O espelho do poder
Por Renata Medeiros — Brasil 247
A extrema direita não vive apenas de ideias. Vive também de afetos. E talvez seja justamente por isso que sua força política não possa ser compreendida apenas pela racionalidade dos seus discursos. Há alguma coisa anterior à escolha política: o ressentimento, a sensação de perda, a humilhação e o desejo de recuperar, ainda que imaginariamente, uma potência que se sente roubada.
É aqui que a cientista política norte-americana Wendy Brown nos ajuda a pensar o presente. Em sua crítica à racionalidade neoliberal, Brown mostra como a corrosão do mundo comum e a transformação de sujeitos em indivíduos concorrentes produzem uma experiência de desamparo político. Quando o espaço público deixa de ser percebido como lugar de construção coletiva, a frustração não desaparece. Ela procura um culpado.
Freud já havia percebido que a identificação pode oferecer ao indivíduo algo que ele não encontra em si mesmo. O líder passa a funcionar como uma espécie de espelho: nele, o sujeito enxerga a força que gostaria de possuir, a autoridade que gostaria de exercer, a potência que sente ter perdido. Não recebe essa potência de fato. Recebe sua imagem.
É aí que a política da extrema direita encontra terreno fértil. Ela oferece ao ressentido não necessariamente uma saída para sua falta, mas alguém sobre quem descarregá-la. O outro passa a ser o responsável por tudo aquilo que não deu certo: o pobre, o estrangeiro, a esquerda, as instituições, a imprensa, o Judiciário, qualquer um que possa ocupar o lugar do inimigo.
A política deixa de ser disputa entre projetos e passa a ser uma guerra moral. E, nessa guerra, quanto maior a humilhação do outro, maior parece ser a própria força.
Flávio Bolsonaro é uma expressão particularmente reveladora desse fenômeno. Não porque seja apenas mais um candidato da direita, mas porque carrega a herança política de um movimento que transformou o ressentimento em identidade e a agressividade em linguagem de poder. A aparência de força importa tanto quanto o conteúdo da política. Talvez por isso a imagem do candidato de sunga branca, faixa presidencial e pose de galã de propaganda de verão tenha produzido tanto riso. Mas o ridículo não deveria nos distrair do que existe por trás dele.
A sunga é ridícula. A política que ela ajuda a encenar não é.
Porque, quando olhamos para as alianças e para os personagens que orbitam esse projeto, o problema deixa de ser estético. Em fevereiro, Flávio escolheu para integrar seu palanque no Rio o prefeito Márcio Canella, que havia nomeado dois condenados por práticas de milícia para secretarias municipais. Em julho, Canella foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal em investigação sobre lavagem de dinheiro.
Agora, em setembro, uma reportagem da Folha revelou que uma assessora de Flávio negociou, em 2023, a liberação de emendas parlamentares com Robson Calixto, o “Peixe”, condenado pelo STF por integrar a milícia envolvida no assassinato de Marielle Franco. Segundo a reportagem, a Polícia Federal apontou a assessora como interlocutora direta do miliciano no gabinete do senador e identificou indícios de proximidade entre Calixto e o próprio Flávio. A defesa do candidato afirma que os repasses foram legais e seguiram critérios técnicos.
Não se trata de atribuir a Flávio, o mitômano, crimes cometidos por terceiros. Trata-se de perguntar o que significa politicamente a escolha de alianças, interlocutores e companhias. E também de lembrar que essa não é uma história inteiramente nova: quando deputado estadual, Flávio condecorou Adriano da Nóbrega, apontado pelas autoridades como chefe de milícia.
É nesse ponto que a psicanálise encontra a política de maneira quase brutal. O discurso da ordem pode conviver com a proximidade de estruturas que vivem da violência. A promessa de segurança pode caminhar ao lado de relações com aqueles que fizeram da intimidação um instrumento de poder. O discurso contra o crime não impede, necessariamente, a convivência política com personagens que transitam no seu entorno.
O que está em jogo, portanto, não é apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. É que tipo de Estado se pretende construir a partir dele.
É isso que acontece quando o Estado deixa de ser percebido como um bem comum e passa a ser imaginado como propriedade de um grupo.
A consequência é a transformação da República em patrimônio dos vencedores, dos aliados, dos que chegaram mais perto do poder. E talvez seja essa a imagem mais precisa para o projeto que se desenha: o Planalto convertido numa espécie de Versailles tropical, com sua corte, seus privilégios, seus súditos e suas alianças improváveis — enquanto, do lado de fora, permanece o país real.
A fantasia de potência, nesse caso, não é apenas individual. Ela se torna projeto de poder. O líder promete restaurar a grandeza perdida, devolver orgulho aos humilhados e impor respeito aos que se sentem desprezados. Mas, por trás dessa promessa, pode estar apenas a velha operação do ressentimento: transformar a própria impotência em desejo de domínio.
Freud chamou atenção para a agressividade que pode atravessar os vínculos humanos. Wendy Brown nos ajuda a compreender como determinadas formas de organização política podem transformar essa agressividade em energia pública. A extrema direita faz justamente essa operação quando converte frustração em ódio, medo em autoridade e ressentimento em programa político.
Por isso, talvez seja um erro rir demais da sunga branca.
Ela é apenas a imagem mais grotesca de uma fantasia muito mais séria: a fantasia de que o poder existe para devolver a alguns aquilo que eles acreditam ter perdido — ainda que, para isso, seja preciso transformar o Estado em propriedade privada de uma tribo política.
E uma República não sobrevive quando deixa de ser de todos.
Fonte: Brasil 247