O mundo está com os olhos voltados para o Brasil
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Terras raras
Sonia Guajajara
22/9/2026 16:51
O mundo está com os olhos voltados para o Brasil. Nosso país ocupa hoje uma posição estratégica nas grandes disputas econômicas, ambientais e geopolíticas do século XXI. Temos água, florestas, biodiversidade, capacidade de produzir alimentos e energia e algumas das maiores reservas de minerais críticos e terras raras do planeta.
Essas riquezas despertam interesse. Mas também despertam cobiça.
Os Estados Unidos intensificaram sua busca por acordos que assegurem o acesso aos minerais críticos brasileiros. O objetivo declarado é reduzir a dependência da China, que domina boa parte da extração, do processamento e do fornecimento mundial desses materiais. Terras raras, lítio, cobalto, grafite e nióbio são essenciais para a fabricação de baterias, equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas, veículos elétricos, satélites e armamentos.
O Brasil possui entre 19% e 23% das reservas mundiais conhecidas de terras raras, ficando atrás apenas da China. Também concentra praticamente todas as reservas conhecidas de nióbio. Isso coloca nosso país no centro da disputa pelo controle das tecnologias, das fontes de energia e das cadeias industriais do futuro.
Uma parcela significativa dos pedidos de exploração mineral está localizada nas proximidades de unidades de conservação e terras indígenas. Por isso, a discussão sobre minerais críticos não pode ser separada da proteção ambiental, da demarcação dos territórios e do direito à consulta livre, prévia e informada. Uma transição energética que destrói florestas, contamina rios e expulsa comunidades não é justa nem sustentável. É apenas uma nova forma de colonialismo pintada de verde.
Durante minha atuação como primeira ministra dos Povos Indígenas do Brasil, trabalhei para fortalecer a presença do Estado nos territórios, avançar nas demarcações e retirar invasores de terras indígenas. As ações de desintrusão, a proteção do território Yanomami e a retomada das demarcações não foram somente medidas de defesa dos povos indígenas. Foram ações concretas em defesa da soberania brasileira.
Quando retiramos garimpeiros ilegais, madeireiros e organizações criminosas dos territórios, estamos afirmando que aquelas áreas estão submetidas à Constituição e às leis do Brasil. Quando protegemos uma terra indígena, protegemos também nossas águas, nossas florestas, nossa biodiversidade e riquezas minerais estratégicas. Território indígena protegido é território nacional protegido.
Algumas pessoas me perguntam se pretendo voltar ao Ministério dos Povos Indígenas. Minha resposta é não. Minha missão agora está no Congresso Nacional, onde quero trabalhar para consolidar e transformar em políticas de Estado as medidas que implementamos no ministério, em diálogo permanente com Marina Silva e com toda a agenda socioambiental do governo. Não basta criar programas, retomar demarcações, proteger territórios e reconstruir instituições: é preciso garantir que esses avanços permaneçam, independentemente de quem esteja no poder. Quero fortalecer essa agenda por meio de leis, orçamento e fiscalização, para que nenhum governo possa voltar a desmontar direitos conquistados com tanta luta.
A atenção mundial sobre o Brasil também se revela no interesse da imprensa estrangeira por nossa trajetória e pelas lutas dos povos indígenas. Ao longo dos últimos meses, fui procurada por jornalistas do mundo todo: Estados Unidos, País Basco, Noruega, França, etc.
Neste ano, concedi entrevista ao Dialogue Earth , na qual apresentei um balanço da criação do Ministério dos Povos Indígenas, da retomada das demarcações, do enfrentamento ao garimpo ilegal e da reconstrução da política indigenista. Destaquei que levar a agenda indígena ao centro do poder representa um ato histórico de reparação e de fortalecimento da democracia brasileira. Também dei declaração direta ao The Washington Post sobre as dificuldades para avançar na demarcação de terras diante de um Congresso majoritariamente contrário à criação de novos territórios indígenas.
Mas o olhar do mundo também revela a responsabilidade e os riscos que o Brasil enfrenta. Somos uma potência climática, ambiental, alimentar, energética e mineral. Em um cenário de guerras, disputas comerciais e competição entre grandes potências, nossas riquezas podem ser uma oportunidade extraordinária de desenvolvimento. Também podem nos transformar novamente em território de exploração, dependência e conflito.
É justamente por isso que precisamos fortalecer a democracia, as instituições e a capacidade do Estado brasileiro de planejar o futuro. Não podemos permitir que interesses estrangeiros ou privados se sobreponham à Constituição, à proteção ambiental e aos direitos dos povos indígenas. Também não podemos aceitar que a soberania seja usada como discurso vazio por aqueles que entregam nossas riquezas, enfraquecem os órgãos de fiscalização e estimulam a invasão dos territórios.
O Brasil pode dialogar com os Estados Unidos, a China, a União Europeia, os países africanos, latino-americanos e todas as nações interessadas em construir relações de cooperação. Mas deve fazer isso de maneira soberana, sem alinhamento automático e sem conceder exclusividade sobre recursos estratégicos.
O mundo está de olhos voltados para o Brasil porque sabe que parte importante do futuro será decidida aqui. O futuro das florestas, do clima, da transição energética e das novas tecnologias passa pelo nosso território.
Cabe a nós decidir se seremos apenas fornecedores de matéria-prima ou protagonistas de um novo modelo de desenvolvimento. Um modelo que produza riqueza sem destruir a vida, que respeite os povos e que coloque a ciência e a tecnologia a serviço da população. Preservar nossa soberania é proteger o território, a democracia e o direito das próximas gerações de escolher o próprio futuro. Nunca mais aceitaremos um Brasil negociado sem a participação de seu povo. Nunca mais um Brasil sem nós.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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Fonte: Congresso em Foco