O dilema de Pazolini: usar ou não a carta Flávio Bolsonaro nesta reta final do 1º turno?

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Publicado em 28 de Setembro de 2026 às 14:11

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Os resultados gerais do último levantamento da Quaest para a Rede Gazeta, divulgados na última sexta-feira (25), colocam Lorenzo Pazolini
(Rep) e seus estrategistas de campanha diante de um dilema: usar a carta Flávio
Bolsonaro (PL) nesta reta final da campanha no 1º turno ou guardá-la para
utilizá-la, somente “em caso de necessidade”, num muito provável 2º turno entre
ele e Ricardo Ferraço (MDB)?

De maneira geral, os resultados da pesquisa vieram positivos
para o ex-prefeito de Vitória. Inequivocamente, os números indicam que a
estratégia mantida por ele até aqui tem funcionado (sem menção alguma a Flávio Bolsonaro
e sem nenhum sinal de pretender nacionalizar a eleição local).

Um ponto fundamental nesta análise, verificado no cruzamento
dos dados, é que, em quatro semanas de campanha, entre 27 de agosto e 25 de
setembro, Pazolini cresceu especialmente entre eleitores que se declaram de “direita
não bolsonarista”. Seria, por assim dizer, uma direita mais moderada, muito
menos radical (que o PL, inclusive).

No Espírito Santo, essa fatia do eleitorado é grande. E é
justamente nessa faixa da pista que Pazolini está buscando transitar. “Direita
moderada” é, precisamente, como ele tem buscado apresentar-se ao eleitorado
capixaba.

Na intenção estimulada de 1º turno, entre os
entrevistados que se declaram de “direita não bolsonarista”, Pazolini deu um
salto de 11 pontos percentuais, subindo de 42% para 53% nesse segmento. 

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Já na simulação de 2º turno contra Ricardo, o crescimento do
ex-prefeito nessa parcela do eleitorado foi ainda mais expressivo: sua vantagem
sobre o governador, de 17 pontos em agosto, agora dobrou, passando para 34
pontos. Em agosto, Pazolini tinha 50% da preferência, contra 33% de Ricardo.
Agora, subiu para 62%, contra 28% de Ricardo. Isso, repito, na “direita não
bolsonarista”.

E quanto aos eleitores declaradamente “bolsonaristas”? Aí,
observem, houve pouca variação, dentro da margem de erro da pesquisa (de 3
pontos para mais ou para menos). No 1º turno, Pazolini oscilou de 51% para 49%.
No 2º turno, passou de 55% para 57%. Já tinha e segue tendo mais de 50% nesse estrato.
Isso significa que ele já dominava e segue dominando esse segmento (mesmo sem
precisar expor Flávio Bolsonaro em sua campanha).

Ao mesmo tempo, Pazolini também ganhou algum
terreno entre eleitores que se declaram “independentes” e até, de modo
relativamente surpreendente, entre eleitores “de esquerda não lulista”.

Nesse sentido, lançar mão da “carta Flávio Bolsonaro” a esta
altura, a poucos dias do 1º turno, pode ser um grande risco para Pazolini, o
qual precisa ser muito bem calculado. É a famosa “faca de dois gumes”.

Por um lado, ostentar sua aliança com o PL e com Flávio
Bolsonaro na certa levaria ao delírio os eleitores do “bolsonarismo raiz”, que
também não são poucos no Espírito Santo, fazendo esse voto “descer” ainda mais
na urna para Pazolini.

São aqueles eleitores que só votam em “candidatos do
Bolsonaro” e que, em grande parte, só expressam a preferência ou “aparecem” nos
últimos dias de campanha. São os mesmos que foram, por exemplo, determinantes
para impulsionar Manato (PL) e ajudá-lo a chegar ao 2º turno contra Casagrande
em 2022. Esse é o “ganho” certo e bastante previsível nesta conta.

Por outro lado, há o risco de perda para Pazolini. Se ele
pode ganhar por um lado (num segmento, lembremos, já dominado por ele), também
pode perder por outro, em segmentos nem um pouco simpáticos à família
Bolsonaro. 

Se, nos últimos dias de campanha, Pazolini começar a agitar
a carta Flávio Bolsonaro, exibindo-o em suas peças de propaganda e explicitando
a aliança com o PL, ele corre o sério risco de perder as intenções de voto da
esquerda não lulista, grande parte das intenções de voto dos eleitores
independentes e até parte das intenções de voto dessa “direita não
bolsonarista” que é justamente onde ele mais está crescendo.

Sim, não se enganem: boa parte da “direita não bolsonarista”
se declara “direita não bolsonarista” justamente por não engolir ao clã Bolsonaro
e o extremismo político inerente à história da família. Se de repente Pazolini
começar a se apresentar ao lado de Flávio, colando no filho do Jair, esse
eleitor da direita mais moderada pode olhar para o lado e pensar “Quer saber? Se
é assim, vou com Ricardo”.

O atual governador, no fim das contas, também é um político de centro-direita,
também tem se apresentado com discurso moderado, também tem evitado
nacionalizar o debate local e também tem evitado entrar em pautas ideológicas
(a “brigalhada ideológica”, como diz…).

Ao mesmo temo tempo em que faz acenos a esse eleitor de
direita, celebrando os “valores cristãos” (“O Estado é laico, mas a sociedade
capixaba é cristã”) e apresentando-se como conservador nos costumes, Ricardo
não tem ao seu lado… o PL nem Flávio Bolsonaro.

O tiro da arminha com a mão pode sair pela culatra. 

A “Carta Magna”

Além disso, nesta discussão, não podemos desprezar uma outra
carta que vem a reboque da primeira: a carta Magno Malta. Explicitar a parceria
eleitoral com Flávio Bolsonaro significa assumir publicamente o “namoro” com o
PL e, portanto, passear de mãos dadas na pracinha com o senador que, há
décadas, comanda e controla o partido da família Bolsonaro no Espírito Santo.

Neste Estado, PL é igual a Magno Malta. É uma metonímia: o
todo é tomado pela parte.

Dentro do eleitorado bolsonarista de carteirinha, Magno é
celebrado, aclamado e adorado, cultuado e idolatrado… Fora dali, ao
contrário, é grande a rejeição ao senador. É caso típico de “oito ou oitenta”.
E, de novo: nesse estrato do eleitorado, Pazolini já ganha com sobras.

O QG de campanha de Pazolini parece ter ciência disso, pois
vejam só que interessante: desde o início da campanha, a proximidade do
candidato com Maguinha Malta (PL) é mínima (um ou outro ato de campanha); com a
Bispa Eliane Leal (PL) é mínima (um ou outro ato de campanha); com Flávio e
Magno Malta, é zero.

No período decisivo das convenções, Pazolini cumpriu sua
obrigação: em busca do apoio do PL, de fato essencial para ampliar sua
competitividade e igualar suas condições de disputa com Ricardo Ferraço, o
ex-prefeito apareceu em dois eventos públicos decisivos, promovidos pelo PL-ES:
no dia 18 de julho, esteve com Magno, Maguinha e companhia, numa casa de shows
de Vitória, em encontro estadual do PL protagonizado por Flávio Bolsonaro.

Poucos dias depois, compareceu pessoalmente à convenção
estadual do PL, na qual o partido homologou coligação estadual com o
Republicanos e apoio a ele para governador.

Nos dois eventos, Pazolini não tirou fotos com Magno nem se
sentou precisamente ao lado dele. Fez discursos curtos, quase protocolares,
fugindo de bolas divididas e sem adentrar demais na “pauta bolsonarista”.

Nas duas ocasiões, vagamente, limitou-se a dizer que o
Senado precisa voltar a exercer a sua função de ser a Casa do equilíbrio entre
os Poderes. Ao lado de Flávio Bolsonaro, concentrou-se em falar de redução dos
feminicídios – pauta dele mesmo na campanha estadual e que ajuda Flávio a
suavizar sua imagem junto ao eleitorado feminino.

O ex-prefeito aceitou absorver Maguinha Malta e declarou
apoio a ela como uma de suas candidatas ao Senado – além de Evair de Melo
(Republicanos). Essa era a condição principal de Magno para lhe entregar o
apoio do PL. Também aceitou “receber” a Bispa Eliane Leal como sua candidata a
vice-governadora, indicação pessoal do próprio Magno.

No entanto, uma vez iniciada a campanha, Pazolini afastou-se
de Magno. Nunca cita o nome do senador. Nós da imprensa é que lhe perguntamos
sobre Magno.

Tanto na sabatina como no debate promovidos por A Gazeta e
CBN Vitória, questionamos o ex-prefeito sobre como será eventual participação
do PL e do senador em seu governo, em caso de vitória, além de outros expoentes
da extrema direita no Espírito Santo. Nas duas oportunidades, Pazolini saiu
pela tangente, com um vago “vou governar com todos”.

Também nos debates e sabatinas, sempre que indagado sobre
temas muito importantes na agenda ideológica do bolsonarismo, Pazolini dá
respostas típicas de um político justamente de “direita mais moderada”, ou “direita
não bolsonarista” (conceito adotado pela Quaest). Faz acenos aos bolsonaristas,
mas sem radicalizar em seus posicionamentos. Não mergulha de cabeça nessa água;
só entra até a cintura.

Por exemplo, sem dizer “discordo”, discordou de
bolsonaristas como Magno (e do próprio Jair Bolsonaro), ao dizer acreditar nas
vacinas contra a covid-19 e na credibilidade das urnas eletrônicas. Questionado
especificamente sobre a tese de manipulação das eleições de 2022 pelo ministro
Alexandre de Moraes, então presidente do TSE, preferiu afirmar que ministros do
STF têm extrapolado suas atribuições e competências constitucionais.

Questionado se houve golpe de Estado por parte de Bolsonaro
e dos participantes do 8 de janeiro, preferiu opinar que, para ele, houve
excessos na dosimetria das penas, pois o que ficou configurado foi o crime de
dano qualificado ao patrimônio. Sobre tentativa de golpe, não disse nem que sim
nem que não.

É nessa raia que Pazolini tem corrido até o momento.

Se mudará ou não agora a estratégia, lançando a carta Flávio
Bolsonaro, um estrategista da campanha dele afirma que isso está em avaliação
interna. Ainda não há definição.

Voto e preferência individual é uma coisa. Mas é preciso registrar que Pazolini jamais se declarou bolsonarista. Na sabatina feita com ele por A Gazeta e CBN Vitória, a primeira pergunta que lhe fiz foi exatamente se ele se considera assim. Teve a chance de se dizer bolsonarista. Não respondeu nem que sim nem que não.

“É tempo de paz”. Essa é mola-mestra do discurso de campanha de Pazolini. O histórico e a retórica da família Bolsonaro não combinam bem com essa ideia. Sempre tiveram muito mais a ver com belicosidade do que com pacifismo, tanto no discurso como nas posições políticas, da defesa da tortura e de torturadores (pelo pai) à defesa da ação de milícias e homenagem a miliciano (pelo filho).

É algo a se considerar…

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Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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