O cuidado no centro do debate
Por fernandaestima — Fundação Perseu Abramo
Todas as pessoas necessitam de cuidados cotidianamente, e apesar de esta ser uma questão econômica central, esse trabalho não é devidamente compartilhado, recaindo sobretudo sobre as mulheres. Em ano eleitoral, o tema aparece no debate público sob perspectivas distintas: para alguns, a solução está em reforçar o papel das famílias e, dentre elas, das mulheres; para outros, exige maior presença do Estado.
As atividades de cuidado constituem uma infraestrutura invisível da economia. Sem elas, ninguém trabalha, estuda, produz ou consome. No Brasil, porém, grande parte dessas tarefas permanecem sob responsabilidade das famílias. Quando não remunerado, não entra nas estatísticas de produção e fica à margem do debate econômico.
Dados do IBGE mostram que as brasileiras dedicam cerca de 21 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado não remunerado, quase o dobro dos homens. Há fortes indícios de que esses números sejam subestimados.
Apesar de essencial, esse trabalho raramente é reconhecido. Às mulheres que cuidam em tempo integral faltam apoio, valorização e autonomia financeira. Para as que não podem abrir mão da renda, resta a dupla jornada. Estudos do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/USP) mostram que, somadas as horas de trabalho remunerado e não remunerado, a jornada total das mulheres supera a dos homens no Brasil.
Essa desigualdade afeta o bem-estar das mulheres e também a economia. Quando uma mulher reduz a jornada remunerada, recusa uma promoção, busca um emprego informal mais flexível ou deixa o mercado para cuidar de um familiar, o país perde renda, arrecadação e talento. Ela continua trabalhando, mas perde remuneração, proteção social e reconhecimento.
A pressão tende a aumentar. O Brasil envelhece, as famílias encolhem e as mulheres ampliam sua participação no mercado de trabalho. Manter um modelo que concentra o cuidado nas famílias – e, sobretudo, nas mulheres – significa aprofundar uma crise já em curso.
Essa realidade não é inevitável. A população depende de serviços públicos de cuidado, mas a infraestrutura é insuficiente. O IBGE projeta que, em 2060, o Brasil terá cerca de dois terços da população de crianças que tem hoje, enquanto a população idosa mais que dobrará. Isso elevará a demanda e mudará o perfil dos serviços necessários.
Tratar o cuidado como política pública não significa substituir o afeto familiar, mas reconhecer que é um direito de quem necessita e uma responsabilidade compartilhada entre Estado, mercado, comunidade e famílias.
Em 2024, o Brasil instituiu o direito a cuidar, ser cuidado e ao autocuidado. Transformá-lo em realidade exige ampliar creches, fortalecer a atenção à pessoa idosa, valorizar os trabalhadores do setor e construir uma infraestrutura capaz de reduzir a sobrecarga feminina.
O Plano Brasil que Cuida, lançado em 2025, foi um passo nessa direção. O desafio é assegurar continuidade, financiamento adequado e presença do cuidado no debate político.
Diante disso, o Brasil precisa decidir como cuidará de sua população no futuro. Continuaremos organizando a economia como se o tempo das mulheres fosse um recurso inesgotável e gratuito ou assumiremos coletivamente essa responsabilidade?
Enquanto prevalecer uma organização do cuidado centrada nas famílias e nas mulheres, seguiremos reproduzindo desigualdades que limitam sua autonomia econômica, restringem o crescimento do país e mantêm invisível um dos trabalhos mais indispensáveis à sociedade. Reconhecer o cuidado como infraestrutura econômica é um passo para um desenvolvimento mais justo e sustentável.
Luiza Nassif Pires é professora do Instituto de Economia da Unicamp e Codiretora do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made-USP).
Clara Saliba é doutoranda em Economia na Unicamp e pesquisadora do Made-USP e do CESIT-Unicamp.
Fonte: Fundação Perseu Abramo