O patriotismo de araque do bolsonarismo: da dancinha na Paulista ao pedido de uma bomba atômica contra o Brasil

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Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski

Ao pedir que Donald Trump ataque o próprio país com armas nucleares, apoiadores de Flávio Bolsonaro expõem uma contradição grotesca: em nome da pátria, estão dispostos a celebrar sua destruição

O que aconteceu neste domingo (18), na Avenida Paulista, em São Paulo, durante uma manifestação de apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, deveria provocar indignação em qualquer brasileiro minimamente comprometido com a soberania nacional. Em meio a bandeiras verde-amarelas, coreografias eleitorais e palavras de ordem, um grupo de manifestantes resolveu exibir uma réplica de míssil com a inscrição “Trump nuke Brazil”, que pode ser traduzida como “Trump, ataque o Brasil com armas nucleares”. A cena, registrada em imagens e vídeos , foi noticiada pelo UOL , pela Revista Fórum e por outros veículos de comunicação. Não se tratou,  portanto, de uma invenção de adversários políticos, mas de uma manifestação pública cuja mensagem estava literalmente escrita no objeto carregado pelos participantes.

É difícil imaginar uma demonstração mais acabada da degradação do conceito de patriotismo promovida por determinados segmentos do bolsonarismo. Afinal, que espécie de patriota pede ao presidente de uma potência estrangeira que lance uma bomba atômica sobre o território de seu próprio país? Como alguém consegue conciliar o discurso de amor à pátria com a defesa, ainda que apresentada como provocação, de uma ação militar que provocaria mortes em massa, destruição ambiental e consequências sociais e econômicas potencialmente irreversíveis?

A contradição é ainda mais evidente quando lembramos que o bolsonarismo construiu parte importante de sua identidade política sobre a apropriação dos símbolos nacionais. A bandeira brasileira, as cores verde e amarela e as referências permanentes à pátria foram transformadas em elementos de identificação partidária. Entretanto, quando esses mesmos símbolos aparecem associados a um pedido de bombardeio nuclear do Brasil, o que se revela é uma concepção profundamente distorcida de nacionalismo, na qual a lealdade a determinados líderes políticos parece se sobrepor à própria existência da nação.

O episódio também não pode ser separado da crescente identificação de setores do bolsonarismo com Donald Trump. A admiração pelo presidente estadunidense ultrapassa, em alguns casos, a afinidade ideológica e assume características de subordinação política. A potência estrangeira passa a ser imaginada como uma espécie de autoridade superior, à qual se poderia recorrer para resolver conflitos internos que deveriam ser enfrentados exclusivamente pelas instituições brasileiras e pela vontade popular expressa nas urnas. Trata-se de uma inversão particularmente grave: aqueles que afirmam defender a independência nacional acabam recorrendo simbolicamente à tutela de Washington.

Nesse sentido, o míssil exibido na Avenida Paulista é mais do que uma manifestação de mau gosto. Ele constitui uma expressão extrema de uma lógica política segundo a qual o país pode ser submetido a pressões externas, sanções e até ameaças militares, desde que essas medidas favoreçam determinado projeto de poder. É a transformação da soberania nacional em uma variável subordinada aos interesses de uma facção política.

Convém também não banalizar o significado de uma arma nuclear. As bombas lançadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, provocaram destruição devastadora e dezenas de milhares de mortes imediatas, além de um número muito maior de vítimas ao longo dos meses e anos seguintes. A exposição à radiação, os incêndios, as queimaduras e a destruição da infraestrutura urbana produziram consequências que permanecem como advertência histórica sobre a capacidade humana de aniquilação. Transformar esse instrumento de destruição em adereço de manifestação eleitoral revela, no mínimo, uma assustadora insensibilidade diante da vida humana.

Há ainda uma dimensão ambiental que não pode ser ignorada. Um ataque nuclear contra qualquer região brasileira produziria consequências potencialmente catastróficas sobre populações, ecossistemas, recursos hídricos e atividades econômicas. Dependendo da potência do artefato, do local atingido e das condições atmosféricas, a contaminação radioativa poderia ultrapassar amplamente a área inicialmente bombardeada. Para um movimento que frequentemente trata as preocupações ambientais como obstáculos ao desenvolvimento econômico, o pedido de uma bomba atômica representa uma espécie de culminância grotesca do desprezo pelos limites ecológicos e pela própria sobrevivência humana.

É verdade que não se pode atribuir automaticamente a Flávio Bolsonaro, aos organizadores do evento ou a todos os participantes a responsabilidade pela mensagem exibida por aquele grupo. As reportagens consultadas não demonstram que o candidato tenha autorizado ou endossado o pedido. Essa distinção é necessária. Entretanto, o fato de uma manifestação de apoio à sua candidatura ter servido de palco para semelhante demonstração torna indispensável uma condenação pública e inequívoca da mensagem. O silêncio, caso persista, poderá ser interpretado politicamente como tolerância diante de um comportamento absolutamente incompatível com o exercício responsável da Presidência da República.

Outro aspecto que merece reflexão é o contraste entre a atmosfera festiva da manifestação e a gravidade das ideias que nela circularam. O chamado “Bloquinho 22”, com suas músicas, coreografias e encenações, oferece uma representação quase caricatural de uma forma de mobilização política que privilegia o espetáculo em detrimento da discussão sobre os problemas concretos da sociedade brasileira. Enquanto milhões de trabalhadores enfrentam dificuldades relacionadas à renda, ao custo de vida, ao acesso à moradia e à precarização do trabalho, parte do debate político parece reduzida à celebração de lideranças e à produção de imagens destinadas à circulação nas redes sociais.

É nesse ambiente que manifestações extremas podem ser apresentadas como brincadeiras, provocações ou simples performances. Mas a linguagem política nunca é inteiramente inocente. Quando a destruição do próprio país passa a integrar o repertório simbólico de uma manifestação eleitoral, mesmo que seus autores não esperem a concretização do pedido, ocorre uma perigosa normalização da violência como instrumento de resolução dos conflitos políticos.

O problema, portanto, não é apenas a existência de um míssil inflável com uma inscrição absurda. É a possibilidade de que setores da sociedade passem a considerar aceitável a intervenção de uma potência estrangeira contra o Brasil, desde que isso represente uma derrota para seus adversários internos. Essa mentalidade corrói os fundamentos da democracia, pois substitui o reconhecimento da legitimidade do conflito político pela fantasia da eliminação do outro.

A soberania nacional não pertence a Lula, a Flávio Bolsonaro, a qualquer partido ou a qualquer movimento político. Ela pertence ao povo brasileiro, incluindo aqueles que pensam de maneira radicalmente diferente uns dos outros. Defender o Brasil significa reconhecer que os conflitos sobre os rumos do país devem ser resolvidos por meio de instituições democráticas, participação popular e respeito aos direitos fundamentais, e não pela invocação de forças militares estrangeiras.

A cena da Avenida Paulista deveria servir, inclusive, para uma reflexão mais ampla sobre os riscos de uma cultura política baseada na idolatria de líderes, no negacionismo e na hostilidade permanente às instituições democráticas. Quando a fidelidade a um projeto partidário se torna mais importante do que a preservação do próprio país, desaparece a distinção entre patriotismo e fanatismo.

No fim das contas, o episódio oferece uma imagem difícil de superar em sua carga de ironia: brasileiros vestidos com as cores nacionais, em uma manifestação de apoio a um candidato à Presidência da República, carregando um míssil que pede ao presidente dos Estados Unidos que destrua o Brasil.

Talvez seja essa a definição mais precisa do patriotismo de araque: amar tanto a própria facção política que se passa a desejar a destruição da pátria quando ela não se submete aos seus interesses.  E pensar que tudo isso aconteceu ao som de músicas e dancinhas eleitorais. 

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


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Fonte: Blog do Pedlowski

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