O que está em jogo nesta eleição: crime organizado, política e os limites do poder, por Carlos Fidelis Ponte

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Por Redação — GGN

do Cebes

O que está em jogo nesta eleição: crime organizado, política e os limites do poder

por Carlos Fidelis Ponte*

Precisamos decidir o que queremos para o país e como escolher. Podemos votar movidos por paixões, preconceitos e informações que confirmam o que já acreditamos. Ou adotar racionalidade e sobriedade, examinando fatos, trajetórias, relações e compromissos públicos para avaliar a confiança que podemos depositar em quem pretende governar.

Não se trata de transformar relações e suspeitas em culpa, mas de conhecer quem pretende governar e compreender que concepção de Estado e de poder emerge de sua trajetória. Quando política, dinheiro, violência e crime se encontram, os fatos devem ser examinados sem blindagem e sem converter suspeitas em condenações.

Adriano da Nóbrega recebeu homenagem solicitada por Flávio Bolsonaro e teve familiares empregados em seu gabinete. Depois, foi apontado como liderança da milícia de Rio das Pedras. Em 2007, Flávio afirmou que não se poderia “estigmatizar as milícias” e chamou a atuação de policiais nesses grupos de “novo tipo de policiamento”. Anos depois, disse que se referia à atuação legítima de policiais, não à exploração criminosa das comunidades.

Rio das Pedras mostra que milícias não se resumem à violência armada: controlam território, imóveis e serviços. Fabrício Queiroz, antigo assessor de Flávio, era próximo de Adriano. O Ministério Público sustentou que contas controladas pelo miliciano teriam sido usadas nas “rachadinhas”; as provas foram afetadas por decisões judiciais, e Flávio não foi condenado.

O caso Marielle Franco revelou outras dimensões desse universo. Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz foram condenados pela execução; os irmãos Brazão foram apontados como mandantes, e Rivaldo Barbosa, então chefe da Polícia Civil, foi acusado de proteger os responsáveis e dificultar as investigações. Robson Calixto Fonseca, o Peixe, condenado por integrar a organização criminosa armada dos Brazão, manteve interlocução com o gabinete de Flávio e obteve quase R$ 200 mil em emenda para um projeto social. Isso não demonstra participação de Flávio nos crimes atribuídos ao grupo, mas constitui relação documentada.

Na operação que prendeu Lessa foram encontrados componentes que permitiriam montar 117 fuzis. Investigar o crime organizado exige, portanto, alcançar armas, executores, intermediários, possíveis mandantes e mecanismos de proteção no Estado. Mas será que isso basta? Até onde o crime organizado pode chegar?

DO PODER DAS ARMAS AO PODER DO DINHEIRO

O crime pode ultrapassar o domínio armado do território e penetrar a economia formal e o sistema financeiro. Nesse estágio, seguir o dinheiro torna-se tão importante quanto seguir as armas.

A Refit, de Ricardo Magro, acumulou, segundo o MPRJ, dívida tributária de R$ 25,7 bilhões e teve a falência decretada. A PF investiga a empresa e Cláudio Castro por suspeitas de sonegação, lavagem e favorecimento; ele nega. Na gestão Castro, aliado de Flávio, o Rioprevidência investiu, segundo a PF, R$ 3,691 bilhões no Banco Master.

No Distrito Federal, governado por outro aliado de Flávio, o BRB tentou adquirir o Master. O Banco Central rejeitou a operação, mas o banco público já mantinha exposição bilionária ao conglomerado. Em 2021, o BRB financiou R$ 3,1 milhões para Flávio comprar uma mansão em Brasília avaliada em cerca de R$ 6 milhões. O empréstimo, quitado antecipadamente, não prova irregularidade, mas integra o conjunto de relações que merece ser conhecido.

Há ainda o INSS. A Bravo Grafeno, da qual Flávio é sócio, aparece no mesmo endereço usado por empresas ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. A Voga Serviços Contábeis, ligada à contabilidade do escritório de Flávio, também aparece relacionada a empresas de Antunes. Isso não demonstra participação nas fraudes, mas requer esclarecimento.

A Carbono Oculto acrescenta outra dimensão: fundos, holdings, fintechs e instituições financeiras são investigados por possível utilização em esquemas de lavagem ligados ao setor de combustíveis. O crime organizado não opera apenas com armas e território. Pode operar também por empresas, crédito, fundos e bilhões de reais.

E as duas dimensões podem se encontrar. Em agosto de 2026, a Primeira Turma do STF tornou réus Rodrigo Bacellar, TH Joias e outros acusados de obstruir investigação sobre tráfico de armas e drogas e lavagem de dinheiro ligados ao Comando Vermelho. Segundo a acusação, Bacellar teria repassado informações sigilosas a TH Joias, apontado como operador de lavagem e braço político da facção. Ambos estão presos. Integravam o mesmo campo político de Flávio Bolsonaro. Renan Santos, adversário de Flávio situado à direita, afirmou publicamente que o senador apoiava os dois.

No fundo, trata-se dos limites do poder. Quando organizações criminosas controlam territórios, armas circulam sem rastreabilidade, dinheiro atravessa empresas e instituições financeiras e relações políticas abrem portas no Estado, o problema deixa de ser apenas policial. Torna-se econômico, político e institucional.

Por isso, cada relação deve ser examinada por suas provas, sem culpa nem blindagem por associação. Enfrentar o crime organizado exige instituições independentes, rastreamento financeiro, transparência e investigações sem proteção política.

A deterioração das instituições não ocorre isoladamente: há também a saúde da própria sociedade. Uma democracia submetida à desorientação permanente, à produção industrial de mentiras e à circulação seletiva de informações adoece politicamente. As plataformas digitais segmentam públicos, reforçam bolhas e favorecem ambientes em que preconceitos, ressentimentos, medos e rancores podem ser cultivados e transformados em instrumentos de mobilização. Quando o ódio ocupa o lugar do debate, adversários passam a ser tratados como inimigos, fatos cedem espaço a versões convenientes e se deterioram a confiança e a possibilidade de uma realidade compartilhada. Defender a democracia exige, portanto, não apenas instituições capazes de resistir à captura, mas uma sociedade capaz de reconhecer diferenças, confrontar ideias e preservar as bases de uma convivência democrática.

Começamos perguntando que país queremos. Ao final, cabe perguntar que fronteiras entre Estado, dinheiro e crime estamos dispostos a aceitar. O Brasil não pode virar um grande Rio de Janeiro: um país em que milícias, facções, dinheiro clandestino e poder político se aproximem a ponto de apagar a fronteira entre o Estado e quem deve estar submetido à lei.

*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde, pesquisador da Fiocruz

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Fonte: GGN

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