Por Kátia BrasilAmazônia Real

Mais de cinco anos após aquele dramático dia 14 de janeiro de 2021, durante a pandemia da Covid-19 em Manaus, capital do Amazonas, os leitores ainda revisitam a reportagem “Caos na Pandemia: Sem oxigênio, pacientes morrem asfixiados em Manaus”, do repórter Leanderson Lima, no site da agência Amazônia Real, deixando comentários e a indignação como as vítimas da doença foram tratadas pelos governos aliados ao bolsonarismo. O luto não passa.

Minha memória nunca esqueceu. Eram pessoas ligando, denunciando à redação, relatando mortes de parentes, amigos, vizinhos… Naquela ocasião, só quem ia para rua eram os fotógrafos. As e os repórteres estavam trabalhando em home office, dentro de casa. Então os fotógrafos foram para as portas dos hospitais.

Manaus não recebeu uma orientação do poder público de como proceder no isolamento da pandemia, apesar dos apelos da Organização Mundial de Saúde (OMS). Na realidade, as autoridades chegaram mesmo a negligenciar os alertas. O governador Wilson Lima descartou  o lockdown, pressionado pelo comércio local. Nas festas de fim de ano, na virada de 2020 para 2021, muitas famílias fizeram confraternização social, consumidores foram às compras como se fossem dias normais. A contaminação pelo vírus foi disseminada de maneira veloz e mais letal. 

As informações sobre o que aconteceu nos hospitais em janeiro de 2021 em Manaus não fluíam das Secretarias de Comunicação (Secom) em nível federal, estadual e municipal. Em meio ao silêncio e negacionismo, um médico decidiu falar.

Mário Vianna, presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), me disse que seriam de 20 a 40 óbitos por falta de oxigênio nos hospitais públicos: 28 de Agosto, Platão Araújo e Getúlio Vargas, este universitário.  

A tragédia deu seu sinal na madrugada de uma quarta-feira (13) e avançou pelo dia seguinte. “Falam em 20 a 40 pessoas que morreram na madrugada, mas não temos como precisar. Temos a impressão que as pessoas estão ocultando. Não temos serviço de verificação de óbitos. Não tem acesso a informação. Se eu ligar para a Fundação de Vigilância em Saúde e pedir, não vão me dar”, desabafou o médico na ocasião.

O drama piorou com uma medida impensável do então governador do Amazonas. Em vez de fazer uma declaração pública, Wilson Lima (União) determinou que a Polícia Militar (PM) protegesse as portas dos hospitais para impedir a invasão de pacientes com o novo coronavírus. As pessoas foram às portas dos hospitais buscar informações de seus parentes. Muitos foram hostilizados por policiais.  

Wilson Lima deixou o mandato em 5 de abril deste ano para concorrer às eleições ao Senado, em outubro próxímo. 

Conforme levantamento realizado pela Agência Pública, além de Wilson Lima, mais 12 políticos são candidatos nesta eleição e que têm seus nomes listados no relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, no Senado, com pedido de indiciamento. Todos estão impunes. Veja a lista:

Flávio Bolsonaro (PL), candidato à presidência da República, Wilson Lima (União-AM), Marcelo Queiroga (PB), Carlos Jordy (RJ), Bia Kicis (DF) e Carlos Bolsonaro (SC), filiados ao PL, que concorrem ao Senado. Eduardo Pazuello (RJ), Nise Yamaguchi (SP) e Osmar Terra (RS), todos também do PL, Onyx Lorenzoni (RS) e Ricardo Barros (PR), pelo PP – todos disputam uma vaga a deputado federal. Mayra Pinheiro “a capitã cloroquina” (PL-CE) e Marcellus Campêlo (União-AM), que concorrem às assembleias estaduais.

Em outra reportagem, a Amazônia Real denunciou que Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello insistiram no tratamento dos pacientes de Covid-19 com os medicamentos cloroquina e ivermectina (remédio que mata piolho), em Manaus e no interior do Amazonas, transformando o estado numa espécie de laboratório. 

Pazuello foi recebido em uma sinistra cerimônia por Wilson Lima e pelo prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), que também concorre às eleições deste ano, como candidato ao governo estadual. O ex-ministro recomendou o “tratamento precoce”, o chamado KIT Covid, com medicamentos sem eficácia comprovada cientificamente. 

“Ouvi o David [prefeito de Manaus David Almeida]  falar aqui sobre tratamento precoce. Senhores, senhoras, não existe outra saída. Avisei ao Wilson [Lima], ontem que hoje eu seria um pouco mais incisivo em algumas palavras”, disse o general Pazuello, que foi inocentado das acusações de negligência pela Justiça Federal, que arquivou uma ação de improbidade administrativa contra o ex-ministro da Saúde. 

No Amazonas, cerca de 14.474 pessoas morreram contaminadas por Covid-19, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde. Esses são dados oficiais, notificados, mas especialistas afirmam que o número de subnotificações é incomensurável. Muitas pessoas morreram em casa, sem registro e sem atendimento médico. 

Assim como os leitores, que continuam em luto e até hoje lamentam, trazem lembranças, expressam suas dores na caixa de comentários da Amazônia Real, todo esse cenário ainda é presente em mim. Minha casa em Manaus ficava muito próxima ao Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, para onde iam milhares de pessoas por dia atrás de atendimento. Nossas madrugadas eram ao sons das ambulâncias.

Muitas pessoas morreram na porta do hospital sem atendimento médico. Essas cenas se repetiram em outras unidades de saúde. Outra cena inesquecível são as filas gigantes para a compra de oxigênio nas ruas.  

Na reportagem que divulgou a crise por falta de oxigênio já são mais de 80 comentários, só este ano, sendo que a maioria escritos por mulheres. Deixo registrados alguns registros abaixo para reflexão:

“Foi um descaso total com a população, tanto governamental como os particular, governamental com o cuidado tardio deixando padecer a saúde e os outros querendo lucrar em cima do desespero das famílias”, diz Taynara Gomes.

Em seu comentário, Luziana Escobar fez uma reflexão. “Essa matéria retrata um dos momentos mais críticos da pandemia no Brasil, evidenciando como a falta de planejamento e de estrutura na saúde pública pode ter consequências extremamente graves. A situação em Manaus mostrou que, além do vírus em si, a ausência de recursos básicos — como o oxigênio — também pode se tornar uma causa direta de mortes. Isso levanta uma reflexão importante sobre a responsabilidade dos gestores públicos, a importância de políticas preventivas e o impacto da desigualdade regional no acesso à saúde. Ao mesmo tempo, chama atenção para a força das famílias, que, mesmo em meio ao caos, tentaram salvar seus entes queridos por conta própria.”

“Nesta matéria vejo um dos momentos mais delicados, e posso dizer que doloroso, onde faltava oxigênio, pois não tinha pra todos, não era sobre quem era rico ou baixa renda. E sim sobre salvar vidas. Famílias desesperadas, a falta de estrutura em unidades, leitos ocupados. Todo corpo técnico de grande, média e pequena unidade hospitalar vivendo um verdadeiro caos. (…) Que os governantes olhem mais pela saúde. E vejam o quanto é necessário ter uma saúde digna. O Sistema Único de Saúde (SUS) precisa ser tratado de formas para atender as demandas, com mais rigor, pensando que Vidas importa”, escreveu Tatiane Santana Santos.

Ane Aparecida Barnak das Neves disse: “a tragédia em que vivemos na pandemia nunca será esquecidas, pois se não perdemos entes queridos vimos nossos amigos em desespero e choramos muitas vezes lágrimas de completo descaso e desesperança, mas Deus teve misericórdia novamente da nossa nação e nos deu livramento.”

“Infelizmente houve um descaso muito grande pelos nossos governantes, vidas e mais vidas foram levadas à morte como se fossem nada, famílias não tinham notícias dos parentes que estavam internados, médicos sobrecarregados, trabalhando dia após dia”, postou seu comentário Cláudia Araújo.

A técnica em enfermagem Paedra Morais da Silva deixou seu depoimento. “Fui profissional de frente em muitos casos. Nem as próprias ambulâncias, os hospitais deram conta da falta de oxigênio para uso imediato aos pacientes com vírus da covid e suas comorbidades. Muitas vidas perdidas mediante ao descaso. Lamentável situação naquele momento. No decorrer da pandemia, além das vidas perdidas por falta de suporte, falta de atendimento ainda veio à tona o aproveitamento político mediante a desgraça.”

A movimentação de pacientes era grande e eles reclamavam do atendimento no primeiro dia de funcionamento da Unidade Básica de Saúde Nilton Lins (na zona Centro Sul de Manaus), montada especificamente para atender casos de Covid-19. (Foto de Raphael Alves/Amazônia Real/12/01/2021)

Republique nossos conteúdos: Os textos, fotografias e vídeos produzidos pela equipe da agência Amazônia Real estão licenciados com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional (CC BY ND 4.0), e podem ser republicados na mídia: jornais impressos, revistas, sites, blogs, livros didáticos e de literatura; com o crédito do autor e da agência Amazônia Real. Fotografias cedidas ou produzidas por outros veículos e organizações não atendem a essa licença e precisam de autorização dos autores.

O post O luto da pandemia não passa apareceu primeiro em Amazônia Real.

Fonte: Amazônia Real

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *