras duas ao apoio a Marcinho Belota para deputado estadual.
A PF sustenta que a conduta investigada pode configurar corrupção eleitoral. O artigo 299 do Código Eleitoral criminaliza a oferta, promessa ou entrega de dinheiro ou qualquer vantagem com a finalidade de obter voto ou abstenção.
Entre as pessoas detidas está Thyago de Souza Franco, apontado pela investigação como ligado à campanha de Daniel Trindade. Segundo O Globo, ele declarou à PF ter recebido cerca de R$ 19 mil em dinheiro no comitê eleitoral do candidato.
De acordo com o depoimento relatado nos autos, Franco afirmou ter separado e distribuído aproximadamente R$ 12 mil a pelo menos 30 eleitores no endereço acompanhado pelos agentes federais.
Outro investigado é Arthur Henrik Flessak Gomes, servidor comissionado da Prefeitura de Boa Vista e apontado como vinculado ao gabinete de Marcinho Belota. Segundo a apuração, ele teria participado do transporte do dinheiro em uma Fiat Strada branca.
Vanessa da Silva Soares, também detida, foi identificada pelos investigadores como responsável pela formação das listas e pela administração de grupos de WhatsApp utilizados para organizar a movimentação dos eleitores entre os dois imóveis.
A autoridade policial fixou fiança de R$ 4 mil para Thyago de Souza Franco e Arthur Henrik Flessak Gomes. Vanessa da Silva Soares teve a exigência dispensada após comprovar falta de condições financeiras para efetuar o pagamento.
Com base nos elementos obtidos durante o flagrante, a Justiça Eleitoral também expediu mandados de busca e apreensão contra Marcinho Belota. As diligências incluíram o endereço residencial do deputado estadual, localizado no bairro Cidade Satélite.
Ao todo, a Polícia Federal indiciou 22 pessoas pelos crimes de corrupção eleitoral e associação criminosa. O grupo inclui três pessoas apontadas como operadores do esquema e 19 eleitores que teriam sido flagrados recebendo os valores.
A Justiça concedeu liberdade provisória aos eleitores autuados e dispensou o pagamento de fiança, considerando a situação socioeconômica dos envolvidos.
Marcinho Belota não foi preso. Segundo a reportagem, o parlamentar foi alvo de mandado de busca e apreensão solicitado pela PF à Justiça Eleitoral.
A investigação continua para identificar a origem do dinheiro utilizado nos pagamentos e verificar se outros candidatos ou integrantes da política local tiveram participação ou foram beneficiados pela estrutura.
Daniel Trindade já havia sido alvo de outra ação da Polícia Federal em 25 de setembro. Segundo O Globo, ele foi preso em flagrante durante a Operação Cunhambebe, investigação relacionada à suposta criação de uma milícia privada clandestina em terras indígenas. Na ocasião, os agentes também encontraram documentos que, segundo a PF, apresentavam indícios de compra de votos.
A Polícia Federal ainda deverá aprofundar a análise do material apreendido para tentar estabelecer a origem dos recursos, a cadeia de comando do esquema e o eventual envolvimento direto dos candidatos citados na investigação.
Fonte: Brasil 247