O golpe começa pela desmoralização dos Três Poderes

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Por Gustavo TapiocaBrasil 247

A quem interessa que, às vésperas da eleição, os brasileiros sejam bombardeados com vazamentos até deixarem de confiar simultaneamente nos Três Poderes que sustentam — ou deveriam sustentar — a democracia? 

O eleitor tem direito de conhecer fatos relevantes sobre quem pretende governá-lo. O problema começa quando investigações e informações sigilosas passam a circular seletivamente como armas políticas. 

O Datafolha acaba de medir o tamanho da erosão. Neste sábado,12 de setembro, 77% dos brasileiros dizem que sua confiança no Supremo diminuiu e 76% consideram excessivo o poder de seus ministros. Mas 71% ainda consideram o STF essencial para a democracia. O Supremo ainda não perdeu sua legitimidade democrática. Mas está perdendo confiança social. E é exatamente nesse intervalo que uma democracia se torna vulnerável. 

O segundo governo é mais radical 

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt oferecem em Como as democracias morrem uma chave para compreender o fenômeno. O Congresso pode continuar votando. A Suprema Corte, julgando. As eleições, acontecendo. O presidente pode continuar sendo escolhido pelo voto. E a democracia pode ter sido esvaziada por dentro. 

Tribunais, Ministério Público, Polícia Federal e Justiça Eleitoral são árbitros da democracia. O aspirante a autocrata não precisa destruí-los: basta capturá-los. Viktor Orbán não aboliu as eleições na Hungria. Erdoğan não fechou o Parlamento turco. Na América Latina, Nayib Bukele chegou ao poder pelo voto e, depois, subordinou o Judiciário, enfraqueceu os controles institucionais e abriu caminho para uma reeleição que a Constituição de El Salvador proibia.  

Todos chegaram ao governo pelas urnas e progressivamente alteraram as condições em que as eleições seguintes seriam disputadas. As instituições permaneceram de pé. O que desapareceu foi sua capacidade de limitar o poder. 

O cientista político alemão Peter Birle, diretor de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim, advertiu neste sábado, 12 de setembro, que muitas vezes é no segundo governo da extrema direita que chegam as transformações mais radicais. 

No Brasil, uma segunda experiência da extrema direita teria uma particularidade inquietante. Jair Bolsonaro já descobriu quais instituições impediram seu projeto: STF, Justiça Eleitoral, Polícia Federal e parte das Forças Armadas. Flávio não precisa descobrir onde estão os obstáculos. O pai já lhe entregou o mapa. 

Se Flávio ganhar 

Flávio Bolsonaro já anunciou o que pretende fazer com uma dessas instituições. No palanque do 7 de Setembro declarou que indicará cinco ministros para o Supremo e que Alexandre de Moraes “vai cair”. Somadas às indicações de André Mendonça e Nunes Marques feitas pelo pai, uma eventual Presidência de Flávio poderia produzir influência bolsonarista decisiva sobre a Corte. 

Jair tentou enfrentar o Supremo. Flávio pretende remodelá-lo. É o método descrito por Levitsky e Ziblatt: não é necessário fechar um tribunal se for possível controlar suas decisões. Mas o projeto brasileiro da extrema direita tem uma particularidade adicional: aliados na maior potência militar do planeta, os Estados Unidos, hoje governados por Donald Trump e Marco Rubio. 

A joia da coroa 

O Brasil é a maior economia da América Latina, integrante dos BRICS, principal parceiro comercial da China na região e proprietário de gigantescas reservas de água doce, petróleo, minerais críticos, terras raras, terras agrícolas e da maior parte da Amazônia. É a joia da coroa. E já não é possível tratar a interferência de Donald Trump na eleição brasileira apenas como hipótese. 

Segundo o GGN, um documento de 22 páginas elaborado por André Marinho em março, em inglês, traz na capa “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign” e propõe uma parceria Brasil-Estados Unidos para exploração, processamento e industrialização de minerais críticos e terras raras. 

Flávio afirmou na CPAC de Dallas que o Brasil poderia ajudar os Estados Unidos a reduzir sua dependência da China nesses minerais. André Marinho reuniu-se posteriormente com J.D. Vance; Flávio, com Trump, Vance e Rubio. 

2026 não é 1964. Os métodos mudaram. Mas a pergunta permanece: 

Até onde Trump e Rubio estão dispostos a ir para derrotar Lula e eleger Flávio Bolsonaro? Sabemos que Washington utiliza tarifas, sanções, vistos e pressão diplomática. Sabemos que deseja outro governo no Brasil. O que não sabemos é se sua ação termina aí. 

O papel dos vazamentos 

É nesse ponto que a epidemia de vazamentos adquire outra dimensão. Existe alguma participação americana na crise institucional que explode no Brasil às vésperas da eleição?  

Não há, até agora, prova pública de que Washington esteja por trás dos vazamentos. Portanto, não podemos afirmar que esteja. Mas, quando a interferência eleitoral americana já deixou o terreno da hipótese, investigar se ela utiliza outros instrumentos tornou-se uma pergunta jornalística. 

Há antecedentes que recomendam atenção. Sergio Moro, principal juiz da Lava Jato, participou de programa promovido pelo Departamento de Estado americano. Tornou-se ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, beneficiário eleitoral da retirada de Lula da disputa de 2018. 

Seu sucessor, André Mendonça, participou em 2020 do Poverty Cure Summit, do Acton Institute, think tank cristão e conservador sediado nos Estados Unidos. Bolsonaro depois o levou ao Supremo como seu ministro “terrivelmente evangélico”. Hoje Mendonça ocupa posição central na crise que atinge o STF e a Polícia Federal em plena eleição. 

Nada disso prova articulação americana. Mas Sergio Moro esteve no centro da operação que retirou Lula da eleição de 2018; André Mendonça está no centro de uma crise institucional quando Lula enfrenta o filho Zero um de Jair. 

Os dois foram ministros da Justiça de Jair Bolsonaro. Um passou por programa do Departamento de Estado; o outro, por uma rede conservadora político-religiosa dos Estados Unidos. Isso não prova uma articulação. Mas recomenda investigá-la. 

Doutrina Rubio: “este Hemisfério é nosso” 

O golpe tentado por Jair Bolsonaro depois da derrota de 2022 tinha ataques às urnas, militares envolvidos, minuta golpista, acampamentos diante dos quartéis e, como posteriormente revelaram as investigações, um plano que previa assassinar Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes. Fracassou por uma combinação de fatores internos. Mas havia também um fator externo importante. Na Casa Branca estava Joe Biden. 

Os Estados Unidos de Biden deixaram claro que respeitariam o resultado das urnas e reconheceram rapidamente a vitória de Lula. Washington não ofereceu sustentação internacional à aventura golpista. Quatro anos depois, Lula novamente disputa a Presidência contra um Bolsonaro — agora Flávio. Mas na Casa Branca está Donald Trump. E Marco Rubio comanda a política externa dos Estados Unidos.  

Em três frases recentes do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sintetizam a nova política de Washington para a América Latina. A primeira,  

“Este é o Hemisfério Ocidental. É onde vivemos e não vamos permitir que seja base de operações para adversários dos EUA”, foi dita em janeiro de 2026, em entrevistas após a operação americana na Venezuela.  

A segunda: “A esquerda destruiu a Venezuela, a esquerda destruiu Cuba, a esquerda destruiu a Nicarágua” foi pronunciada nesta quinta-feira, 9 de setembro de 2026, em Quito, Equador, durante turnê por três países sul-americanos.  

A terceira apareceu em janeiro, no depoimento preparado de Rubio ao Senado sobre a Venezuela: “Estamos preparados para usar a força para garantir a máxima cooperação se outros métodos falharem”. E completava: os Estados Unidos não se afastariam de sua “missão neste Hemisfério”.  

Rubio visitou Colômbia, Equador e Peru para ampliar o Escudo das Américas. Articulou governos aliados, reforçou a presença militar e econômica dos Estados Unidos para conter a presença da China na América do Sul.  Deixou o Brasil fora do roteiro e continuou a formar um cinturão pró-Trump ao redor do governo Lula, às vésperas da eleição de 4 de outubro. 

A disposição de recorrer à força na Venezuela, somada à reivindicação do Hemisfério como área estratégica americana e à ofensiva ideológica contra a esquerda latino-americana, fecha o tripé: segurança, economia e ideologia para reafirmar a influência dos Estados Unidos diante da China e da Rússia. 

E se Lula ganhar? 

Trump reconhecerá uma vitória de Lula, como Biden fez em 2022? Ou as mesmas urnas que seriam legítimas numa vitória de Flávio passarão a ser consideradas fraudulentas se Lula vencer? A narrativa não precisa ser deixada para depois. Ela já está sendo construída. 

Flávio acusa Lula de querer “ganhar no tapetão”, apresenta-se como vítima de instituições que estariam interferindo na eleição. Primeiro desmoralizam-se ministros. Depois, as instituições: STF, Polícia Federal, Ministério Público e Justiça Eleitoral. Finalmente, entrega-se ao eleitor uma conclusão: “O sistema está podre.” É precisamente aí que surge a pergunta da extrema direita capaz de incendiar o país: 

Como confiar numa eleição garantida por instituições que passaram semanas sendo apresentadas como corrompidas? 

Em 2022, Bolsonaro preparou seus seguidores para acreditar que só existiam duas possibilidades: sua vitória ou a fraude. Perdeu. Veio o 8 de Janeiro. Mas os golpistas encontraram uma barreira internacional: os Estados Unidos reconheceram Lula. 

 Vários 8 de janeiro  

Em 2026, se Lula vencer e Flávio denunciar fraude, o que fará Trump? Se houver outro 8 de janeiro — ou vários 8 de janeiros em pontos estratégicos do Brasil — Washington reconhecerá o resultado, questionará a eleição ou dará sustentação política aos que tentarem impedir a posse do vencedor?   

Essa pergunta precisa ser feita antes, não depois da eleição. Porque desta vez uma eventual tentativa de golpe encontrará na Casa Branca não Joe Biden, mas Donald Trump e Marco Rubio — e nas redes sociais uma máquina pronta para transformar a denúncia de fraude nas urnas em verdade para milhões de pessoas que acompanham tudo com celular na mão. 

A grande pergunta começa se Lula ganhar. 

Levitsky e Ziblatt ensinaram que uma democracia pode morrer sem que Congresso, Suprema Corte e eleições desapareçam. Talvez exista um estágio anterior. 

A democracia começa a morrer quando cidadãos suficientes são convencidos de que nenhuma dessas instituições merece ser defendida. 

Fonte: Brasil 247

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