Mercadante alerta para risco de Flávio Bolsonaro abrir informações estratégicas do Brasil aos EUA
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou nesta quarta-feira (23) que a participação dos Estados Unidos em uma eventual transição de governo liderada por Flávio Bolsonaro (PL) poderia colocar informações estratégicas do Estado brasileiro ao alcance de outro país.
A declaração foi feita durante a 5ª edição da J. Safra Investment Conference, promovida pelo Banco Safra em São Paulo. O encontro ocorre nos dias 22 e 23 de setembro e reúne empresários, investidores, gestores e autoridades para discutir economia, eleições e investimentos.
Mercadante criticou a proposta atribuída ao candidato presidencial de envolver representantes norte-americanos no processo de transição caso ele vença a eleição. Segundo o presidente do BNDES, esse período permite ao governo eleito ter contato com informações sensíveis de diferentes áreas da administração pública.
“Você tem acesso a todas as informações, da defesa, de milhares de clientes, do Banco Central, do PIX. Como é que você vai abrir essas informações para outro país?”, questionou.
O presidente do BNDES também criticou manifestações de apoio, no Brasil, às medidas comerciais adotadas pelo governo do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra produtos brasileiros.
“O cara faz um tarifaço de 50% e o pessoal põe o chapeuzinho do Maga, vai com a bandeira americana e sai batendo palmas na rua. Isso não tem como dar certo”, afirmou.
As relações comerciais entre Brasília e Washington atravessam um período de tensão. O governo brasileiro contesta na Organização Mundial do Comércio (OMC) tarifas impostas pelos Estados Unidos a diferentes produtos nacionais.
Mercadante fala em risco de “neocolonialismo”
Durante sua participação no evento, Mercadante ampliou as críticas para a disputa internacional por recursos naturais e tecnologia. Ele afirmou que o Brasil corre o risco de ingressar em um processo de “neocolonialismo” caso aceite condicionamentos externos sobre decisões estratégicas.
O presidente do BNDES citou exigências que, segundo ele, foram apresentadas pelos Estados Unidos em negociações comerciais e defendeu que o país preserve sua capacidade de decidir sobre empresas, investimentos e exploração de recursos naturais.
“Nós não podemos vender nenhuma empresa, nem podemos definir o que nós vamos explorar antes de consultar se os americanos têm interesse. Nós vivemos 400 anos como colônia. Nós estamos indo para um neocolonialismo digital e um neocolonialismo na região. Isso não é sustentável, isso não é correto”, afirmou.
A discussão ocorre em meio ao aumento da importância geopolítica dos chamados minerais críticos, utilizados em setores como tecnologia, defesa, produção de baterias e transição energética.
Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação prevê instrumentos para estimular o processamento desses recursos no Brasil e ampliar a participação da indústria nacional na cadeia produtiva.
Defesa de autonomia sobre minerais críticos
Mercadante afirmou que as dimensões territorial, econômica e mineral do Brasil justificam uma estratégia própria diante da disputa internacional por matérias-primas consideradas essenciais para as novas tecnologias.
“Nós somos grandes demais para aceitar o que quer que seja. Nós precisamos defender e falar e mostrar o Brasil para o mundo com altivez, com autonomia, com interdependência, com realismo em relação aos minerais críticos”, disse.
Para o presidente do BNDES, a posição brasileira nesse mercado amplia a necessidade de preservar a autonomia nas relações internacionais.
“Nós somos um país independente, nós somos um país grande, nós estamos entre as três maiores economias do mundo, na nova fronteira mineral”, afirmou.
A agenda de minerais críticos também passou a integrar as políticas recentes do próprio BNDES. O banco abriu neste mês uma nova etapa do Plano Brasil Soberano, que inclui linhas de financiamento destinadas a setores estratégicos e à cadeia de minerais críticos, além de empresas atingidas por tarifas comerciais dos Estados Unidos.
Fonte: Brasil 247