O jornalismo como antídoto à chaga da desinformação que ascende com o bolsonarismo

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Por Malu DelgadoPartido dos Trabalhadores

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De modo sorrateiro e bem articulado, esse modelo sistemático se consolidou. Neste cenário, é preciso a abraçar a informação como direito humano e cobrar responsabilidade da imprensa

Da Rede PT de Comunicação

Publicado em 11/09/2026 às 15h06

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Por Eliara Santana (*)

A desinformação se tornou uma grande chaga para o Brasil, desde 2018, com a chegada do bolsonarismo ao poder. Ela se enfronhou no dia a dia dos cidadãos, impactou e segue impactando o debate público em relação a temas vitais como saúde, educação, economia, eleições, políticas públicas e meio ambiente.

No começo da história, tudo se resumia à disseminação de fake news, notícias falsas, ou “boatos”, como tantos gostavam de afirmar. Mas, de modo sorrateiro, bem articulado, sem que a sociedade e as instituições percebessem, a desinformação intencional e sistematizada foi ganhando terreno e se consolidando.

Já nas eleições de 2018, uma disseminação massiva de notícias falsas, de modo muito articulado e bem estruturado, tomou conta do processo. Posteriormente, já em 2019, entrou em ação o chamado gabinete do ódio, instalado dentro da estrutura do governo federal. Em 2020, a pandemia de Covid-19 assolou o Brasil e o mundo, e com ela veio uma pandemia quase tão letal, a de desinformação. No Brasil, essa pandemia teve espaço de desenvolvimento alimentado por instâncias públicas. Em 2022, as eleições foram conturbadas pelo aparato de desinformação bolsonarista, o que se repete neste ano de 2026.

E por isso, mais do que nunca, é preciso fortalecer um grande antídoto contra a desinformação: o jornalismo profissional. Não à toa, uma das fortes ações da extrema direita é colocar sob suspeição toda e qualquer prática jornalística, desacreditando os profissionais de modo geral. Entretanto, também essa prática enfrenta pressões e constrangimentos, sendo, muitas vezes, afogada no mar da desinformação.

E por isso, é necessário abraçar com força a prerrogativa de que a informação é um direito humano e um bem preciosíssimo que molda nossa vida em sociedade e a própria democracia.

O direito à informação é reconhecido como direito fundamental da pessoa pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, o que é reafirmado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo Estado brasileiro – no Brasil, o reconhecimento oficial deu-se em 21 de dezembro de 2009, a partir do Decreto nº 7.037, que instituiu a terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3).

Ressaltando a enorme relevância do cuidado com a informação, ainda em 1977, em plena vigência da Nova ordem Mundial (NOMIC), foi instituída a Comissão MacBride, atendendo a uma solicitação da UNESCO para discussão sobre a comunicação. Era presidida por Sean MacBride, prêmio Nobel da Paz de 1974. Em seu relatório divulgado em 1980, após um extensivo trabalho que durou três anos, a Comissão ressaltou que “a comunicação é um aspecto dos direitos humanos”.

O Relatório MacBride estabeleceu, sem dúvida, um novo marco na consideração da comunicação como direito humano. A apresentação do relatório final da Comissão, que deu origem ao livro “Many Voices, One World” (THE MACBRIDE COMMISSION, 1980). O Relatório MacBride elencou onze princípios essenciais, e aqui eu destaco os cinco mais relevantes no tocante às discussões sobre comunicação:

“Sem viabilidade, a liberdade de imprensa é oca, a independência pode ser facilmente comprometida e o pluralismo torna-se uma sombra do que deveria ser. Sem transparência por parte dos guardiões da Internet, o papel destes na comunicação não pode ser avaliado e alinhado com os padrões internacionais de liberdade de expressão. E sem cidadãos com letramento informacional e midiático, que saibam discernir, valorizar e exigir jornalismo de qualidade, o risco de a comunicação social ser ultrapassada por outro tipo de conteúdos é alto”. Essa é uma das avaliações do relatório “Tendências Mundiais em Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Comunicação Social” 2021/2022, da Unesco, que enseja uma discussão relevante sobre o papel do jornalismo e a importância de garantir a plena prática da profissão. 

  O contexto sociopolítico brasileiro impõe desafios e muitos gargalos para o jornalismo. Oligopólios têm interesses econômicos e de poder que constrangem o trabalho jornalístico. Não estamos falando de censura aberta, mas de estratégias para direcionar e/ou impor contornos e limites e enviesar o noticiário a favor desse ou daquele agrupamento. E isso quase nunca fica explicitado.

Por outro lado, quando ocorre uma espécie de “parceria” entre a mídia e o Judiciário para vazamentos seletivos de investigações, por exemplo, isso compromete enormemente a pluralidade, o rigor de apuração e penaliza apenas determinados grupos políticos, que são identificados no imaginário sociodiscursivo como “inimigos da nação”.

Um exemplo que deve sempre ser lembrado é o da Operação Lava Jato, que contou com suporte da mídia para os arbítrios do então juiz Sérgio Moro, aquele que abandonou a toga para ser superministro de Jair Bolsonaro. Em entrevista ao El País Brasil, em 2019, o ministro do STF, Gilmar Mendes, destacou: “A imprensa tem muita responsabilidade. Eu tenho a impressão, usando uma expressão machadiana, de um conúbio espúrio entre a imprensa e a Lava Jato. Haverá motivos nobres – eles estavam imbuídos no sentido de combater a corrupção. E outros não nobres. A mídia recebia essas informações vazadas, de alguma forma, era conivente com os vazamentos. Tanto é que esses vazamentos ocorreram sistematicamente, e nós não temos ninguém punido por isso”.

A imprensa não pode dar espaço à desinformação, em qualquer formato. Portanto, candidatos mentirosos que ganham espaços privilegiados em entrevistas e sabatinas, por exemplo, devem e precisam ser desmentidos no momento em que mentem. Vazamentos seletivos não devem ser tolerados. Powerpoints espetaculosos que dão apenas parte do contexto com inverdades não devem circular.

A desinformação no geral e a desinformação eleitoral especificamente enlameiam a democracia. E colocam em risco sério as instituições. Portanto, a responsabilidade do jornalismo íntegro é enorme, como salientou o relatório da Unesco: 

“Como outros bens públicos, o jornalismo desempenha um papel fundamental na promoção de um espaço cívico saudável. E o faz fornecendo aos cidadãos informações fiáveis e baseadas em fatos de que eles precisam para participar de uma sociedade livre e aberta. O jornalismo atua simultaneamente como um guardião independente e como um programador de agenda. Mas para que o jornalismo funcione como um bem público, ele precisa operar em condições políticas e econômicas viáveis, para poder produzir notícias e análises independentes, de alta qualidade e de confiança”. 

Por fim, em ano conturbado e numa realidade açodada pelo avanço das estratégias de desinformação, é sempre importante também lembrar que a mídia, a imprensa, tem, sim, uma função democrática, que foi descrita pelo relatório do Grupo de Alto Nível sobre  a Liberdade e o Pluralismo da Mídia, da União Europeia, publicado em 2013.

O documento ressalta o papel do pluralismo e da liberdade para o funcionamento da democracia, enfocando como essenciais a igualdade de direitos dos cidadãos para participarem politicamente e o acesso livre à informação, que é fundamental para que os cidadãos possam estabelecer julgamentos e escolhas políticas:

“A democracia exige uma esfera pública bem informada, inclusiva e pluralista; a mídia é, em grande medida, tanto a criadora quanto a ‘editora’ dessa esfera pública. Com isso, ela detém um poder considerável e pode chegar a assumir o status de ‘quarto poder’ na sociedade. Ao mesmo tempo, a dimensão de serviço público e a função democrática da mídia podem ser ameaçadas por interferência política, influência comercial indevida ou pelo crescente desinteresse e indiferença do público em geral. O papel que a mídia desempenha em uma sociedade democrática exige uma proteção sólida, mas também traz consigo responsabilidades equivalentes. O público jamais deve esquecer que a mídia é uma fonte de informações, e não de verdades absolutas”.

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).


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Fonte: Partido dos Trabalhadores

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