Por Moisés Mendes — Brasil 247

Um estagiário do marketing do PL não teria dificuldades para selecionar os piores momentos de Flávio Bolsonaro na entrevista a Renata Lo Prete, no Jornal Nacional. Dos 40 minutos, 80% têm os piores momentos, mesmo que, sob o ponto de vista da extrema direita, possam ter sido lacradores e bons para cortes.

O estagiário apresentaria o levantamento aos líderes do bolsonarismo e eles diriam o seguinte: esses não são os piores, mas os melhores momentos. E assim teríamos, dentro do próprio PL, alguns incrédulos achando que a entrevista foi um desastre, e os chefões comemorando o que teria sido um sucesso. Como Tarcísio de Freitas comemorou.

Mas a velha direita, a direita comida pela jiboia do bolsonarismo este ano, mas que continua com a cabeça de fora, essa direita antiga, que abarca todo o centrão, sabe que a entrevista foi desastrosa. Flávio vai divulgar os cortes na propaganda, os tios do zap já estão disseminando suas lacrações, mas no conjunto a conversa foi precária.

O pessoal do não-é-bem-assim vai dizer que uma entrevista nunca é metabolizada pelo eleitor médio, que decide só dar uma espiada, e que ideias, encadeamentos, argumentação e coerência não contam numa hora dessas. É o que mais se repete: uma entrevista não vale quase nada hoje, quando os votos estão quase decididos.

Dito de outra forma, não serão as virtudes, os dribles e as barbeiragens de Flávio e Lula, nesse tipo de programa na TV, que irão provocar alterações substanciais nas preferências eleitorais, e logo agora a uma semana da eleição.

O problema é que o corte que favorece Flávio, que falava olhando para a câmera (para o eleitor) e não para a entrevistadora, também pode ser um corte contra ele. E o corte mais devastador é o que circula desde a noite de sexta-feira, sobre a história do “detalhezinho” da identificação das munições que vão parar nas mãos dos bandidos.

Renata Lo Prete fez a pergunta que, pelo que sei, nunca ninguém havia feito daquela forma a Flávio Bolsonaro. Por que o senhor apoiou um projeto de lei que retira de munições usadas pelas forças de segurança as identificações que as definem como equipamentos de Estado, de instituições do governo?

O projeto é criação de Jair Bolsonaro, com aval de Flávio, e está numa gaveta do Senado desde 2019. Não avança por ser absurdo demais até para parte da direita ainda com escrúpulos. Flávio Bolsonaro apadrinhou e ajudou a radicalizar a ideia do pai no Senado.

Jair Bolsonaro queria impedir ou dificultar controles de armas. Um grupo da extrema direita foi adiante na Câmara e decidiu revogar integralmente o artigo 23 do Estatuto do Desarmamento. Seriam eliminadas as marcas identificadoras das munições, para que cápsulas de balas usadas por forças de segurança, que caem nas mãos dos bandidos, não pudessem mais ser rastreadas.

O que mais eles queriam? Tornar impossível o rastreamento de munições usadas em chacinas, com ou sem participação de policiais? Permitir que ‘colecionadores’ de armas e clubes de tiro usassem essas munições sem controle? Facilitar a vida do crime organizado e de milicianos?

Flávio não respondeu por que apoiou o projeto e se referiu à proposta sobre a eliminação da identificação dos cartuchos como “detalhezinho”. O que isso pode interferir na decisão de quem ainda vacila sobre sua escolha no segundo turno? Se as entrevistas e o debate deste domingo na Bandeirantes não interferem, qual seria o sentido desses embates?

Se uma entrevista desastrada não interfere em nada, mesmo que reafirme a cumplicidade do sujeito com quem usa munição das polícias. Se um debate em que ele pode ser massacrado por Lula não tem o poder de mudar voto. E se a uma semana da eleição as coisas continuarão imutáveis, as entrevistas e o debate seriam inúteis num jogo jogado.

Não teria efeito algum nem o fato de que, pela primeira vez no jornalismo brasileiro, uma entrevistadora alertou um candidato a presidente da República de que ele deveria parar de argumentar a partir de fatos não comprovados, ou seja, não com base em ilações, mas em fake news.

As mentiras e a história dos cartuchos sem marcação expuseram a farsa do discurso do sujeito de que seu governo vai caçar bandidos e enquadrar o crime organizado como estrutura terrorista. Mas não os que usam balas sem marcação.

O estagiário do PL, os chefes do partido, os marqueteiros e Flávio Bolsonaro podem fazer as contas do que ganharam e do que podem perder com os cortes das lacrações produzidas na entrevista. Não ganharão sempre.

E precisam se preparar para o duelo que vai acontecer na Bandeirantes no domingo, agora com Lula, e não com Renata Lo Prete. O terrivelmente despreparado Flávio Bolsonaro vai para um tiroteio que nunca enfrentou.

Fonte: Brasil 247

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