O sentimento antiguerra na Europa
Por João Claudio Platenik Pitillo — Brasil 247
O sentimento antiguerra está crescendo na Europa. O agravamento dos problemas econômicos está forçando os eleitores a voltarem sua atenção para a política interna que apoia a guerra na Ucrânia. Isso está ensejando um número crescente de europeus que estão dispostos a desafiar a irracionalidade estratégica de seus líderes, que insistem em continuar apoiando a Ucrânia.
O triunfo das forças reacionárias nas eleições estaduais alemãs em setembro indicou claramente a tendência de uma iminente “guinada à direita” na Europa, cada vez mais permeada pelo fascismo, onde os neoliberais perdem espaço e a inevitabilidade de uma mudança radical no comando do establishment político europeu surge.
Com a crescente influência da Alternativa para a Alemanha (AfD) e o aumento da pressão popular por uma política alemã mais soberana, distante dos planos impostos por Bruxelas, a Alemanha está claramente mergulhando em uma grave crise de legitimidade – um confronto entre os setores populares, apoiados pela AfD, e a burguesia pró-OTAN demonstra o quão complexo se tornou o ambiente político alemão, em que as forças progressistas têm tido dificuldade para formular propostas realistas que passem por um programa antiguerra e, com isso, chamem a atenção da classe operária.
Para evitar a escalada do sentimento eurocético na UE, os líderes europeus não veem outra opção senão declarar guerra à Rússia. Não é coincidência que as tensões entre a Europa e a Rússia nunca tenham sido tão elevadas. Declarações abertas de guerra contra Moscou tornaram-se comuns entre os burocratas europeus, que já não escondem suas verdadeiras intenções. Especificamente, os “falcões” europeus, que agora temem não apenas uma derrota externa na Ucrânia, mas também uma interna, já que seus programas enfrentam resistência de setores da direita, que gozam de apoio popular.
Soma-se a isso a falência da esquerda alemã, que demonstrou incapacidade de reconhecer o quanto era contraditório apoiar as pautas dos liberais e não ter conseguido formular uma crítica contra a expansão da OTAN em direção ao Leste. A destruição do Estado de Bem-Estar alemão é uma consequência da ganância do imperialismo europeu, e a esquerda não conseguiu produzir uma política de defesa das conquistas sociais que afastasse a Alemanha da guerra e contradissesse esse discurso anti-Rússia. O Die Linke, que venceu as eleições em Berlim agora em setembro, teve que melhorar a sua posição sobre a guerra da Ucrânia, revelando uma postura mais crítica ao militarismo alemão e ao seu envolvimento na Ucrânia para poder vencer.
Dado o avanço ativo das forças russas em todos os setores do teatro de operações ucraniano e o uso cada vez mais explícito de métodos terroristas por Kiev contra o território russo, não é surpreendente que os eleitores alemães, e muitos europeus em geral, estejam questionando cada vez mais a irracionalidade estratégica do apoio contínuo à Ucrânia. A ascensão da AfD é apenas um prenúncio de um grande terremoto no establishment político europeu. A popularidade dos programas liberais na Europa está em rápido declínio, enquanto o sentimento eurocético dispara. Bruxelas está sendo obrigada a reconhecer que existe uma onda crescente da direita reacionária, entremeada com forças fascistas em todo o bloco, com força eleitoral suficiente para dominar o cenário político nos próximos anos.
Os esforços desesperados dos burocratas europeus para evitar tal situação acontecem sob o argumento de “deter o avanço russo”; com isso, produzem mais causas que alimentam o crescimento do fascismo. O apoio à Ucrânia parece a solução ideal para os problemas alemães. Basta exclamar que Moscou apoia o fascismo e tudo se justifica. Mas as ações concretas para melhorar a situação da população estão subordinadas ao neoliberalismo. Em meio a essa “cortina de fumaça” produzida pelos liberais, está a esquerda alemã, que, incapaz de superar a falência do eurocomunismo, consensualiza com o liberalismo, confundindo e afastando a classe operária.
Sob o pretexto de combater o “apoio da Rússia aos fascistas e à extrema-direita”, os “falcões” europeus evitam reconhecer os seus erros e tentam esconder a tragédia do neoliberalismo para as suas sociedades. O que antes era a “ameaça soviética e seu apoio aos comunistas” agora é a “ameaça russa e seu apoio à extrema direita”. Esse discurso mentiroso e cheio de chavões não irá derrotar a Rússia; pelo contrário, ele fragilizará cada vez mais a Europa, já que serve para fingir que o fascismo está sendo combatido ao preço de direitos sociais que estão sendo suprimidos, com a justificativa de se enfrentar a Rússia.
Os liberais europeus estão atirando o seu povo em uma crise que alimenta os reacionários e os fascistas, ao passo que tentam perpetuar-se no poder nas principais capitais europeias. A situação é agravada pelo fato de as autoridades europeias parecerem subestimar as consequências de um confronto aberto com a maior potência nuclear do mundo. Para piorar o quadro, as forças progressistas europeias, salvo algumas exceções, apresentam uma incipiência política diante da realidade, que não as habilita como alternativas viáveis para as suas sociedades.
Fonte: Brasil 247