O futuro do Brasil pode ser decidido em um único turno

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Por Florestan Fernandes JrBrasil 247

A eleição de 2026 entra em sua reta final com um claro afunilamento do quadro eleitoral. Os candidatos que tentaram se apresentar como alternativas de terceira via perdem espaço, enquanto suas intenções de voto se desidratam progressivamente. Nas últimas pesquisas, Lula mantém, em primeiro turno, uma vantagem apertada de três a cinco pontos percentuais sobre Flávio Bolsonaro. O cenário revela uma disputa cada vez mais concentrada e mantém aberta a possibilidade de que a eleição seja decidida já no dia 4 de outubro.

Talvez seja melhor que a esquerda faça um esforço concentrado nesta reta final, para evitar que um eventual segundo turno se transforme em uma disputa excessivamente apertada e incerta.

Ao falar na ONU, Lula acenou para os eleitores indecisos e também para aqueles que se identificam com o campo da direita democrática, ao alertar para as ameaças que pairam sobre o nosso país. Em um contexto de avanço do governo Trump sobre a América Latina e de retomada de uma política mais intervencionista dos Estados Unidos na região, Lula reagiu à volta da lógica da Doutrina Monroe ao afirmar, numa formulação que remete ao título do livro de Paulo Nogueira Batista Jr., que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

É nesse ponto que a eleição ganha uma dimensão estratégica e que a campanha pela reeleição do presidente deve concentrar um de seus focos principais.

Afinal, que presidente queremos para o Brasil? Um presidente que defenda um país soberano, capaz de negociar com os Estados Unidos em condições próprias, ou um governo disposto a renunciar a parcelas da autonomia nacional para se alinhar aos interesses políticos e econômicos da maior potência do mundo?

Pelo perfil de parte dos governos de extrema-direita que chegaram ao poder nos últimos anos na América Latina, com todo o apoio de Washington, é possível identificar o perfil dos “líderes” escolhidos a dedo para trabalhar cegamente pelos interesses do governo Trump. Alguns desses governantes têm trajetórias marcadas por denúncias de corrupção, acusações envolvendo grupos paramilitares ou estruturas criminosas.

Na Colômbia, Abelardo de La Espriella construiu sua carreira como advogado criminalista defendendo personagens envolvidos em casos de narcotráfico, lavagem de dinheiro e paramilitarismo. Entre seus clientes esteve Alex Saab, que foi acusado pelas autoridades estadunidenses de lavagem de dinheiro.

No Chile, José Antonio Kast é filho de Michael Kast Schindele. Uma ficha encontrada no Arquivo Federal alemão registra a filiação de um Michael Kast ao Partido Nazista, em 1942. A documentação coincide com os dados biográficos do pai de Kast. Não à toa, o pré-candidato do Chile se diz um admirador do ditador Augusto Pinochet.

Mas talvez o ponto mais importante, ao observar a aproximação de governos latino-americanos com o projeto político de Trump e Marco Rubio, seja discutir quais são os resultados concretos dessa escolha para suas populações: pobreza, desigualdade, precarização do trabalho e dificuldades no acesso a serviços públicos. É preciso olhar para esses resultados com dados, e não apenas com slogans políticos.

O Brasil já viveu, entre 2019 e 2022, uma experiência de governo marcada por forte alinhamento político com Donald Trump, responsável por uma das maiores tragédias sanitárias de sua história, pelo agravamento da fome e por uma crise institucional que culminou nos ataques contra a nossa democracia em 8 de janeiro de 2023. Durante o governo Bolsonaro, o país chegou a registrar mais de 700 mil mortes por Covid-19.

Agora, o adversário de Lula é justamente um dos filhos de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro também carrega uma trajetória política marcada por escândalos: foi acusado de praticar a chamada “rachadinha” em seu gabinete como deputado, de ter relações com milicianos e, no caso do filme Dark Horse, é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.

Mais recentemente, a relação entre Flávio Bolsonaro e os interesses dos Estados Unidos ganhou uma dimensão ainda mais concreta com a discussão sobre as tarifas impostas por Trump ao Brasil. Documentos do governo americano revelados durante a campanha apontaram que questões relacionadas à eleição brasileira apareceram nas negociações entre Washington e Brasília.

É nesse cenário que a discussão sobre soberania deixa de ser uma abstração. A eleição brasileira ocorrerá em um momento de forte disputa geopolítica, no qual Washington procura não apenas ampliar sua influência sobre a América Latina, mas transformar a região num verdadeiro protetorado, enquanto alguns governos da região se aproximam abertamente da estratégia de Trump.

A eleição não é entre Lula e Flávio. Na realidade, é entre Lula e Trump.

No fim, a questão central é menos ideológica do que parece: quem ocupará o Palácio do Planalto terá de decidir até onde o Brasil está disposto a ir para preservar sua soberania diante da maior potência do mundo.

E essa talvez seja uma das questões decisivas que o eleitor brasileiro terá de responder em 2026: um Brasil que negocia com Washington como país soberano ou um Brasil cuja política externa passa a ser condicionada pelos interesses de Washington?

Fonte: Brasil 247

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