O menino cresceu
Por Gabriel Alves – Diretor de Redação — Revista Pesquisa Fapesp
Não bastassem os desafios sociais e econômicos, as provações climáticas também não dão nem darão descanso às atuais e às próximas gerações. Entre elas, poucas são tão familiares e presentes quanto El Niño, nome dado por pescadores do norte do Peru, em alusão ao Menino Jesus, à quente corrente oceânica que aparecia no Pacífico logo depois do Natal. O apelido chegou à ciência em 1892, num relato do capitão de navio Camilo Carrillo à Sociedade Geográfica de Lima (Peru). Esse conhecimento poderia estar apenas em uma nota mirrada num livro de geografia, mas o fenômeno só cresce em relevância e impacto — e cá estamos.
Já vimos secas históricas na Amazônia, com a água do lago Tefé chegando a quase 40 °C (e matando peixes e botos aos montes), e enchentes devastadoras no Sul (em que o “pequeno” foi um coadjuvante de peso). Essas cenas escancaram o quanto nossas cidades estão despreparadas para conviver com ele. E “conviver” realmente é a palavra a ser incorporada à nossa rotina.
Adaptar-se ao que já está aí é o caminho, ao mesmo tempo que se trabalha para frear emissões de gases do efeito estufa. A reportagem de capa desta edição discute esse tema e outras nuances, como a busca por maneiras de tornar a cidade mais segura. O infográfico que acompanha a matéria disseca o mecanismo do fenômeno, seus efeitos globais e a série histórica das últimas décadas.
Na sequência, em entrevista a Ricardo Balthazar, a arquiteta Denise Duarte, da FAU-USP, demonstra como o risco climático é o retrato da desigualdade e enumera os absurdos que se acumulam: pontos de ônibus cobertos de vidro, sem sombra; torres comerciais que precisam ser evacuadas se falta energia, porque a fachada é toda envidraçada e as janelas, seladas; apartamentos novos projetados como caixas de vidro, com varanda falsa e área reservada para a condensadora do ar-condicionado. “Nunca vi plantas tão ruins como agora”, diz ela.
Da insegurança climática à habitacional: reportagem sobre aluguel social mostra que a política existe em São Paulo desde 2002, tem bons índices de acesso e permanência, mas ainda não ganhou escala. Há ainda a insegurança dos dados: reportagem sobre a criptografia totalmente homomórfica acompanha a corrida para que um servidor processe informações cifradas sem enxergá-las, algo já possível na prática, embora ainda muito mais lento que o processamento comum.
A edição 365 marca o início de uma nova etapa de Pesquisa FAPESP, que renova os projetos editorial e gráfico e traz mudanças no conteúdo. A revista quer falar com mais gente sem abrir mão do rigor que a sustenta há 27 anos. Reestreiam as seções Boas Práticas, por Theo Ruprecht, sobre malfeitos científicos, e Dados, por Sabine Righetti, sobre os indicadores da ciência nacional e internacional. A coluna Gente da Pesquisa, de Marcelo Soares, é mais uma forma de a revista se conectar ao mundo acadêmico-científico e seus atores.
Fechamos a edição com uma homenagem a Elza Berquó, morta em julho, aos 100 anos. Matemática de formação e demógrafa por vocação, ela institucionalizou os estudos populacionais no Brasil, fundou o Cebrap em 1969 e o Nepo na Unicamp, em 1982, e passou a carreira cobrando que se produzissem não somente dados brutos, mas dados pensados. Costumava dizer que por trás de cada tabela há pessoas.
Fonte: Revista Pesquisa Fapesp