Por Ediel Ribeiro — Brasil 247

Rio – Sempre achei que pobre e rico reconheciam seus lugares. Até ver, num futuro distópico, um pobre negociando com o patrão:

– O senhor me chamou, patrão?

– Chamei sim – respondeu o patrão. – Chamei você aqui para negociarmos o seu novo contrato de trabalho – concluiu.

– Que contrato? Eu trabalho de carteira assinada. Sou CLT – disse o trabalhador, orgulhoso de seus direitos.

– CLT? Isto não existe mais. 

– Desde quando?

– Desde que o senador Flávio Bolsonaro ganhou a eleição.

– Mas, eu votei nele. Fiz campanha na fábrica. Com a turma do bar, da pelada. Minha família toda votou nele. Ele prometeu que não ia acabar com os nossos direitos – choramingou o trabalhador.

– E você acreditou? – perguntou o patrão, com um sorriso cínico. – Você não foi o único. Muita gente acreditou. Durante a campanha política, em cada três palavras do senador, duas eram mentiras. E mesmo assim você acreditou? Mas não se preocupe, seu salário não vai diminuir, pelo contrário, você pode até ganhar mais.

– Jura? – perguntou o trabalhador.

– Bom, jurar eu não juro, não. Até porque depois que Flávio Bolsonaro demitiu Nossa Senhora de Aparecida da função de padroeira do Brasil, nós não temos mais por quem jurar.

– Mas ele prometeu que não ia mexer com a Santa! – lamentou o trabalhador.

– Ele tinha que arranjar um cargo para o pai. E como ele está inelegível – explicou o patrão.

-Agora, Jair Bolsonaro é nosso padroeiro? – quis saber o empregado. – De tornozeleira eletrônica?

– É. E ele já operou um milagre: você agora vai ganhar por horas trabalhadas. Viu? Que maravilha! R$ 7. Você pode ficar rico! 

– Como? – quis saber o trabalhador.

– Se você trabalhar 20 horas por dia, vai ganhar 140 pratas. R$4.200 por mês. Bem mais que o salário mínimo.

– Mas, o dia tem 24 horas. Só vão me sobrar 4 horas pra descansar.

– E o senhor precisa mais do que isso?

– Eu moro em Japeri. São duas horas pra ir e duas pra voltar. Como eu vou descansar? – questionou o empregado.

– No trem. Flávio vai mandar instalar rede nos trens suburbanos, para o trabalhador descansar no trajeto – disse o patrão, orgulhoso de seu novo presidente.

– A sorte que eu tenho férias vencidas, vou poder descansar uns dias – disse o trabalhador.

– Tinha. Isto também acabou! Você não tem mais férias, décimo terceiro salário, FGTS, PIS, seguro-desemprego, auxílio maternidade… Sua vida agora ficou bem mais fácil de ser administrada – disse o patrão.

– O senhor pode fazer um PIX para eu pagar a passagem do trem? – perguntou o funcionário.

– O PIX agora é do Trump. Pode ser um voucher? – perguntou o patrão.

– Bom, pelo menos na escala 6X1 eu tenho um dia pra descansar – resignou-se o trabalhador.

– Tinha. Flávio Bolsonaro mudou a escala para 7X0. Mas o senhor pode descansar quando morrer.

Fonte: Brasil 247

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