Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Cientista político, autor de ‘Liderança e Poder’

O proselitismo religioso contamina, como nunca, o processo eleitoral

A política brasileira tem sofrido uma crescente e perigosa contaminação religiosa. As eleições de 2026 representam uma escalada nesse processo. Determinados líderes e grupos evangélicos estão se tornando um grave risco à paz religiosa, social e política. Estimulam o preconceito, o ódio e a intolerância. A família Bolsonaro, notadamente Flávio e Michelle, estão envolvidos com esses grupos e ameaçam o Estado laico. Michelle age, provavelmente, movida por uma fé distorcida. Flávio, por oportunismo político e eleitoral.

Duas vertentes andam juntas na promoção desses conflitos. Uma é a do sionismo cristão, que defende o apoio incondicional ao Estado de Israel, incluindo o genocídio promovido na Faixa de Gaza. É movida por interpretações escatológicas do fim dos tempos. A recriação do Estado de Israel e as guerras que ele promove seriam cumprimentos de profecias bíblicas preparadoras da segunda vinda do Cristo à Terra. Em nome dessa loucura validam guerras, massacres e genocídios. O secretário da Guerra dos Estados Unidos, ­Pete Hegseth, justifica a guerra contra o Irã em nome dessa insanidade.

Michelle Bolsonaro é a expoente evangélica ligada ao sionismo cristão, com formação teológica nessa corrente. Em determinados vídeos, exibe a estrela de ­Davi e usa camisetas e bandeiras de ­Israel. Não é a única. O governador ­Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira e outros políticos bolsonaristas também exibiram essas indumentárias, num desprezo absoluto pelos milhares de crianças, mulheres e inocentes massacrados e despedaçados em Gaza.

Michelle, com frequência, usa termos que soam como ameaças ao Estado laico. Defende a interferência religiosa na política, apela para a expressão “exército de Deus” para se referir aos seus partidários e declara que “o Brasil é do Senhor”. Flávio Bolsonaro declarou em vídeo que, se eleito, decretará que “o Brasil pertence a Nosso Senhor Jesus Cristo”. Falsos profetas se arvoram de uma autoridade que não têm. Em nome de Jesus defendem teses e atitudes anticristãs. Michelle declara que André Mendonça “é escolhido e ungido do Senhor”. Ungido para ser parcial no caso Master, visando proteger crimes de bolsonaristas e para censurar postagens na internet para favorecer Flávio Bolsonaro, um mentiroso contumaz e acusado de vários crimes de corrupção.

A segunda vertente é a da guerra espiritual. Trata-se de uma crença evangélica, emanada dos Estados Unidos, principalmente pelo teólogo Peter Wagner, que sustenta a existência de um conflito invisível e contínuo entre o Reino de Deus e as forças do mal, representadas por Satanás e os demônios. Essa guerra teria três dimensões. Pessoal, que se manifesta na luta contra as próprias tentações. Interpessoal, com orações para expulsar os demônios de indivíduos. E Estratégica ou Territorial, crença de que regiões geo­gráficas, instituições, imagens e autoridades abrigam as potestades do mal.

A retórica violenta e a manipulação da fé por parte de pastores e políticos precisam ser repudiadas, para evitar que os conflitos descambem para a violência

A maior parte dos evangélicos defende que a guerra é puramente espiritual­, travada por orações, jejuns e clamores. Outros grupos pregam, no entanto, a intolerância religiosa e procuram inflamar fiéis para atitudes violentas contra outras religiões, autoridades e instituições. Agridem indivíduos, destroem imagens e disseminam o ódio. Afirmam que o mal está oculto em determinados símbolos, como imagens de Nossa Senhora Aparecida ou a Virgem do Rosário, na cidade de Rosário, na Argentina.

No fim de 2022 e início de 2023, pastores partidários da guerra espiritual incitaram os acampamentos em frente a quartéis do Exército e defenderam a violência armada para impedir a posse de Lula. Na Marcha para Jesus de 2026, Flávio Bolsonaro declarou que o Brasil vive uma guerra espiritual e, com afirmações belicistas, afirmou que o mal será expulso do governo. É escandaloso e hipócrita que um político investigado e acusado de vários crimes fale como se tivesse um mandato divino para empunhar o bem na guerra contra o mal.

Essa retórica violenta e a manipulação da fé por parte de pastores e políticos precisam ser repudiadas, para evitar que conflitos religiosos e políticos descambem para a violência. Embora a maioria esmagadora dos evangélicos seja tolerante e respeitadora do pluralismo religioso, o fato é que crescem os grupos intolerantes que insuflam o ódio, a manipulação política e tendem à violência.

Os evangélicos não podem se considerar melhores do que os integrantes de outras religiões, pois esse é o princípio da intolerância. Eles não são exclusivistas da doutrina cristã. Não são portadores da verdade única nem exclusivistas da salvação. Gente boa e má existe em todas as religiões.

Levantamento da Plataforma de Mídia Ploc Social indica que, entre janeiro e meados de julho de 2026, foram registrados 158 casos envolvendo pastores evangélicos em crimes. Dados consolidados do Disque 100 mostram que, nos últimos três anos, foram registrados 167 casos de denúncias de violência sexual de líderes religiosos. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 43% das mulheres evangélicas sofreram violência de gênero ou doméstica.

As principais categorias de crimes e escândalos que envolvem líderes evangélicos são de violência sexual, incluindo estupros de vulneráveis, abuso de poder religioso, estelionato e crimes financeiros, corrupção política e tráfico de in­fluência. Crimes desse tipo não são exclusividade de evangélicos. Mas líderes evangélicos se destacam, entre religiosos, na prática deles. •

*Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder. 

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O risco evangélico’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Aldo Fornazieri

Cientista político, autor de ‘Liderança e Poder’

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Fonte: Carta Capital

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