ONU avaliará acordo de paz na Colômbia em meio a cortes e assassinatos
Por José Reinaldo — Brasil 247
247 – A Organização das Nações Unidas (ONU) apresentará ao Conselho de Segurança, em 12 de outubro, um relatório sobre a implementação do Acordo de Paz na Colômbia, em meio a denúncias de cortes orçamentários em instituições responsáveis pela justiça de transição e pela reintegração de ex-guerrilheiros. Segundo a agência Prensa Latina, a apresentação ocorrerá também diante de novos registros de assassinatos de signatários do tratado.
O representante especial do secretário-geral da ONU, Miroslav Jenča, apresentará o documento em Nova York. De acordo com a Prensa Latina, a análise abrangerá o período final do governo de Gustavo Petro e o início da administração de Abelardo de la Espriella, que assumiu a Presidência em 7 de agosto. O novo governo desmantelou os processos de paz iniciados pela gestão anterior.
Uma das principais preocupações envolve o financiamento da Jurisdição Especial para a Paz (JEP), tribunal de justiça de transição criado após a assinatura do acordo. A instituição acusa o Executivo de promover seu enfraquecimento por meio de um “desmantelamento financeiro”.
A proposta de orçamento para 2027 prevê uma redução superior a 20% nos recursos destinados às despesas de funcionamento e aos investimentos do tribunal. A restrição financeira se soma às dificuldades enfrentadas por outras entidades que executam compromissos do acordo.
A Agência para a Reintegração e Normalização, responsável por acompanhar o retorno à vida civil de pessoas que depuseram as armas, poderá sofrer um corte entre 30% e 40% no próximo ano, conforme os dados apresentados pela Prensa Latina.
A Unidade de Busca de Pessoas Desaparecidas também denunciou a previsão de redução de suas verbas. A entidade alertou que a medida poderá comprometer investigações, intervenções forenses e o trabalho dos laboratórios de identificação.
Os efeitos, segundo a unidade, também alcançariam a presença das equipes nos territórios, a participação dos familiares e a infraestrutura e a tecnologia necessárias para localizar e identificar desaparecidos.
A segurança dos ex-guerrilheiros que aderiram ao acordo é outro ponto de preocupação. Uma análise do Sistema Autônomo de Assessoria e Defesa (SAAD) registrou cinco assassinatos de signatários somente em agosto, número igual ao contabilizado entre janeiro e junho.
No intervalo de 7 de agosto a 7 de setembro de 2026, correspondente ao primeiro mês da nova administração, foram registrados seis assassinatos de signatários. Os dois recortes têm períodos parcialmente coincidentes e não devem ser somados.
A implementação da reforma agrária também enfrenta mudanças. O ministro da Agricultura, Indalecio Dangond, informou ao Congresso que o governo deixará de utilizar a compra direta de propriedades privadas como principal instrumento para a distribuição de terras.
O mecanismo havia sido impulsionado pela gestão Petro. Sua substituição ocorre enquanto a proposta de Orçamento Geral da Nação para 2027 prevê uma redução de 32% nos recursos destinados ao Ministério da Agricultura.
Segundo a reportagem, essas medidas podem dificultar o cumprimento do primeiro ponto do Acordo de Paz, que estabelece uma transformação estrutural do campo para reduzir desigualdades. A apresentação à ONU ocorrerá, assim, em um cenário de restrições financeiras, mudanças na política agrária e ameaças à segurança de pessoas que abandonaram a luta armada.
Fonte: Brasil 247